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Antonio Pereira Carneiro

Amadis de Gaula

Teófilo Braga tratou das origens das novelas de cavalaria, em especial das origens do Amadís de Gaula, na sua obra História das Novelas Portuguesas de Cavalaria: Formação do Amadis de Gaula,1 de 1873. Para o intelectual português, as origens dessas narrativas medievais não devem ser tratadas sob o ponto de vista da nacionalidade, mas sob o ponto de vista da “evolução das formas literárias”. Por meio de um estudo comparativo, em que analisou produções poéticas de diferentes culturas da Antiguidade (Índia, Pérsia, Grécia), Teófilo Braga chegou à conclusão de que os mitos, que primeiro possuem um teor religioso e, somente depois, passam a ter um caráter histórico, “evoluem” para epopeias e estas, por sua vez, para obras de caráter histórico; aqui entrariam as canções de gesta e, posteriormente, as novelas de cavalaria.2

Mais interessante que essa conclusão a que chegou Teófilo Braga foi a sua observação acerca de quais desses mitos e/ou dessas epopeias antigas parecem ter influenciado, de fato, os autores das novelas de cavalaria:

Antes do rei Arthur receber nos poemas um caracter historico, antes de se constituir o mundo de aventuras do Santo Graal, os povos bretões tinham os seus cantos mythicos, – cujos caracteres ainda se repetem nos heroes.3

No producto da elaboração poetica do genio gallo-franko e gallo-bretão, encontramos: (…) a corrupção allegorica 4 do ideal cavalheiresco já não comprehendido, tomando para seus heroes os pastores e os grandes vultos da antiguidade. (Ibid., 30)

Como podemos perceber, Teófilo Braga apontou, no resultado das suas investigações, as duas mitologias que mais teriam influenciado a escrita das novelas de cavalaria: a bretã, ou celta, e a greco-romana; sendo que o aparecimento desta, no âmbito das narrativas medievais em questão, seria um sinal da “corrupção” dos ideais cavaleirescos por parte dos autores. Pensamos que Teófilo Braga tenha acertado quanto à afirmação de que essas duas mitologias constituem-se as bases das novelas de cavalaria; no entanto, não achamos que o que há de mitologia greco-latina (justamente as alusões clássicas; os resíduos clássicos) nessas narrativas mediévicas tenha comprometido o ideal cavaleiresco que elas trazem. Muito pelo contrário: o herói grecoromano parece ter estado sempre presente no imaginário do cavaleiro medieval; ou seja, aquele sempre fez parte do ideal cavaleiresco, visto que o cavaleiro tinha-o como exemplo de bravura, de lealdade e de virtude, como dissemos na introdução. Além do mais, acreditamos que o peso da mitologia e das epopeias greco-latinas nas novelas de cavalaria seja maior que o das demais mitologias e/ou epopeias, incluindo-se aqui a bretã ou céltica, que forneceu, é bem verdade, personagens e temas às narrativas medievas. Acontece que, como lembrou bem Teófilo Braga, a Mitologia greco-romana em geral – e a Epopeia grega, em particular – “era a mais antiga no conhecimento dos eruditos” (Ibid., 23); ou seja, a celta forneceu personagens e temas, mas a greco-latina parece ter fornecido algo mais identitário, mais profundo, além de personagens e de temas: comportamentos, modelos, ideais.