COULIANO, Ioan P. Expériences de l’extase: extase, ascension et récit visionnaire de l’hellénisme au Moyen Age. Paris: Payot, 1984
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Plutarco e a Atualização dos Mitos Escatológicos Platônicos
- Plutarco, já sacerdote em Delfos por volta do ano 100 d.C., empreendeu a atualização dos grandes mitos escatológicos de Platão, notadamente os do Górgias, Fédon, República e Fedro.
- A aventura de seu personagem Arideu-Tespésio de Soli tem como modelo a jornada extática de Er, enquanto o mito de Timarco de Queronéia (De genio Socratis) inspira-se no Fédon.
- A perspectiva de Plutarco é fundamentalmente iniciática, criando uma antítese escatológica entre o destino do eleito e o da massa, embora sua principal fonte de inspiração permaneça sendo o próprio Platão.
- Sua metodologia combina um conservadorismo no uso de materiais mitológicos arcaicos e pré-platônicos com um lado inovador na exegese contemporânea, buscando conciliar Platão com o Zeitgeist de sua época.
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A Katabasis de Timarco no Antro de Trofônio
- Timarco de Queronéia, provavelmente um personagem inventado por Plutarco, realiza uma catabase (descida) no antro do oráculo de Trofônio em Lebadeia para compreender a natureza do demônio socrático.
- O ritual de incubação no oráculo, descrito em detalhes por Pausânias, envolvia:
- Purificação com abstinência de coisas ilícitas e banhos rituais no rio Hercyna.
- Sacrifício de um carneiro negro para verificar os presságios.
- Unção com óleo por crianças chamadas Hermai.
- Beber das fontes de Lethe (esquecimento) e Mnemosyne (memória).
- Penetração na gruta, de pés para a frente, segurando um bolo de mel, sendo aspirado para o adyton por um sopro poderoso.
- O ritual possuía profundas conexões com a iniciação e a morte, homologando o postulante a um morto. Práticas análogas são encontradas em contextos xamânicos e em tradições posteriores, como o Tractatus de Purgatorio Sancti Patricii na Irlanda medieval.
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A Experiência Extática e a Cosmologia Visionária de Timarco
- Ao descer na escuridão do antro, Timarco sente um golpe na cabeça com um ruído estrondoso, e as suturas de seu crânio se abrem, permitindo a saída de sua alma – um detalhe que encontra paralelos notáveis nas tradições indo-tibetanas (brahmarandhra) e no xamanismo, onde a alma sai e entra pelo crânio.
- Liberta, sua alma expande-se como uma vela que se desfralda, ouvindo a harmonia das esferas e contemplando os astros como ilhas flutuantes no éter.
- A visão cosmológica detalhada inclui:
- Um lago representando a esfera celeste.
- Uma corrente rápida representando o equador celeste.
- O zodíaco situado no cinturão tropical.
- Duas correntes de fogo (interpretadas como os rios infernais Piriflegetonte e Cocito de Platão, ou os braços da Via Láctea) desaguando no mar celeste.
- Ilhas fixas (estrelas) e errantes (planetas) com movimentos distintos.
- Um vasto abismo esférico e tenebroso é identificado como a própria Terra, vista de cima como o Hades/Tártaro, uma inversão da perspectiva do Fédon platônico.
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A Doutrina das Junções Cósmicas e a Função da Lua
- Uma Voz incorpórea informa a Timarco que as regiões superiores pertencem a outros deuses e limita suas perguntas ao lote de Perséfone, um dos quatro impérios delimitado pelo Estige.
- O Estige é definido como o caminho do Hades, um rio que sobe do Hades e delimita a zona da luz em seu ponto mais alto, tocando a lua em intervalos regulares (as eclipses).
- É exposta uma doutrina das quatro junções cósmicas, ligando os princípios da vida, movimento, geração e corrupção:
- Cada junção é guardada por uma Parca: Atropos (a primeira), Cloto (a segunda) e Láquesis (a terceira, na lua).
