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id da página: 9750 Ioan Couliano – Ponte do Juízo Ioan Couliano

Couliano Ponte Juizo


COULIANO, Ioan P. Expériences de l’extase: extase, ascension et récit visionnaire de l’hellénisme au Moyen Age. Paris: Payot, 1984

  • A Hipótese da Origem Iraniana e a Crítica às Datas

    • A hipótese predominante, formulada por Miguel Asín Palacios e endossada por Peter Dinzelbacher, atribui a origem do motivo da "ponte do juízo" às lendas islâmicas do mi‘râj (ascensão) de Maomé, que, por sua vez, o teriam herdado do Irã, especificamente da ponte Cinvat das tradições pálavi.
    • Dinzelbacher supõe ainda que, em sua passagem pela Irlanda, as lendas árabes reativariam um foco folclórico autóctone de origem celta.
    • A cronologia proposta por estes estudiosos – que situa todas as lendas cristãs no século XII – é problemática e foi forçada para sustentar a hipótese da transmissão via Irlanda.
    • A Visio Tundali, de autoria do irmão irlandês Marc em Ratisbona, data de 1149 ou pouco antes, enquanto a Visio Albenci, do monge Alberico de Montecassino, remonta a 1127, baseada em visões datadas de após 1111.
    • Um erro grave de Dinzelbacher foi afirmar que a Visio Esdrae latina dependia da Visio Tundali, ignorando um manuscrito da Visio Beati Esdrae dos séculos X/XI em Linz, que pode inverter todas as certezas sobre a origem iraniana do motivo.
  • As Características da "Ponte do Juízo" nos Apocalipses Medievais

    • O motivo da "ponte do juízo" aparece em várias apocalipses do século XII:
      • Visio Alberici (1127): Descreve um grande rio de piche ardente com uma ponte de fogo que se alarga para os justos e se estreita até a espessura de um fio para os pecadores, precipitando-os no rio para sua purificação.
      • Visio Tundali (c. 1149): Retrata uma ponte cheia de pregos sobre um lago em ebulição com monstros, onde os ladrões são forçados a passar com o gado roubado.
      • Tractatus de Purgatorio S. Patricii (1188-89): O cavaleiro Owein encontra uma ponte extremamente estreita sobre um lago de fogo fedorento, que se alarga milagrosamente quando ele invoca o nome do Senhor.
      • Lancelot, de Chrétien de Troyes (c. 1177): O herói deve cruzar uma "ponte-espada".
    • A característica comum é a ponte que se modifica (estreitando ou alargando) de acordo com os méritos ou deméritos da alma que tenta atravessá-la.
  • A Insustentabilidade de uma "Tradição Celta" para o Motivo

    • A suposição de que o motivo ativou um "foco folclórico celta" na Irlanda é infundada.
    • O único texto irlandês comparável, a Visão de Adhamhnan (século XI), já mostra influência de relatos cristãos ou árabes e sua ponte não se relaciona com tradições célticas autóctones.
    • Referências em textos como a Viagem de Mael Duin (séculos VIII-IX) a uma "ponte de vidro" ou na narrativa galesa Culhwch e Olwen a uma faca que serve de ponte não guardam relação com o motivo específico da "ponte estreita" ou "ponte do juízo".
    • Conclui-se que não existia uma tradição celta anterior sobre a "ponte estreita" antes dos relatos cristãos e árabes.
  • O Motivo na Tradição Islâmica (Sirat) e sua Possível Fonte Iraniana

    • Nas lendas árabes, a ponte do juízo (sirat) possui exatamente as mesmas características: alarga-se para os justos e estreita-se para os ímpios.
    • A representação aparece já no século VIII em um hadîth de Abû Sa’îd al-Khudrî, companheiro do Profeta.
    • A communis opinio considera que o sirat islâmico provém da ponte Cinvat da escatologia iraniana (zoroastriana).
    • No entanto, uma análise dos textos do Avesta (antigo e posterior) revela que não há indícios claros de um julgamento na ponte nas partes mais antigas. A representação de uma "ponte estreita" só aparece no Irã por volta do século VI d.C., ou seja, é tardia e provavelmente importada.
    • Nos escritos pálavi do século IX (Bundahishn, Dâdestân-i dênîg, Mênôk-i khrat), a ponte Cinvat já possui contornos bem definidos: localizada no Pico do Juízo (Cakad-i Dâîtik), ela se alarga para o justo e se estreita até o fio de uma lâmina de barbear para o ímpio.
  • As Origens Judaico-Cristãs do Motivo: 4 Esdras e Textos Posteriores

    • Evidências apontam para uma origem judaico-cristã do motivo, anterior às influências iranianas.
    • O apócrifo 4 Esdras (século I ou início do II d.C.) contém a imagem de uma "entrada estreita" e um "caminho" único, tão estreito quanto a planta de um pé humano, entre fogo e água, levando a uma cidade de bens.
    • Entre os séculos II e VI d.C., esta crença sofre uma transformação, surgindo a ponte propriamente dita como local de julgamento.
    • Gregório de Tours (antes de 577), em sua Historia Francorum, descreve a visão do abade Sunniulfus de Randan, que inclui um ponte extremamente estreita sobre um rio de fogo, onde os negligentes caem e os vigorosos passam.
    • Papa Gregório Magno (580-604), em seus Diálogos, também menciona uma ponte similar.
    • No judaísmo, a tradição está presente no Midrash Yalqut em Isaías, sendo considerada por I. Scheftelowitz como anterior ao Islã.
  • A Cosmologia das Sete Terras Infernais e sua Transmissão

    • A divisão da ponte em sete partes nas lendas do mi‘râj corresponde às "sete vias" de 4 Esdras e encontra um paralelo na cosmologia judaica das sete terras infernais.
    • O midrash místico As Visões de Ezequiel (séculos IV/V d.C.) menciona pela primeira vez estas sete terras ('Adamah, 'Eretz, Heled, Neshiyah, Dumah, She‘ol, Tit Ha-Yaven), que fazem pendant aos sete céus.
    • Especulações cosmológicas similares aparecem no Beraita de-Ma‘aseh Bereshit e no Midrash Konen.
    • No Islã, a tradição das sete terras é transmitida por Ibn Abbas (companheiro do Profeta), Ka‘b al-Akbâr (judeu convertido) e Wahb ibn Munabbih (século VIII), indicando uma provável origem judaica.
  • A Visio Beati Esdrae como Chave para a Transmissão do Motivo

    • A Visio Beati Esdrae latina (manuscrito dos séculos X/XI) é a chave para entender a transmissão do motivo. Sendo a mais próxima de sua fonte (4 Esdras), ela contém a descrição canônica da ponte que se alarga para os justos e se estreita até um "fio de teia de aranha" para os pecadores, que caem no rio de fogo.
    • Este episódio foi uma interpolação feita entre os séculos II e VI d.C. em um apócrifo cristão que interpretava livremente a tradução grega de 4 Esdras.
    • Autores cristãos, redatores pálavi e contadores árabes beberam desta mesma fonte cristã primitiva.
    • A transmissão para apocalipses medievais específicas, como a Visio Alberici, pode ter-se dado via lendas do mi‘râj, dado o contexto do Mosteiro de Montecassino, onde Alberico viveu, e seu contato com a cultura árabe através de figuras como Constantino, o Africano.
    • A Visio Tundali situa-se fora desta linhagem, enquanto o Purgatório de São Patrício pode ter-se ligado a ela através da Visio Alberici ou, mais provavelmente, da própria Visio Esdrae latina.