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id da página: 7701 Adestramento Búfalo Dez Etapas

Adestramento Búfalo Dez Etapas

Catherine Despeux — O CAMINHO DO DESPERTAR


Na China e no Japão as versões em dez etapas foram as mais comuns. No entanto, encontramos em várias obras do budismo Chan versões em quatro, cinco, seis oito e doze cenas. É necessário notar, desde o princípio, que a descrição das etpas da Via interior no adestramento do búfalo estão longe de ser tão precisas e rigorosas como os textos budistas que descrevem, por exemplo, as dez terras que deve atravessar o bodhisattva, o «candidato ao despertar»: cada comarca possui características precisas que não variam em absoluto de um texto a outro. É aqui sobretudo onde a inspiração poética do autor parece ter ditado a quantidade de etapas que conduzem ao despertar, embora a eleição da cifra dez possa ter sido influenciada pela existência das dez terras. Porém mais que etapas, se trata aqui de uma descrição de estados.

Podemos distinguir duas tendências principais nas diferentes versões do adestramento do búfalo; as que põem o acento na progressão das etapas e parecem uma descrição do trabalho mental efetuado durante o transcurso da meditação em postura sentada ou durante atividades cotidianas, e as que se concentram sobre a experiência do estado de Despertar e põem em relevo seu caráter súbito. Encontramos aqui a distinção que faz o budismo Chan de duas correntes distintas: a corrente gradualista e a corrente súbita, ilustradas por duas estâncias célebres de Shenxiu e Huineng:

Shenxiu
O corpo é a árvore do despertar
O espírito é como um espelho brilhante
É necessário que se mantenha limpo
Para que o pó não se deposite nele

Huineng
O despertar não forma parte de uma árvore
Nem o espelho brilhante possui um marco
A natureza do Buda é eternamente pura
Como poderia depositar-se o pó?


Desta maneira a versão em dez etapas de Puming denota uma purificação progressiva do espírito, posto que o búfalo se torna branco a medida que progredem as etapas, ao passo que na versão em dez etapas de Kuon, o búfalo é branco desde o princípio, posto que se trata de encontrar um búfalo que jamais tenha se perdido.

O que representa o búfalo? Nossa própria natureza, a natureza do despertar, a natureza do Buda, a Maneira de Ser. O homem simboliza o indivíduo, o ser humano; o cuidador a parte do indivíduo que volta para a natureza profunda; a corda e o chicote são os meios idôneos, os diferentes métodos de trabalho mental que nos guiam até o despertar. A ideia do adestramento implica um longo trabalho constante, cotidiano, efetuado com uma grande paciência e uma vigilância sem falha. Esta ideia do adestramento ou de domar não é nova, pois em uma grande quantidade de escritos budistas encontramos a expressão: «Espírito a domar».

Algumas versões dão ênfase na noção budista de retorno, de inversão, pois é uma inversão de nosso espírito a que engendra as ilusões e o mundo exterior tal como o vivemos correntemente.