SCHUMACHER, E. F. A Guide for the Perplexed. New York: Perennial, 1977
O que capacita o homem a conhecer qualquer coisa sobre o mundo ao seu redor? «Conhecer requer o órgão justo para o objeto», disse Plotino. Nada pode ser conhecido sem que haja um apropriado «instrumento» na formação do conhecedor. Esta é a Grande Verdade da «adaequatio» (adequação), que define o conhecimento como adaequatio rei et intellectus — a compreensão do conhecedor deve ser adequada à coisa a ser conhecida.
De Plotino, de novo, nos vem: «Nunca o olho viu o sol a não ser que tivesse primeiro se tornado como o sol, e nunca pode a alma ter visão da Primeira Beleza a menos que ela mesma seja bela». John Smith dos chamados Platonistas de Cambridge disse: «Aquilo que nos capacita a conhecer e compreender corretamente as coisas de Deus, deve ser um princípio vivo de santidade dentro de nós»; ao qual podemos adicionar a proposição de Tomás de Aquino que «o conhecimento vai até onde o objeto conhecido estiver dentro do conhecedor».
O homem compreende quatro grandes Níveis de Ser; há portanto algum grau de correlação ou «conaturalidade» entre a estrutura do homem e a estrutura do mundo. Esta é uma ideia muito antiga e usualmente foi expressa chamando o homem de «microcosmo», que de algum modo «corresponde» com o «macrocosmo» que é o mundo. Ele é um sistema físico-químico, como o resto do mundo, e também possui os poderes misteriosos e invisíveis da vida, consciência e auto-ciência (awareness), alguns ou todos dos quais pode detectar em muitos seres ao seu redor.
Nossos cinco sentidos corporais nos fazem adequados para o Nível de Ser mais baixo — a matéria inerte. Mas não podem suprir nada mais do que uma massa de dados sensórios, para «fazer sentido» dos mesmos requeremos habilidades ou capacidades de uma ordem diferente. Podemos chamá-las «sentidos intelectuais». Sem eles seríamos incapazes de reconhecer forma, padrão, regularidade, harmonia, ritmo, e sentido, sem mencionar vida, consciência, e auto-ciência. Enquanto os sentidos corporais podem ser descritos somo relativamente passivos, meros receptores do que quer que suceda acontecer e de certo modo controlados pela mente, os sentidos intelectuais são a mente-em-ação, e sua astúcia e alcance são qualidades da mente ela mesma. Com relação aos sentidos corporais, todas as pessoas saudáveis possuem uma dotação similar, mas ninguém pode ignorar o fato que há diferenças significativas no poder e alcance das mentes das pessoas.
Assim é que, para cada um de nós, só «existem» fatos e fenômenos para os quais possuímos adaequatio, e devemos portanto assumir que nossas mentes não são igualmente adequadas para tudo, a todo momento, e em qualquer condição que nos encontremos. Por conseguinte, também, não podemos insistir que algo inacessível para nós não tenha existência em absoluto e não passe de um fantasma da imaginação de outras pessoas.
Há fatos físicos que os sentidos corporais captam, mas há também fatos não físicos que permanecem não notados a menos que o trabalho dos sentidos seja controlado e completado por certas faculdades «superiores» da mente. Alguns destes fatos não físicos representam «graus de significância», para usar um termo cunhado por G.N.M. Tyrrell, que assim o ilustra:
Em todos estes casos os «dados sensórios» são os mesmos; os fatos dados aos olhos são idênticos. Não o olho, somente a mente, pode determinar o «grau de significância». As pessoas dizem: «Deixem os fatos falar por si mesmos»; esquecem que a fala dos fatos é real somente se é ouvida e compreendida. Pensa-se ser uma questão fácil distinguir entre fato e teoria, entre percepção e interpretação. «Vemos» não simplesmente com nossos olhos mas em grande parte com nosso equipamento mental também, e posto que este equipamento varia bastante de pessoa a pessoa, há inevitavelmente muitas coisas que algumas pessoas podem «ver» mas que outros não, ou dito de outro modo, muitas coisas para as quais algumas pessoas são adequadas enquanto outras não.
Quando o nível do conhecedor não é adequado ao nível (ou grau de significância) do objeto de conhecimento, o resultado não é um erro factual mas algo muito mais sério: uma visão pobre e inadequada da realidade. Assim como o mundo é uma estrutura hierárquica com relação a qual é significante falar de superior e inferior, assim também os sentidos, órgãos, poderes, e outros «instrumentos» pelos quais o ser humano percebe e ganha conhecimento do mundo formam uma estrutura hierárquica de superior e inferior.
O nível de significância ao qual um observador tenta se sintonizar é escolhido, não por sua inteligência, mas por sua fé. Os fatos eles mesmos que observa não portam etiquetas indicando o nível apropriado pelos quais devem ser considerados. Nem a escolha de um nível inadequado leva a inteligência ao erro factual ou a contradição lógica. Todos os níveis de significância até o nível adequado são igualmente factuais, igualmente lógicos, igualmente objetivos, mas não igualmente reais.
É por um ato de fé que escolho o nível de minha investigação; daí o dito «Credo ut inelligam» — tenho fé de modo a ser capaz de compreender. Se me falta fé, e consequentemente escolho um nível inadequado de significância para minha investigação, nenhum grau de «objetividade» me salvará de omitir o essencial de toda operação, e frustrar-me a possibilidade de compreensão. Caio na situação daqueles que Jesus disse: «Eles, vendo, não veem; e ouvindo, não ouvem, nem compreendem».
