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PHILOKALIA-TERMOS — HOMOIOSIS THEO


VIDE: homoiosis, Imagem e Semelhança

Roberto Pla: Evangelho de Tomé - Logion 84

O desígnio completo de Deus foi, segundo se declara no Gênesis, fazer o homem “a imagem e semelhança nossa”, mas o primeiro de tudo foi isto: “a imagem de Deus o criou, a sua imagem”. Ser “a imagem” da luz significa ser luz, pois assim é ao ser próprio da luz estar isento de figura, a imagem da luz é sempre “imagem perfeita”, pois o basta de só convir em sua natureza mesma.

  • Muitos Padres da Igreja viram no plural “nossa imagem e semelhança”, uma expressão trinitária, conformada por Deus que é luz, o Filho e o Espírito Santo, que mora no homem completo.


O profeta Isaías disse: “Todos vós sois filhos da luz”, e o evangelho confirma essa filiação quando assegura: “Vós sois a luz do mundo”, coisa que Cristo havia afirmado também de si mesmo. Jesus incita a cada homem a que manifeste a lâmpada luzente que há nele, a luz do Filho circunscrita em cada homem, isto é, dividida em imagens da luz, imortais mas ainda não manifestadas, pois como diz: “Nada há oculto se não é para ser manifestado”.

A divisão que veio depois, da luz do Filho em muitos e dispersos filhos de Deus, aos quais, segundo augurou o Sumo Sacerdote, queria Jesus “reunir em um”, foi a obra da semelhança, ordenada por Deus no Sexto Dia mas criada depois. A semelhança veio a esconder a “carne” de luz, amorfa, e incircunscrita por natureza, em uma vestimenta “celeste”, dotada para transluzir em diferentes graus a luz da imagem, tal como se explica da lâmpada interior do homem que mencionam os sinópticos (Candeia Acesa).

Com referência à luz do manto de Deus, a luz do Filho, a imagem exige identidade de substância, ao passo que a semelhança admite diversidade qualitativa, a qual é dada segundo sejam a figura, a cor e a transparência e em definitivo, os afetos e paixões que experimente a lâmpada que difunde a imagem da luz.

Não é necessário saber muito mais para entender que a “imagem”, idêntica à luz, posto que é luz, é a participação do Espírito de Deus que cada homem recebe para descobri-lo no oculto de si mesmo, em sua câmara, e que seja manifestado. Desta “imagem” diz Paulo Apóstolo que (Deus) “nos marcou com seu selo e nos deu em arras o Espírito em nossos corações”.

Há que dizer que a “imagem” é estática enquanto a Deus, posto que é luz que reflete sua luz, e seu dinamismo consiste em ser expansiva, tal como o é no universo objetivo a luz solar, cujos raios nascem e se difundem impetuosos. Por outra parte, embora os raios do sol se refletem na água e suportem todos os movimentos que se produzam na superfície, jamais se mesclam coma as impurezas da água. Tanto na imagem como no raio de luz solar há que notar que permanecem sempre idênticos a si mesmos, quer dizer, que conservam a mesma natureza incontaminada e não assumem as características do meio no qual se manifestam.

Ao contrário do que ocorre com a imagem, a semelhança, significada pela alma na antropologia cristã, implica uma qualidade dinâmica de ordem temporal. Com a locução “a semelhança nossa”, de , há que entender que se faz referência ao homem psíquico, cuja substância não é outra que o Espírito de vida, revestido pelas determinações de condição psíquica que se movem dentro do que denominamos “alma”.

A dinâmica implicada pela semelhança é constituída em assimilação, se orienta para o descobrimento da imagem por identidade com ela. A imagem é a essência, o ser verdadeiro da alma e daí que a semelhança perfeita com a imagem da luz seja uma culminação de si mesma, dado que a alma é com respeito ao Espírito de Deus, assemelhável e perfectível. A obra de assimilação é em si mesma um destino que cumprir designado por Deus desde o primeiro dia da alma.

Talvez convenha esclarecer algo mais, este último. Com somente o exercício das faculdades racionais de que a alma dispõe em si mesma, jamais alcançaria o homem a assemelhar-se a Deus. É necessário para isto uma semente ativa de vida eterna semeada na alma como essência e raiz dela. O conhecimento de tal gérmen “divino” virá dispensado pela adoção livre da alma dos preceitos de sabedoria do Espírito até obter, por transfiguração, a unidade buscada. Para a obra de renovação da alma é só a imagem quem dispõe da medida e a dá a alma quando ela a pede.

A “assimilação perfeita”, significa não somente a união consumada com o Filho de luz, senão reconhecimento na consciência de que “somos” filhos de Deus, pois este é o poder que todas as almas alcançam a possuir graças à luz verdadeira. A esse reconhecimento que traz por si só a restauração da condição de ser imagem de Deus, aludem muitos textos neotestamentários. Assim, João, em sua primeira epístola, diz: “Agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que seremos. Sabemos que quando se manifeste (a essência da alma, Cristo oculto), seremos semelhantes a ele, pois o veremos tal qual é.

Paulo Apóstolo explica também em que consiste a manifestação da imagem de luz, ato que deve ser identificado como a Vinda do Senhor (VINDA DO FILHO DO HOMEM), em sua vertente oculta: “Agora — diz — vemos em um espelho, em enigma; então veremos cara a cara. Agora, conosco de uma modo parcial, mas então conhecerei como sou conhecido”.

  • Quem conhece de um modo “parcial” é o eu psicológico, individual, limitado em sua ilha psíquica como adversário da luz. O que conhece ao limitado “conhecedor” da alma, é o Cristo universal, infinito, ilimitado.


A alma, “assimilada” até a união com a imagem de Deus, poderá dizer depois de tê-lo suportado tudo e quanto entendeu com firmeza, e para sempre, o enigma do espelho : “Ele sou Eu”.