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id da página: 13598 Fussler – Paracelso – Corpo Alma Paracelso

Paracelso Corpo Alma

Jean-Pierre Fussler — As ideias éticas, sociais e políticas de Paracelso

Les idées éthiques, sociales et politiques de Paracelse (1493–1541) et leur fondement. Presses Universitaires de Strasbourg, 1986

O homem é, antes de tudo, para Paracelso, um ser natural. Ele possui um corpo que o liga à terra e o torna perecível. Esse corpo, feito de carne e sangue, constitui a parte “animal” de seu ser. Foi formado por Deus a partir do “limbo” (“aus dem limbo”). Esse “limbo” é a matéria originária, o céu e a terra, a terra como matéria “primeira” do homem, que está na base da existência corpórea, podendo esta última também ser designada por esse termo. Ele marca, portanto, a origem material e biologicamente determinada do homem, à qual este não pode escapar. Paracelso sublinha sempre fortemente essa determinação. Quando escreve, notadamente na Philosophia sagax, que o lodo da terra (“limus terrae”, em referência a Gênesis 2,7) é a matéria do homem, deseja exprimir a mesma ideia. Mas a expressão designa “simplesmente a matéria, sem a corporeidade que está associada à ideia de limbo”. O homem, ser vivente, encerra nesse corpo um “espírito vital”, força una que torna possível o cumprimento daquilo que a vida exige. A matéria de que é feito compõe-se dos quatro elementos: terra, água, ar e fogo, na base dos quais se encontram três princípios: o enxofre, o sal e o mercúrio. No homem, foram transformados em carne e sangue. “O homem é... reflexo dos quatro elementos”, que a filosofia deve conhecer. Ele possui também, além desse “corpo elementar”, um “corpo sideral” que provém do astrum (ou gestim), que é a realidade invisível dos astros, realidade espiritual que Deus concedeu a todos os níveis: vida vegetativa, vida consciente. O homem interior, nesse sentido, não é ainda o homem eterno, pois esse segundo corpo é mortal como o primeiro. O homem é, pois, ao mesmo tempo, do céu e da terra: “todas as qualidades do mundo, o homem as possui em si”. É por isso que Paracelso gosta de afirmar — retomando uma formulação tradicional — que o homem é “microcosmo” (kleine Welt, microcosmus), filho do “macrocosmo”, do qual é extraído e que contém ou condensa em si. Eis um texto que explicita essa ideia:

“O homem é o pequeno mundo, semelhante ao grande, não em sua configuração e em sua substância material, mas em todas as forças e virtudes que possui. Também se lhe atribui o nobre nome de microcosmo, na medida em que contém todos os fenômenos celestes, a natureza terrestre, as propriedades aquáticas e os caracteres aéreos. Ele contém a natureza de todos os frutos da terra, de todos os minérios da água, todas as constelações e os quatro ventos do mundo. Não há sobre a terra nada cuja natureza e poder não estejam também no homem. Eis a nobreza, a sutileza, a vivacidade do limbo do qual Deus criou o homem à sua imagem.”

O homem encerra as “maravilhas da natureza”, mas é envolvido por esta, pelo universo que o ultrapassa.

Isso significa que ele pode também, por esse vínculo real, tomar consciência de sua fraqueza. Esta se manifesta claramente em certos momentos da vida, nos quais o homem é dependente para a satisfação de suas necessidades: infância, desamparo, velhice. Contudo, é particularmente sensível à consciência na doença, e deve sê-lo; Deus assim o quis:

“Essas doenças humanas e sua cura existem unicamente para que o homem reconheça o limbo de onde provém, para que conheça os animais das florestas e dos campos e saiba que é seu semelhante e que não lhes é superior... Herdou de Adão a faculdade de julgar sua própria grandeza, a fim de não cair no orgulho do diabo, que, ignorando essa ciência, julgou-se igual a Deus: o homem é diferente de Deus em sua constituição e em sua ordenação. Deus, em seu desígnio, criou-o a partir de coisas mortais e tornou-o consciente disso.”

O sofrimento leva-o a tomar consciência do caráter precário de sua existência, de sua fragilidade. Convida-o a pensar em si mesmo “refletindo sobre sua origem”. Mas pensar, aqui, é pensar a partir do mundo e apreender nossa finitude em face da potência de Deus, que nos ultrapassa. Porque o homem “é ele mesmo natureza, natureza sofredora”, deve compreender o artifício do orgulho, paixão humana que pode ser estimulada por uma sociedade contra a natureza. Suas necessidades a satisfazer recordam-lhe igualmente sua origem:

“Por que o homem deseja comer, senão porque provém da terra? Por que deseja beber, senão porque provém das águas? Respira porque nasceu do ar e necessita de calor, porque é criatura do fogo.”

É por isso que Paracelso o define como ser de necessidades; e, no encontro entre o ser humano e a natureza, “explode a vaidade de toda tentativa de erguer o homem em medida das coisas”. O homem torna-se orgulhoso quando tenta ocultar de si essa finitude essencial de sua existência. A presença da natureza é um convite a recusar o culto demasiadamente humano da vontade absolutamente livre.

