Roberto Pla: Evangelho de Tomé - Logion 16
Esta espada bíblica que em definitivo não é espada, senão "chama vibrante" — a chama viva em que chegam a incendiar-se muitos místicos — é mencionada pelo profeta Zacarias, que ainda explica sua função quando torna público o oráculo de Jeová: "Ó espada, ergue-te contra o meu pastor, e contra o varão que é o meu companheiro, diz o Senhor dos exércitos; fere ao pastor, e espalhar-se-ão as ovelhas; mas volverei a minha mão para os pequenos." (Zac 13,7)
A espada é tal como Zacarias diz, a arma cortante de dois fios, pronta para ferir o pastor. Jesus a recorda assim a seus discípulos quando canta com ele os hinos, do caminho até a agonia do monte das Oliveiras. A Paixão de Jesus vai começar e este é o ato supremo, que consiste em converter a árvore de cruz da morte em caminho até a vitória da Árvore da Vida. Mas antes que este passo se dê, é necessário que o pastor seja ferido pela chama de espada vibrante, pois para isso a pôs Deus desde o princípio como guarda da porta do Paraíso.
A epístola aos hebreus compara esta espada do Espírito, cortante e de dois fios, com a Palavra de Deus, e a descreve: "Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão de alma e espírito, e de juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração. (Hb 4,12)
Julius Evola: THEOSOPHIA PRACTICA
O terror que se experimenta diante da ordem de abandonar o Mim Mesmo, de se dar conta que ele é um erro, não é sem relação com o «Guardião do Portal» (cujo sentido foi bem explicado por Rudolf Steiner, em «Uma via para o Homem além do conhecimento de si». E Gichtel fala precisamente de um certo «Querubim» montando guarda na via que conduz a árvore interior da vida, situada no mundo do fogo. A alma deve ser transpassada pela espada deste «Querubim» de aneira a superar «Deus e o homem» para poder reencontrar Sophia. O sangue que corre do coração, na Figura 4 de Gichtel, se refere certamente a esta ferida que quebra a «casca» aprisionando o Mim Mesmo. Lembrando também que um dos símbolos utilizados pelos filósofos herméticos para designar seu «Fogo» é igualmente a espada — assim como a lança e o martelo — o leitor pode ser levado a aprofundar o sentido do papel que estas armas desempenham na «paixão» do Cristo.