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Eckhart Sermon 53



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Misit dominas manum suam et tetigit os meum et dixit mihi etc. Ecce constitui te super gentes et regna.

“O Senhor estendeu a sua mão e tocou a minha boca e me falou” (Jeremias 1, 9 ss.).

Quando pregamos costumamos falar do desprendimento e do fato de que o homem se livre de si mesmo e de todas as coisas. Em segundo termo costumamos dizer que é preciso ser informado outra vez no bem simples que é Deus. Em terceiro termo, que nos lembremos da grande nobreza que Deus colocou na alma para que o homem, graças a ela, chegue até Deus de maneira milagrosa. Em quarto termo nos referimos à pureza da natureza divina… o resplendor que há na natureza divina, é coisa inefável. Deus é um Verbo, um Verbo não enunciado.

Diz Agostinho: “Toda a Escritura é inútil. Se se diz que Deus é um Verbo, se o enuncia; mas se se diz que Deus não está enunciado, então é inefável”. Mas acontece que Ele é algo; quem pode enunciar este Verbo? Não o faz ninguém fora de quem é este Verbo. Deus é um Verbo que se enuncia a si mesmo. Onde se encontra Deus, ali enuncia este Verbo; onde não está, não fala. Deus se enunciou e se encontra sem enunciar. O Pai é uma obra enunciativa e o Filho é um enunciamento operante. O que há no nosso foro íntimo, sai de nós; ainda quando o pensamos somente, a nossa palavra o revela e, no entanto, permanece dentro de nós. Igualmente, o Pai enuncia o Filho, sem falar, e Este, no entanto, permanece n’Ele. Também dissemos várias vezes que a saída de Deus é a sua entrada. Na mesma medida em que nos encontramos perto de Deus, Ele se enuncia a si mesmo no nosso foro íntimo. Todas as criaturas racionais, quanto mais saem de si mesmas nas suas obras, tanto mais entram em si mesmas. Não é assim nas criaturas corpóreas: quanto mais operam, tanto mais saem de si mesmas. Todas as criaturas querem enunciar a Deus em todas as suas obras; falam todas o mais aproximadamente que podem, mas a Ele não o sabem enunciar. Querendo ou não, gostem ou não: todas querem enunciar a Deus e Ele, no entanto, permanece sem ser enunciado.

David diz: “O seu nome é o Senhor” (Salmo 67, 5). “Senhor” significa o mesmo que a superposição de um senhorio; “servo” implica uma sujeição. Alguns nomes são próprios de Deus e se encontram desprendidos de todas as outras coisas, como “Deus”. “Deus”, este nome é o nome mais próprio de Deus, como “homem” é o nome do ser humano. Um homem sempre é um ser humano, por estúpido ou sábio que seja. Séneca diz: “É ruim o homem que não chega mais além do homem”… Alguns nomes têm um apego acidental a Deus, como “paternidade” e “filiação”. Onde se fala de “pai” se subentende “filho”. Não pode haver nenhum pai que não tenha filho, e nenhum filho que não tenha pai; mas ambos contêm em si, mais além do tempo, um só ser eterno… Em terceiro lugar: alguns nomes significam uma elevação para Deus e ao mesmo tempo uma volta para o tempo. Também na Escritura se menciona a Deus com muitos nomes. Dizemos: Quando alguém conhece algo em Deus e lhe coloca um nome, isto não é Deus. Deus se encontra por cima de nomes e de natureza. Lemos que um homem bom implorava a Deus nas suas rezas querendo dar-lhe um nome. Então disse um irmão: “Cale-se, está desonrando a Deus!” Não sabemos encontrar nenhum nome que possamos dar a Deus. Mas, nos é permitido usar os nomes com os quais o chamaram os santos a quem Deus santificou para isso nos seus corações, inundando-os com divina luz. E para isso devemos aprender em primeiro lugar como havemos de rogar a Deus. Devemos dizer: “Senhor; te imploramos e te louvamos com os mesmos nomes que Tu santificaste assim nos corações dos teus santos, inundando-os com a tua luz”… Em segundo lugar havemos de aprender a não dar nenhum nome a Deus como se pensássemos que ao fazê-lo o tivéssemos louvado e exaltado suficientemente; porque Deus se encontra “por cima de nomes” e é inefável.

O Pai, a partir de todo o seu poder, enuncia o Filho e n’Ele a todas as coisas. Todas as criaturas são um falar de Deus. Assim como a nossa boca fala de Deus e o revela, assim o faz o ser da pedra, e pela obra se chega a conhecer mais que pelas palavras. A obra realizada pela natureza suprema por causa do seu poder supremo, não pode ser compreendida pela natureza que se encontra por baixo dela. Se operasse o mesmo, já não se encontraria por baixo dela: seria igual. Todas as criaturas desejam imitar nas suas obras o falar de Deus. Mas, é muito modesto o que sabem revelar. Ainda o fato de que os anjos supremos ascendam e toquem a Deus, é tão desigual em comparação com aquilo que há em Deus, como o branco ao preto. É muito dissímil o que todas as criaturas juntas receberam, no entanto, desejariam expressar o máximo de que são capazes. Diz o profeta: “Senhor, tu dizes uma coisa e eu entendo duas” (Salmo 61, 12). Quando Deus lhe fala ao foro íntimo da alma, ela e Ele são um só; mas, tão logo como isto cai (para fora), é dividido. Quanto mais ascendemos com o nosso conhecimento, tanto mais somos um n’Ele (o Filho). Por isso, o Pai enuncia o Filho todo o tempo na unidade e derrama n’Ele a todas as criaturas. Estas pedem todas entrar outra vez ali de onde emanaram. Toda a sua vida e o seu ser, tudo isto é um clamor e um voltar correndo para aquilo de onde saíram.

O profeta diz: “O Senhor estendeu a sua mão” (Jerem. 1, 9), e com isso se refere ao Espírito Santo. Também diz: “Tocou a minha boca” e depois: “Me falou” (Jeremias 1, 9). A boca da alma é a parte suprema da alma, a este fato se refere (a alma) e diz: “Pôs a sua palavra na minha boca” (Jeremias 1, 9)… este é o beijo da alma: aí se encontram boca com boca, aí o Pai engendra o seu Filho na alma e aí se lhe “fala” a ela. Agora diz: “Observe que hoje te elegi e te coloquei sobre o povo e os reinos” (Jeremias 1, 10). Deus promete eleger-nos “hoje”, ali onde não há nada e onde, no entanto, existe o “hoje” na eternidade. “E te coloquei sobre o povo”… isto quer dizer sobre todo o mundo; dele deve-se estar livre… “e sobre os reinos”… isto quer dizer: O que é mais de um, é demais porque é preciso morrer para todas as coisas e ser informado outra vez no alto onde moraremos no Espírito Santo.

Que Deus, o Espírito Santo, nos ajude a consegui-lo. Amém.