Cabala
Mario Satz: O TESOURO INTERIOR
Para os chineses, o ideograma Kin, que simboliza o ouro, representa também o perfeito. Na Índia, é clássica a ideia de que o precioso metal encarna a luz, é a luz em forma mineral. Em certas outras culturas como, por exemplo, a egípcia, a carne dos deuses era de ouro. Os ícones bizantinos e russos, assim como os retábulos e altares barrocos, eram plenos de ouro, posto que plenos de luminosa fé. Para os alquimistas, que buscavam transmutar os metais não-nobres em ouro, através do amadurecimento consciente, o objetivo final era o estado crítico, a conquista da suprema homologia solar: aquela do Logos Radiante e Criador. Para os brâmanes, o ouro é a “imortalidade”, enquanto que, para Angelus Silesius, a conversão de chumbo em ouro equivale à transformação do homem em Deus pelo próprio Deus.
Julius Evola: TRADIÇÃO HERMÉTICA
Uma ideia central da Arte Régia é que o hermetista realiza determinadas operações, mediante as quais atualiza (põe em ato) e leva à perfeição uma «matéria» simbólica que a Natureza deixou imperfeita e em potência; e, sem a ajuda da Arte, o hermetista não conseguiria tal proeza. Esta ideia central refere-se a tudo aquilo que o homem comum acha ser de aqui de baixo, mas também se refere à dignidade, «desconhecida pelas raças anteriores», de que já falamos e cuja relação com o espírito específico dos «ciclos heroicos» já mencionamos também.
No respeitante ao primeiro ponto, podemos citar, entre outros, o De Pharmaco Catholico: «A natureza detém-se e suspende o trabalho no Ouro (no sentido de «Ouro vulgar», interpretável como aquele estado segundo o qual a força solar se encontra no homem comum)... Termo supremo de todos os metais (de todas as demais naturezas diferenciadas da «matriz»), acima e além do qual a própria natureza por si só não pode formar mais nenhum metal». Mas «os homens podem ajudar a natureza e obrigá-la a realizar um esforço superior ao realizado para as suas produções ordinárias», alcançando o fim, aquilo a que Geber chama «o limite extremo», a «coisa difícil», «a mais distante que o homem possa desejar». Os alquimistas estabelecem assim a distinção entre aquele Ouro, que é uma produção natural, e o outro Ouro que se produz mediante a Arte e que recebe o signo e a marca dos «Mestres do Poder». Por isso, Filaleuto diz alegoricamente que se o Mercúrio se encontra nos mercadores, o Sol ou Ouro é «uma consequência do nosso trabalho e da nossa operação», e quem não sabe isto, não «conhece ainda o objetivo da nossa obra secreta». Como sublinhamos no princípio, a Arte hermética não tem por finalidade descobrir o Ouro, mas fabricá-lo.
Séverin Batfroi: ALQUIMIA E REVELAÇÃO CRISTÃ
Esta coisa única nada mais é que o Verbo de Deus, que deve se encarnar a fim de que sejam feitos os milagres divinos no seio da humanidade. Seria no entanto bom que se visualizasse o simbolismo solar sob o aspecto sagrado, pois pode se traduzir também ao plano profano. O ouro vulgar não é a manifestação mais sublime do Espírito no domínio mineral, quer dizer que o valor que lhe confere a realeza metálica não está senão bem distanciada da canonicidade do ouro filosófico. O primeiro nada mais é que uma forma profana do segundo, como o Rei, personagem solar por excelência, não é senão o ''Tenente" do Cristo, única e verdadeira Encarnação do Ouro astral.