Excertos de Roberto Pla, Evangelho de Tomé - Logion 25
O significado básico de qualquer das três expressões da vida psíquica, segundo a concepção israelita, significa “algo que está em movimento”, seja o sopro de vida (nefes), o vento (ruah), ou a respiração (nesamah). Nefes atua como um impulso de vida animal, tal como corresponde aos suportes hílicos, terrenos e psico-somáticos do sopro de vida, mas a força de consciência dual, reflexiva, que o homem recebe como vento cósmico (ruah) está sujeita a experimentar alternações superiores que a vinculam a nesamah, ou bem a sofrer uma deterioração que a conectem com as coisas psíquicas inferiores próprias de nefes, até o ponto de se fazer metaforicamente carne (sarx), como naquela perícope do Gênesis (6,3): “Não permanecrá para sempre minha ruah no homem, porque não é mais que carne”. Outras vezes o ruah recibido pelo homem leva já o desígnio de seu efeito destrutor: “infundiu neles ruah de vertigem” (Is 19,14); “verteu YHWH sobre vós ruah de sono” (Is 29,10).
Em uma passagem muito importante estuda o autor do Zohar um texto de Isaías:
O autor do Zohar termina sua explicação sobre os três graus de expressão psíquica do homem com uma imagem muito bela e esclarecedora:
Este relato é bastante significativo, mas sua explicação pode ser tentada de outro modo para esgotar o esclarecimento deste assunto da versatilidade da alma. O homem psíquico herda a capacidade de perceber um vento (ruah) adequado às leis do racional ou livre, com opção de inclinar-se ao hílico-material, ou a harmonia com o pulso universal. Quando o homem vive uma vida hílica, quer dizer, com a atenção entregue ao mundo instintivo, fechadamente individualizado, egoísta, carregado de impurezas, os conteúdos psíquicos se concentram em nefes; o homem inteiro parece então não ser outra coisa que nefes, o sopro denso de vida animal que transita, quer dizer, que entra e sai por seu próprio impulso vital através dessa espécie de bambu oco de duplo tecido que é a tênue corporeidade de pó do solo de Éden plasmado por YHWH-Deus e o fundo corporal de pele, carne e ossos. Se, pelo contrário, o vento psíquico (ruah), tende a integrar-se no Ser absoluto, o qual significa o abandono prévio das incitações do eu instintivo em favor da purificação das formas de vida, então, como se disse, os conteúdos psíquicos acabam por ser enxertados à oliveira para fé e incorrupção e participam da gordura da oliva. Isto se consegue por meio de um “respiração” harmônica com o universo, quer dizer, por um ritmo de existir compassado (o qual é nesamah), que é ajudado sempre pelo alento ou respiração de Deus (nesamah, também), o qual é derramado sem trégua sobre a “respiração” própria. Por outro lado, todos aqueles conteúdos psíquicos demasiado densos para ascender a nesamah, se dissolvem em nefes e na hora da morte, ficam convertidos em resíduos inúteis e se queimam e diluem “como palha que o vento dispersa” (Sl 1,4).