Mas nosso autor sublinha também que “o homem é mais que um animal”. Ele possui uma alma (Seele). Ela é aquilo que, nele, ultrapassa a carne e a natureza, a parte eterna de si mesmo que o torna semelhante a Deus. Marca de sua proveniência divina, ela assinala à sua existência seu fim: a alma sem Deus nada é. “Não é para o corpo que o homem é criado, mas para a alma.” Paracelso escreve que o corpo existe “para ser servo da alma, e a alma o ultrapassa”, que “o corpo deve ser submetido à alma, e a alma deve governar o corpo e não o corpo à alma”. A alma pode conter a sabedoria que deve governar nossa natureza animal. Os Dez Mandamentos são dados ao homem para que imponha à sua natureza a medida divina, pois o que é eterno deve governar o efêmero. Isso significa que ele é responsável pelo que faz e deixa de fazer para ser fiel à sua destinação:

“E se o homem dissesse: ‘assim o quer minha natureza em mim’, não estaria por isso desculpado, pois deve ser senhor dessa natureza.”

A natureza nada desculpa. Pois se “a alma do homem é a razão”, esta lhe é dada por Deus para que lhe seja possível reconhecer as exigências da vontade divina. É o Espírito Santo que deve governar a alma: o espírito do homem, como “alma da alma”, pode ser aquilo que há de divino nele. Para voltar-se a Deus, o homem deve renunciar à perversão ligada à desmedida. Pois “Deus fixa à natureza sua medida” pelos mandamentos: assim, ao impor o matrimônio, Cristo “fixou à natureza seus limites (mass)”. A vocação de cada um consiste em pôr em obra seu “dom” para os outros, trabalhando, em não desviar seus frutos, em não os apropriar. A proveniência da alma e dos dons fundamenta a destinação do homem.

Deus certamente concedeu a este último a vontade livre, o livre-arbítrio, que é a faculdade de escolher: podemos escolher os meios que permitem satisfazer as necessidades, podemos escolher viver para o bem ou para o mal. A “predestinação” por Deus — Paracelso o afirma sem ambiguidade — é posterior à nossa escolha pessoal: isso significa que estamos sempre engajados e somos responsáveis; tal é o significado da cruz de Cristo. A razão permite reconhecer o bem e o mal, a vontade de escolher um ou outro. Mas pode suceder que nossa razão esteja obscurecida, que nossas escolhas não sejam esclarecidas: é o que ocorre quando uma má educação vota o indivíduo ao mal. Se assim é, a função da religião consiste em chamar à conversão o ímpio que está doente, pois a religião é apresentada por Paracelso, quando assim define sua função, como um medicamento (Arznei). Devemos deixar-nos iluminar por Deus a fim de escolher o bem. Este último inclui o respeito incondicional pela vida dada por Deus.

Isso significa que o homem deve reconhecer sua essencial dependência em relação a Deus na ordem moral. É a vontade de Deus, e não o homem, que constitui o ponto de referência. O homem não é, portanto, livre: o livre-arbítrio é dado apenas para ser negado. Devemos, com efeito, escolher o bem e renunciar aos caprichos de uma vontade arbitrária. A liberdade reside não na independência, mas no reconhecimento de nossa submissão necessária à vontade divina. A antítese do comportamento moralmente justo é encarnada por Lúcifer, que acreditava que “podia fazer o que queria”. Mas o homem não é, de modo algum, soberano. “Somos filhos de Deus, e Deus é nosso pai”: não lhe obedecer, escutar apenas a si mesmo, tornaria o homem órfão.

A relação da alma com o corpo deixa, portanto, aberta a possibilidade da ação moral pela qual o homem é chamado a realizar-se cumprindo a vontade de Deus. Mas a determinação dessa possibilidade como “dever” revela aqui igualmente ao homem sua finitude, pois subordina sua realização à sua integração em uma ordem que o ultrapassa e cujo imperativo se lhe impõe como tarefa incondicional. A realização da ordem querida por Deus pressupõe uma transmutação interior pela qual a proveniência do homem, que define sua essência, subordina-se à origem. Mas é o pensamento dessa origem que nos prepara para recusar nossa vontade natural como centro de referência. O que é outra maneira de dizer que a luz natural que Deus acende não contradiz aquela do Espírito Santo, que nos abre o caminho da eternidade. Mas a segunda revela-nos, em última instância, o verdadeiro imperativo e remete-nos, para além da natureza da qual fazemos parte, à potência indizível de Deus. Paracelso, portanto, não opõe o corpo e a alma; deseja pensar sua unidade, e esta, de um ponto de vista metafísico, é constitutiva daquela que reúne o natural e o divino. A unidade entre a natureza e Deus constitui, para Paracelso, um processo do qual o homem pode ser o lugar privilegiado. Precisa-se: o homem com os outros, em sociedade, pois é aí que pode ao mesmo tempo ter consciência de si mesmo como ser de necessidades e encarnar o imperativo que deve determinar suas relações com outrem. O pensamento sociopolítico aparece, portanto, novamente como estruturalmente necessário na visão de nosso autor; não se trata de um interesse circunstancial, a realidade da época desempenhou antes o papel de causa ocasional. O homem desdobra sua essência na vida social pelo respeito à sua proveniência e pela reflexão sobre esta, e pela realização de sua destinação. A sociedade é, de fato, um lugar onde o divino pode revelar-se. Ela é, para o homem, ocasião de transformar-se e elevar-se, em suma, de estar em Deus pela transmutação alquímica interior que constitui sua essencial possibilidade. O homem torna-se aquilo para o que se volta; mas é preciso acrescentar que permanece sempre homem. Assim, a realização da ordem querida por Deus inscreve-se em um panenteísmo ético aberto, Paracelso sublinhando ao mesmo tempo, pela redução do dualismo, a distância e a proximidade do divino.