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id da página: 11458 ALLARD L'OLIVIER – Iluminação do Coração – Ato e Potência

Allard Ato Potencia

André Allard l’Olivier – A Iluminação do Coração

ALLARD L’OLIVIER, André. L’illumination du coeur. Paris: Ed. Traditionnelles, 1977

I. A Busca da Verdade e o Problema da Existência do Sensível

  • A busca da verdade consiste em buscar "o que é" e dizê-lo, o que implica investigar tanto a essência inteligível das coisas como o seu modo de existir, podendo o erro ocorrer por equívocos sobre a natureza das coisas ou sobre a sua existência.
  • O problema principal que se coloca é o da existência ou não existência das coisas sensíveis, sendo que existir é exercer o ser em ato, e não ser o Existir puro.
  • Uma coisa sensível individual é uma essência nocional (essência stricto sensu) que permite dizê-la inteligivelmente, mas é também, devido à sua matéria, um conjunto de determinações que, com a essência estrita, constitui a sua essência lato sensu, a qual, enquanto tal, é um não-ser que "é" e não existe ainda.
  • Se a coisa sensível existe, a sua existência pode provir do poder criador de Deus, que também me existencia, ou do próprio existir de que sou dotado em virtude do princípio radical da minha subjetividade, sendo esta segunda resposta a que parece impor-se quando perco o sentido da existência real do sensível.

II. A Relação entre Essência e Existência no Sensível

  • Tal como um edifício precisa de luz para ser visto, a essência lato sensu de uma coisa sensível precisa de receber o ser em ato para se manifestar, não para o refletir simplesmente, mas para o exercer, de modo que a coisa seja unitariamente essência e existência.
  • Para que a coisa sensível tenha o estatuto de uma alteridade existencial real, o ato de ser deve ser exercido pela sua própria essência lato sensu, e não ser acrescentado do exterior, o que levanta a questão de saber como e de onde vem este ato de ser distinto do que me existencia.
  • A tendência natural do espírito humano é admitir que o mesmo ato de ser que existencia o sujeito cognoscente existencia também as coisas sensíveis, o que significaria que estas só existem da minha existência, sendo a noção de um "existente bruto", desprovido de inteligibilidade própria, um falso escape.
  • O princípio radical que me existencia, na medida em que o ser pensante que sou recebe a existência, não pode ser senão o Ato puro, o Existir puro, medido pela minha capacidade de o receber, permanecendo problemático o estatuto existencial do meu próprio corpo e, por consequência, das demais coisas sensíveis.

III. A Teoria Aristotélica do Ato e da Potência

  • Aristóteles elaborou uma teoria do ser que se diz de tudo sob quatro aspectos: o ser absolutamente em ato (Ato puro, Existir puro); o ser absolutamente em potência (potência pura, que não existe em si); o ser composto de ato e potência (a coisa sensível); e o ser que existe no composto (o acidente).
  • O ser absolutamente em ato é inefável, infinito e insensível, não sendo "algo", mas a razão pela qual as coisas existem, identificando-se com o princípio radical da subjetividade que profere o sum, mas de modo medido à capacidade de o receber.
  • O ser absolutamente em potência (matéria primeira) é um não-ser relativo, inexistente em si, ininteligível, mas capacidade de ser todas as essências misturadas indistintamente, sendo a raiz essencial das coisas sensíveis quando em composição com o ato.
  • A coisa sensível é um composto de potência e ato, um todo estruturado e acabado cujo ato finito se chama enteléquia, sendo esta tanto o ato como o próprio todo manifesto das suas determinações.
  • Os acidentes, determinações que individualizam as coisas dentro da mesma espécie, existem apenas no sujeito individual, não tendo um esse próprio, mas um inesse, dependendo da existência da coisa que determinam.

IV. O Estatuto Existencial do Sensível como Objeto de Pensamento

  • Na medida em que a coisa sensível percebida hic et nunc se apresenta desprovida de um estatuto existencial absoluto que garanta a independência da sua inteligibilidade, ela é reduzida à condição de objeto de pensamento, existindo apenas da existência de que, como ser pensante, sou dotado.
  • Assim reduzidas à imaginação criadora, as coisas sensíveis comportam-se como elementos de uma alucinação permanente coerente, sendo a sua composição de ato e potência ilusória, e o seu existir não distinto do existir que me posiciona.
  • É certo que existo pensante, e as minhas seguranças estão deste lado, ao passo que as percepções sensoriais, cuja veracidade ignoro, são objeto de desconfiança, sendo o sum que profero o que implica e desabrocha num cogito.

V. A Perspectiva Indiana da Não-Dualidade e a Correção Cristã do Aristotelianismo

  • A perspectiva do Sankhya-darshana hindu, com os seus princípios Purusha (Espírito, análogo ao Ato puro) e Prakriti (Natureza primordial, análoga à Potência pura), vê a manifestação como resultante da correlação destes dois, sendo, na doutrina Adwaita (Não-Dualidade), o mundo uma ilusão (Mâyâ) que se dissipa quando o homem, realizando-se como Purusha, toma consciência de que é Brahma.
  • Aristóteles, aparentemente realista, defende a existência real das coisas sensíveis, mas o seu sistema pode ser interpretado como um dualismo de princípios eternos ou como uma expressão mitigada do Sânkhya, requerindo uma correção para servir a espiritualidade cristã.
  • Esta correção, possibilitada pela Revelação, consiste em posicionar a matéria primeira como um princípio criado (e não eterno) para a limitação existencial de formas, distinto do Verbo divino, Toda-Poderosa operacional e lugar dos Arquétipos eternos, evitando assim a sua deificação e a visão do mundo como ilusão.