Teófilo Braga tratou das origens das novelas de cavalaria, em especial das origens do Amadís de Gaula, na sua obra História das Novelas Portuguesas de Cavalaria: Formação do Amadis de Gaula,1 de 1873. Para o intelectual português, as origens dessas narrativas medievais não devem ser tratadas sob o ponto de vista da nacionalidade, mas sob o ponto de vista da “evolução das formas literárias”. Por meio de um estudo comparativo, em que analisou produções poéticas de diferentes culturas da Antiguidade (Índia, Pérsia, Grécia), Teófilo Braga chegou à conclusão de que os mitos, que primeiro possuem um teor religioso e, somente depois, passam a ter um caráter histórico, “evoluem” para epopeias e estas, por sua vez, para obras de caráter histórico; aqui entrariam as canções de gesta e, posteriormente, as novelas de cavalaria.2
Mais interessante que essa conclusão a que chegou Teófilo Braga foi a sua observação acerca de quais desses mitos e/ou dessas epopeias antigas parecem ter influenciado, de fato, os autores das novelas de cavalaria:
Antes do rei Arthur receber nos poemas um caracter historico, antes de se constituir o mundo de aventuras do Santo Graal, os povos bretões tinham os seus cantos mythicos, – cujos caracteres ainda se repetem nos heroes.3
No producto da elaboração poetica do genio gallo-franko e gallo-bretão, encontramos: (…) a corrupção allegorica 4 do ideal cavalheiresco já não comprehendido, tomando para seus heroes os pastores e os grandes vultos da antiguidade. (Ibid., 30)
Como podemos perceber, Teófilo Braga apontou, no resultado das suas investigações, as duas mitologias que mais teriam influenciado a escrita das novelas de cavalaria: a bretã, ou celta, e a greco-romana; sendo que o aparecimento desta, no âmbito das narrativas medievais em questão, seria um sinal da “corrupção” dos ideais cavaleirescos por parte dos autores. Pensamos que Teófilo Braga tenha acertado quanto à afirmação de que essas duas mitologias constituem-se as bases das novelas de cavalaria; no entanto, não achamos que o que há de mitologia greco-latina (justamente as alusões clássicas; os resíduos clássicos) nessas narrativas mediévicas tenha comprometido o ideal cavaleiresco que elas trazem. Muito pelo contrário: o herói grecoromano parece ter estado sempre presente no imaginário do cavaleiro medieval; ou seja, aquele sempre fez parte do ideal cavaleiresco, visto que o cavaleiro tinha-o como exemplo de bravura, de lealdade e de virtude, como dissemos na introdução. Além do mais, acreditamos que o peso da mitologia e das epopeias greco-latinas nas novelas de cavalaria seja maior que o das demais mitologias e/ou epopeias, incluindo-se aqui a bretã ou céltica, que forneceu, é bem verdade, personagens e temas às narrativas medievas. Acontece que, como lembrou bem Teófilo Braga, a Mitologia greco-romana em geral – e a Epopeia grega, em particular – “era a mais antiga no conhecimento dos eruditos” (Ibid., 23); ou seja, a celta forneceu personagens e temas, mas a greco-latina parece ter fornecido algo mais identitário, mais profundo, além de personagens e de temas: comportamentos, modelos, ideais.