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id da página: 6348 Conhece-te a ti mesmo

Conhece-te a ti mesmo

CONHECE-TE A TI MESMO

VIDE: gnothi seauton

Filosofia

Arcângelo Buzzi: Excertos de Ensaios de Filosofia

No frontispício do templo de Apolo, que engenhosas mãos, no sabor da vida quotidiana pré-científica, construíram nas montanhas de Delfos, na época do saber dos mitos da Grécia Antiga, havia inscrita a recomendação do deus: gnooti s'autón — Conhece-te a ti mesmo.

Essa recomendação — gnooti s'autón — hoje traduzida em todas as línguas e levada pelos mídia aos quatro cantos da terra, se acha facilmente ao alcance de toda humanidade, embora nem sempre no sabor de seu saber.

Para significar visivelmente a compreensão sapiencial do Conhece-te a ti mesmo, os antigos gregos a cinzelaram no frontal do templo de Delfos, dedicado a Apolo. Na arquitetônica do templo — nessa magnífica representação visual, erguida no altiplano das montanhas de Delfos expressaram não só o conhecimento em que compreendiam a relação essencial entre o universo sem fim e o Divino Infinito, mas também e sobretudo o conhecimento que tinham de si próprios como eixo de conjunção entre o Divino Infinito e os existentes finitos. Por se reconhecerem nessa conjunção mediadora, nesse intermédio, deram-se a si próprios, isto é, ao homem, o nome de microcosmos para diferenciá-la daquela outra do macrocosmos.

"O homem não é microcosmos no sentido de miniatura do mundo. O homem é microcosmos no sentido de con-juntura da identidade, isto é, de con-juntura em que se juntam as diferenças no ser de tudo que é" (E.C. Leão, Aprendendo a pensar, I, p. 84).

Conforme a imagem do templo, cada existente finito do universo, na secreta trama de seu originar-se e na visível figuração de seu constituir-se, estaria numa relação de vigor, de diferença própria e de identidade com o Infinito. Os primeiros vates do pensamento falaram o mesmo nas palavras que chegaram até nós:

"O Infinito apeiron engloba e governa tudo" Anaximandro.

"Como a terra, o sol e a lua, também o éter de tudo, a celeste via-láctea, o extremo olimpo e o calor dos astros: têm o ímpeto a tornar-se" Parmênides, frag. 10).

"E o vigor do homem, poderás compreendê-lo condignamente sem o vigor do todo?" (Platão, Fedro, 270c).

No ímpeto de se tornarem, cada qual consoante seu vigor, os existentes finitos comparecem em cena dando a impressão de serem comandantes de sua história, porque o vigor do Infinito neles se retrai. A experiência do retraimento do Infinito, do vigor do todo, porém, é o caminho e jamais outro que pode outorgar ao pensamento a sabedoria de si no questionamento dos existentes finitos.

"Pois retrair-se não é um nada puramente negativo. Retraimento pertence à dinâmica do próprio pensamento. O que se retrai até nos afeta e nos reivindica com mais vigor do que qualquer objeto. Um objeto apenas nos toca e atinge a pele, embora tocados pelo objeto quase sempre nos insensibilizemos para o que nos afeta. E nos afeta de um modo tão estranho que, ao tocar-nos como objeto, se retrai como mistério. O que assim se retrai é o que nos arrasta. No arrastão do retraimento estamos na tração do que, retraindo-se, nos atrai. (...) Na tração do retraimento, o homem é pensador" (E.C. Leão, Aprendendo a pensar, I, p. 86).

Segundo a sabedoria dos antigos, a relação proporcional mais íntima e bem ajustada entre o Infinito e o existente finito, entre o vigor do todo e o existente singular, não se realizaria no macrocosmos e sim no microcosmos, isto é, no homem, conforme a admoestação inscrita no frontispício do templo de Apolo: Conhece-te a ti mesmo. A admoestação estaria como que dizendo: reconhece, oh homem, no espelho da consciência que o inquieta, tua pobreza, semelhante à do templo erguido entre a terra e o céu. Um tal reconhecimento, porém, é dificílimo como podemos ler neste fragmento de Heráclito:

"Com o Logos (o vigor do todo), porém, que é sempre, os homens se comportam como quem não compreende tanto antes como depois de já ter ouvido. Com efeito, tudo vem a ser conforme e de acordo com este Logos e, não obstante, eles parecem sem experiência nas experiências com palavras e obras, iguais às que levo a cabo, discernindo e dilucidando, segundo o vigor, o modo em que se conduz cada coisa. Aos outros homens, porém, lhes fica encoberto tanto o que fazem acordados como se lhes volta a encobrir o que fazem durante o sono" (frag. 1).

O vigor do Infinito que engloba e governa tudo, o Logos que sempre é, se expande e se recolhe nos entes finitos. Parece evidente que aqui, nessa expansão difusa e contração recolhida, podemos vê-lo na magnificência de seu ser e ouvi-lo na sabedoria de sua palavra. Bastaria, por assim dizer, uma olhadela para dentro de nós mesmos e uma atenta escuta de sua voz para reconhecê-lo e assim ingressarmos na morada de sua luz. Heráclito, porém, nos adverte que não é tão fácil vê-lo e ouvi-lo no aconchego confortável de nossas lareiras e nem sequer percebê-lo na fúria de nossos desejos, porque não nos damos ao trabalho de tudo discernir e dilucidar segundo o seu vigor. E ainda quando nos damos a esse trabalho, a sabedoria do Logos mais parece que se retrai e, consequentemente, nos embaraçamos não só no pouco mas até e sobretudo no muito saber das impulsões de nosso próprio ser. Uma tal experiência foi testemunhada por Santo Agostinho nesta passagem de suas Confissões:

"Então que há de mais próximo de mim do que eu mesmo? Decerto, eu trabalho aqui, trabalho em mim mesmo, transformei-me numa terra de dificuldades e de suor copioso" (Confissões, livro X, cap. 16).

