Toda ação que realizamos deve estar em conformidade com o futuro, com aquilo que está destinado a manifestar-se. Segue-se que, embora o presente pareça existir, mas, como se viu, não seja conhecido por nós até que se torne passado, períodos inteiros — chamemo-los de éons — são potencialmente existentes em cada momento de duração e devem, inexoravelmente, ser “vividos”. Não importa se os percebemos como “passado” precipitando-se em direção ao “futuro” ou como “futuro” desvanecendo-se em “passado”; nossa noção de viver é um processo de tomar consciência deles em uma sucessão de momentos que conhecemos como “existência”, e cuja sequência concebemos como uma “vida”.
Considerados temporalmente, eles aparecem de modo sucessivo; mas, embora não existam antes nem depois de os experimentarmos na forma de nossa experiência deles, são potenciais e inevitáveis, e “existem” intemporalmente in statu aeternitatis.
Saber que aquilo que se é não está sujeito ao conceito de “tempo” — não apenas saber que deve ser assim, mas estar consciente de que é assim — constitui libertação de toda forma possível de cativeiro.
O cativeiro não seria cativeiro ao tempo? E a noção de “tempo” não dependeria da noção de “eu”?
“Vivemos” em uma sucessão de momentos temporais daquilo que, intemporalmente, é um presente eterno.
Vivemos na história, não a criamos.
Provavelmente não há duração no sentido de imutabilidade, mas apenas no de continuidade. Contudo, cada momento deve ser eterno em outra dimensão, situada em ângulo reto em relação à do tempo.
Viver “verticalmente”, isto é, em ângulo reto ao viver “horizontal” do tempo sequencial — o qual pode ser visto como sendo cortado por aquele a cada instante sucessivo — é viver noumenalmente, em oposição ao viver fenomenalmente, pois essa dimensão “vertical” representa o supervolume, relacionado ao volume como este o é à superfície plana.
As duas dimensões não possuem medida comum, pois uma contém uma direção adicional de mensuração, em virtude da qual inclui a menor, de modo que o que é experimentado como sucessivo nesta última é uma totalidade naquela. O “passado” e o “futuro” devem, portanto, estar presentes e completos na maior, ao passo que na menor apenas um “presente” recente pode ser conhecido — salvo pela memória e pela imaginação.
O tempo é serialidade; a intemporalidade é simultaneidade. Portanto, pode-se muito bem estar vivendo em todos os pontos da própria “vida” — passado e futuro, assim como o presente suposto — agora e sempre.
Nossa existência aparente ou presumida, ainda que considerada “real”, está, contudo, rigorosamente confinada apenas a momentos — aqueles tidos como “presentes”. Esses momentos, sucessivos num contexto temporal, são impressões instantâneas e não possuem consistência nem duração calculável. Tal “existência” parece, de fato, algo “teórica”, pouco mais que uma suposição.
“Aquele que não vê que tempo e espaço são fixados para nós pela natureza de nossos órgãos não pode mover-se da situação em que se encontra.” (Maurice Nicoll, Living Time)
Sim, de fato, mas nossos órgãos também estão “fixados para nós”. Tempo e espaço são interpretações da intemporalidade e do infinito, e nossos órgãos são igualmente interpretações disso. Estamos todos no mesmo barco — exceto a mente do timoneiro.
Presos aos trilhos sombrios de nossas vidas fenomenais, incapazes de aproveitar nossas inúmeras oportunidades, frustrados a cada curva do caminho ao qual, como pintinhos "presos" a uma linha de giz a qual nossos bicos se contém — eis o cativeiro. Não é de admirar que desejemos ser livres, capazes de apreender nossas oportunidades, de cumprir nossos verdadeiros destinos e viver como sabemos que poderíamos — e deveríamos — viver. Não estaríamos expiando uma sentença pronunciada por um juiz desconhecido, em vez de viver na liberdade que é o cumprimento?