Tópicos restantes:
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A dependência do observador em suas qualidades superiores e em suas pressuposições fundamentais para a percepção de níveis superiores de ser
- A necessidade de adequação das qualidades superiores do observador, desenvolvidas por meio do aprendizado e do treinamento
- A influência do contexto cultural e temporal na formação das ideias e pressuposições fundamentais do pensamento humano
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O desafio da autoconsciência crítica para o reconhecimento dos pressupostos do pensamento
- A dificuldade de examinar o próprio instrumento do pensamento, exceto por meio de um esforço especial de autorreflexão
- A capacidade de autorreflexão como poder distintivo do homem para transcender sua condição humana
- A associação bíblica das "partes internas" ou "coração" como o instrumento para contatar os graus superiores de significância e Ser
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A incompreensão materialista do conceito de "entendimento com o coração"
- A perspectiva do materialismo científico que rejeita a existência de qualquer realidade superior ao homem
- A crença materialista de que a verdade só pode ser descoberta pelo cérebro e pelos sentidos corporais
- A adequação do cérebro para lidar com a matéria inanimada e a irrelevância do "coração" dentro dessa visão de mundo
- A analogia do homem que possui um rádio receptor mas se recusa a usá-lo por acreditar que nada pode ser obtido dele
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A relação entre fé e razão na determinação do objeto do conhecimento
- A fé como fator que escolhe o grau de significância ou Nível de Ser no qual o conhecimento deve se concentrar
- A distinção entre fé razoável e fé não razoável, condenando a fé do agnóstico como a mais irracional
- A citação do texto bíblico para caracterizar o desprezo da sabedoria tradicional pelo agnóstico: "Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca."
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A aceitação do testemunho dos profetas e sábios como um ato de fé razoável
- A declaração unânime das tradições sapienciais de que o mundo é uma expressão de significado e que existem níveis de ser superiores à humanidade
- A descensão de Santo Agostinho do processo de busca da verdade guiada pela fé
- A fé como possessão de uma verdade oculta que impele a mente a penetrar seu conteúdo
- A máxima agostiniana "Crede ut intelligas" ("Crê para que entendas") como síntese do processo
- A fé como preparação do caminho para a atividade racional que leva ao entendimento da revelação divina
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A visão intelectual que transcende os sentidos corporais e a natureza do entendimento
- A capacidade de "ver" verdades matemáticas e geométricas com a luz do intelecto
- O poder de compreender ideias e intenções, produzindo "clarões de entendimento" distintos da formação de opiniões
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A conceituação do "Olho do Coração" como instrumento de percepção da verdade invisível
- A definição de Santo Agostinho da missão de restaurar a saúde do olho do coração para ver Deus
- A descrição de Rumi do "olho do coração, que é setenta vezes maior e do qual estes dois olhos sensíveis são apenas os respigadores"
- O conselho de John Smith, o Platonista, para "fechar os olhos do sentido e abrir esse olho mais brilhante de nossos entendimentos, aquele outro olho da alma"
- A afirmação de Ricardo de São Vitor de que "o sentido exterior por si só percebe as coisas visíveis e o olho do coração por si só vê o invisível"
- A superioridade do poder de insight do Olho do Coração sobre o poder de raciocínio que produz opiniões
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O processo orgânico e gradual de desenvolvimento da capacidade de conhecimento superior
- A afirmação budista de que o conhecimento supremo não é atingido de uma vez, mas por um "treinamento gradual, uma ação gradual, um desdobramento gradual"
- A descrição detalhada dos estágios: confiança, associação, escuta, recepção da doutrina, memorização, exame do sentido, aprovação, nascimento do desejo, ponderação, treinamento diligente, realização mental da verdade suprema e visão por meio da sabedoria
- O objetivo do processo como a obtenção da adaequatio, o desenvolvimento do instrumento que permite ver a verdade libertadora, conforme a promessa "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará"
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A abertura de um mundo de percepção interior segundo Maurice Nicoll
- O surgimento de um mundo de percepção interior e de um "espaço interno" distinto da percepção exterior
- O aparecimento da luz interior, uma forma de consciência equiparada à verdade e à liberdade, em contraste com a escuridão da consciência ordinária
- A percepção da verdade das ideias como o caminho para o autoconhecimento e o desenvolvimento interior do homem
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A distinção fundamental entre a experiência sensorial e a iluminação intelectual
- A origem do insight e do entendimento no mundo das ideias dentro de nós, e não nos dados sensoriais
- A definição dos domínios da experiência e da iluminação:
- A experiência informa sobre a existência, aparência e mudanças das coisas sensíveis
- A iluminação revela o significado, a potencialidade e o dever-ser das coisas
- A inadequação dos sentidos corporais para registrar os significados internos e os níveis superiores de Ser no mundo
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A ilustração da diferença entre a percepção exterior e interior por meio da anedota dos dois monges fumantes
- A pergunta "é permitido fumar enquanto se reza?" versus "é permitido rezar enquanto se fuma?"
- A incapacidade dos sentidos exteriores de perceber a diferença profunda que é evidente para os sentidos interiores
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A condição indispensável para o reconhecimento dos graus superiores de significância e Ser
- A necessidade da fé e do uso das capacidades superiores do homem interior para tal reconhecimento
- A consequência da falta de adaequatio no conhecedor: a impossibilidade de conhecer qualquer coisa de significância ou Nível de Ser superior quando as faculdades superiores estão inativas