- A lua, propriedade dos demônios terrestres, é o local onde certas almas, durante as eclipses, se desprendem e retornam ao ciclo da metensomatose (transmigração). Sua geografia inclui a "antecâmara de Perséfone", os "campos elísios" e o "reduto de Hécate" para o sofrimento das almas más.
- A origem desta doutrina é disputada, com hipóteses que vão desde Xenócrates até possíveis influências indo-iranianas (três céus), mas a teoria parece ser uma reinterpretação original de Plutarco da escatologia platônica, transportando o paisagem infernal para o cosmos.
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O Mito de Arideu-Tespésio: Conversão através da Morte Aparente
- Arideu de Soli, um homem dissoluto, sofre uma queda, morre aparentemente e revive três dias depois no túmulo, experimentando uma conversão radical que o torna um homem justo e piedoso, mudando seu nome para Tespésio ("o divino").
- Sua experiência visionária, involuntária como a de Er, é desencadeada por um "acidente eletivo". Durante sua morte aparente, sua alma racional sai do corpo, provocando uma desorientação inicial seguida por uma visão intelectual plena, como um "olho único" que vê em todas as direções.
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A Jornada Visionária de Tespésio e sua Estrutura em Sete Sequências
- A apocalipse de Tespésio articula-se em sete sequências principais:
- As Mensageiras da Justiça: Adrasteia, filha de Ananké e Zeus, administra a justiça através de três Erínias: Poiné (para faltas leves, punidas no corpo e através de corpos), Díke (para culpados graves mas curáveis) e Erínis (para culpados incuráveis, lançados no Tártaro).
- A Cor das Almas: As paixões terrestres deixam cicatrizes coloridas nas almas: sombra e suja (baixeza e cobiça), vermelho inflamado (crueldade e dureza), verde (intemperança nos prazeres) e violeta (maldade e inveja). Essas cores exigem purificação ou levam à encarnação em um corpo animal.
- O Destino dos Iniciados Dionisíacos (Lethe): Um abismo paradisíaco, um antro dionisíaco chamado Lethe, onde as almas experimentam prazer constante. No entanto, o prazer dissolve a parte racional da alma e umedece-a, despertando o desejo de reencarnação. A iniciação dionisíaca é assim considerada inferior, pois leva de volta ao ciclo de metensomatose.
- A Cratera dos Sonhos: Um local onde três demônios misturam a substância ilusória dos sonhos. Orfeu é criticado por não ter ido além deste ponto e por transmitir a opinião falsa de que o oráculo de Apolo e o da Noite eram comuns, quando na verdade são o oráculo da Lua e da Noite que erram entre os homens através dos sonhos.
- O Oráculo de Apolo: Representado por um trípode celestial de luz insuportável, situado em uma região inacessível, contrastando com as figuras "místicas" e ambíguas de Dioniso e Orfeu.
- Os Suplícios Infernais: Tespésio testemunha o castigo de quatro categorias de pecadores: hipócritas (esfolados e invertidos), inimigos mútuos (que se devoram), pecadores graves (imersos em lagos de metal fundido ou congelado) e reincidentes (perseguidos por seus próprios descendentes).
- A Metensomatose: A reencarnação das almas, ilustrada pela alma de Nero, inicialmente destinada a se tornar uma víbora, mas recebendo um destino melhor no último momento.
- A apocalipse de Tespésio articula-se em sete sequências principais:
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Conclusão: A Originalidade de Plutarco dentro da Tradição Platônica
- O cenário da apocalipse de Tespésio mantém-se fiel ao mito de Er de Platão.
- A principal inovação de Plutarco reside na mudança dos marcos cosmológicos tradicionais, refletindo a generalização da escatologia celeste em sua época, onde a geografia do além é projetada no cosmos.
- Plutarco demonstra uma clara hierarquia entre as iniciações: a dionisíaca é inferior por conduzir de volta à reencarnação, enquanto a eleusina (implícita) é superior. Sua crítica a Orfeu e sua exaltação de Apolo mostram uma preferência pelas divindades olímpicas tradicionais em detrimento das figuras "místicas".