O discernimento dos existentes finitos e mormente a dilucidação do homem, esse existente privilegiado, só é possível na referência ao vigor do Infinito. O Logos Infinito, porém, não é o que está fora do finito. Antes o contrário! Embora absoluto em si mesmo, no gozo feliz de sua identidade, o Logos Infinito se expande e se contrai no tempo e no espaço dos existentes finitos. Numa linguagem mais criacional, podemos dizer que o Logos Infinito, pela onipotência de sua vontade, se torna, na singularidade de cada existente finito, intenção bem amada e bem realizada de si mesmo à semelhança do artista que na obra de arte realiza a inspiração bem amada de sua vontade.

"O desafio do Pensamento é a identidade. O difícil não é pensar muitos pensamentos. O difícil é pensar sempre a identidade do Pensamento em tudo que se pensa. A profundidade e dinâmica desta identidade é o vigor de um pensamento. O nível de um pensador não se avalia pela extensão de seus temas. A originalidade de um pensamento não é a novidade. (...) como o Autor do oráculo de Delfos, não nega nem afirma coisa alguma, assinala apenas o retraimento do mistério em tudo que nega e afirma. Apresentando a riqueza da identidade, deixa aparecer os limites de todo conhecimento e de toda reflexão. (...)'A identidade não tira. A identidade dá. Dá a riqueza do crescimento, por não se perder nem dispersar mas se conservar e manter nas diferenças que gera" (E.C. Leão, Aprendendo a pensar, I, p. 146).

E a presença essencial do Logos Infinito, essa inesgotável identidade, que torna cada existente finito extremamente difícil de ser conhecido em sua diferença. Isso porque o Infinito não se dá por partes nem se dá parcimoniosamente nos existentes finitos. Ele se dá por inteiro no máximo de sua identidade. Consequentemente, para conhecer os existentes finitos, no seu esplendor maior, só temos um caminho: andarmos atentos ao quanto neles o Infinito se dá e se retrai, se mostra e se esconde, se apresenta e se ausenta. Se retrai, se esconde e se ausenta não para nos perturbar mas para mais nos incentivar à pesquisa e à busca de saberes possíveis ao nosso alcance. E esta e não outra a recomendação inscrita no templo de Apolo em Delfos: Conhece-te a ti mesmo.


Toshihiko Izutsu: AUTOCONHECIMENTO

Michel Chodkiewicz: Excertos da introdução da versão em espanhol de Epître sur l'unicité absolue

"Cuando el secreto se te devela", escribe Balyani (§ 12 de nuestra traducción), "sabes (...) que tú mismo eres la meta de tu búsqueda (...) Verás Sus atributos como tuyos y Su esencia como tu esencia". Dicho en otras palabras: cuando conoces tu yo. conoces a tu Señor, porque tu yo es idéntico a tu Señor, el cual no es otra cosa que la Esencia divina misma. De la misma manera Ibn Sab'in. en el pasaje del Budd al'arif ya señalado en nota, declara: "aquél que se conoce a sí mismo conoce a su Señor. O mejor: se hace igual a su Señor". Ahora bien, el punto de vista de Ibn Arabi es bastante diferente. Ciertamente existe, metafísicamente. identidad: (El gnóstico, 'arif) conoce su yo por Su yo; mas su yo (nafsuhu) no es otra cosa que la Ipsidad divina (huwiyyat al-haqq) no hay ni habrá jamás ninguna cosa en la manifestación universal que sea distinta a la Ipsidad divina". "Aquél que conoce su yo de esta manera, conoce a su Señor porque éste lo ha creado de acuerdo a Su forma ('ala suratihi). Mejor aún: El es su yo y su realidad esencial". Mas, respecto a la modalidad y la finalidad del conocimiento del Señor mediante el conocimiento del yo. la posición de Ibn Arabi no coincide de ningún modo con la de Balyani. En primer lugar, es a contrario que el conocimiento del yo es, según aquél, conocimiento del Señor; el hombre no puede conocer el Señorío (rubu-biyya) más que midiendo su propia servidumbre ('u-budiyya). El vacío de la criatura revela la plenitud divina. Por tanto, sólo aquél que se conoce como servidor conoce a su Señor como Señor. En efecto, "las relaciones (con las criaturas, relaciones en virtud de las cuales Dios es Dios — mientras que la Esencia divina, en cuanto tal. en su absoluta trascendencia, no puede verse fijada a la uluhiyya, la "función de divinidad") son producidas por nuestras determinaciones esenciales (a'yanuna). Nosotros Lo hacemos "dios" (ilah) por nuestra "necesidad de dios" (ma'luhiyya-tuna). Por consiguiente. El nos es conocido porque nosotros nos conocemos. Por ello ha dicho el Profeta — que es la criatura más sabia en el tema de Alá: "Aquél que se conoce a sí mismo conoce a su Señor". Un pasaje de los Futuhat es todavía más explícito: "Dios (alhaqq). desde el punto de vista de su Unidad (ahadiyyatuhu) y de Su Esencia, no es lo que se llama "Alá" o "Señor", porque, desde ese punto de vista, El excluye toda fijación (idafa). Lo que se llama rabb, Señor, exige un marbub (un ser sobre el cual ejercer Su Señorío); lo que se llama "Alá" reclama un ma'luh (un ser sobre el cual ejercer la función de divinidad). La ciencia que tenemos respecto a nosotros mismos es, por tanto, el principio de la ciencia respecto a El. El Profeta dijo en relación a esto: aquél que se conoce a sí mismo conoce a su Señor".