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id da página: 3941 Vallin (EI:57-67) – A constituição objetivante e o desvelamento da essência objetiva.

Vallin GVEI-57-67


VALLIN, Georges. Être et individualité. Paris: Presses Universitaires de France, 1959

A constituição objetivante e o desvelamento da essência objetiva.


Após ter evidenciado o fenômeno muito geral da encarnação abstrata que caracteriza a subjetividade objetivante, nós podemos apreender mais facilmente a natureza das relações entre a essência e a existência tanto do ponto de vista da subjetividade cognoscente quanto do ponto de vista da realidade objetivada que ela visa. A subjetividade lógica apreende, do lado do real que ela objetiva — e que só merece o nome de objeto nesta única perspectiva — essências que não são "separadas" mas imersas na existência, por meio de conceitos que não são "puros" mas unidos à sensibilidade e à imaginação. Nós não examinaremos em detalhe as modalidades do aspecto subjetivo desta "impureza" da essência, contentando-nos em remeter à análise kantiana dos conceitos do entendimento em suas relações com a intuição sensível, que se aplica bem ao modo de conhecimento que caracteriza a subjetividade objetivante. No entanto, esta análise precisaria ser retificada em dois pontos essenciais: 1º O conceito não é o que constitui o próprio ser da experiência, mas uma projeção mental (da qual nós não temos que buscar aqui a origem, mas que nós tentamos simplesmente descrever) que nos permite desvelar o real segundo a modalidade objetivante que caracteriza a subjetividade lógica. Na estrutura objetivante, lembremos que a subjetividade, longe de estar enclausurada em si mesma, transcende para o mundo existente que ela apreende ou pretende apreender como ser e não como fenômeno ou manifestação de uma coisa em si inacessível. O conceito enquanto projeção mental da subjetividade é o que permite desvelar a essência objetiva. 2º O conceito visa esta essência não apenas como lei de sucessão dos fenômenos (este último termo sendo aqui despojado de sua significação idealista e mantendo apenas seu sentido "mecanicista"), mas como estrutura orgânica objetivamente realizada no existente para o qual a subjetividade se transcende. Em uma palavra, a finalidade não é o objeto de um simples juízo reflexivo, ela pertence efetivamente à estrutura objetiva do real em um certo nível da experiência total que se oferece à subjetividade lógica.

Precisemos primeiro nossa definição do conceito como projeção mental que permite desvelar a essência objetiva. O conceito, produto de uma atividade da subjetividade, não deve ser encarado como uma projeção gratuita da subjetividade sobre o existente bruto que esta projeção deixaria intocado em si mesmo. Tal projeção corresponde, aliás, a uma das estruturas temporais que nós teremos que examinar mais tarde (a da esfera negativa), mas não à estrutura lógica ou objetivante que nós consideramos neste momento. É de se notar, no entanto, que o conceito, tal como nós o encaramos até agora, é o sinal de uma atividade do sujeito que nós definimos como vontade de poder. O conceito não corresponde, portanto, a uma atitude de abandono ou de puro desapego diante do real que seria para acolher. Ele implica, ao contrário, uma espécie de violência feita ao real, uma recusa de tudo o que poderia fazer obstáculo ao desejo de inteligibilidade racionalizante e objetivante. Mas esta atividade — ao menos no nível psicológico-empírico que é o da projeção e não, é verdade, no plano transcendental da constituição, é essencialmente negativa. Ela não consiste em informar um real previamente despojado de forma ou de estrutura, tal como um Demiurgo informando o caos de uma matéria dada, mas em descobrir, pela projeção mental do conceito, ou em desvelar graças à projeção do conceito, o que no real corresponde precisamente a seu desejo de inteligibilidade racional. Há evidentemente também atividade neste sentido de que o conceito não é engendrado passivamente no espírito sob a ação da experiência, mas não é tanto a gênese do conceito que nos interessa aqui quanto seu desdobramento no interior da transcendência da subjetividade para o mundo. A atividade projetante do conceito consiste essencialmente na recusa de desvelar no real existente o que não corresponde ao imperialismo de seu desejo de inteligibilidade objetivante. Mas é claro que esta atividade enquanto projeção mental não é criadora: é porque o real ou mais precisamente a realidade "objetivada" já é implicitamente desvelada diante da subjetividade objetivante que esta pode exercer sua atividade de projeção conceitual que permitirá à essência se desvelar de forma explícita. É neste desvelamento implícito da essência objetiva imersa no real existente que consiste, a bem da verdade, o papel da "experiência" na projeção do conceito. A projeção do conceito no contato com a experiência, ou seja, da essência engajada na existência espaço-temporal, é bastante semelhante ao processo de abstração metafísica que se encontra na noética aristotélico-tomista. Esta projeção enquanto ato mental subjetivo — que constitui a natureza dos seres, assim como a de uma lei que rege a sucessão dos fenômenos — visa a universalidade racional imanente à experiência com a exclusão das determinações propriamente individuais nas quais esta universalidade se realiza. O conceito não é, portanto, tanto uma criação do espírito quanto um ato espiritual que, no contato de uma experiência com a qual a subjetividade objetivante se quer em acordo, visa precisamente na experiência o que corresponde a este último. O conceito está tanto mais profundamente engajado no jogo das potências sensíveis (imaginação e sensibilidade) que a essência objetiva que ele visa e permite desvelar de forma explícita também só existe enquanto engajada na imanência da experiência sensível. A projeção das relações universais, no que consiste a própria essência de sua atividade, é sempre centrada nos dados sensíveis que, como Kant bem demonstrou, conferem ao conceito seu conteúdo e seu valor. Mas é importante precisar que estes "dados sensíveis" que não são aqui postos como um resíduo opaco e por natureza rebelde à projeção de inteligibilidade que emana do sujeito, mas como o inteligível em potência e por assim dizer exemplificado, concretizado e individualizado, intervêm aqui de uma dupla maneira: 1) São eles que "despertam", por assim dizer, a atividade de projeção inteligível do sujeito: eles são para o sujeito como um convite a tecer de forma mais completa e mais coerente a rede de relações inteligíveis que eles apenas lhe fazem entrever no que nós chamamos de desvelamento implícito. A experiência é desde o início inteligível, mas de forma muitas vezes "confusa e mutilada". O momento do conceito propriamente dito ou da projeção conceitual enquanto distinto do desvelamento da essência objetiva — e que encontra, evidentemente, na atividade da ciência sua ilustração mais válida — consiste precisamente no esforço incessante de tecer, malha a malha, a rede das relações coordenadas ou hierarquizadas nas quais vêm se inserir a totalidade dos seres ou dos fenômenos do mundo existente. 2) Os "dados sensíveis" intervêm também, e é então o momento do que nós chamamos o desvelamento "explícito" da essência objetiva, na confirmação da projeção conceitual (cf. por exemplo a verificação experimental que se segue à hipótese no trabalho do cientista). A subjetividade percebe então a essência na própria experiência, ela não projeta mais um conceito por ocasião da experiência. O processo criador e discursivo dá então lugar a uma atividade aparentemente mais passiva onde a inteligência apreende intuitivamente uma essência que pertence ao real, que é explicitamente posta como imanente à experiência objetiva. A intuição cartesiana das naturezas simples corresponde de forma bastante exata a este momento capital, logicamente distinto daquele da projeção conceitual cuja descrição parece ter pesado um pouco demais na análise kantiana do entendimento humano, exclusivamente focada no aspecto discursivo e criador da subjetividade lógica.

É de se notar, no entanto — para ser totalmente exato — que o aspecto "criador" não desaparece inteiramente no momento "intuitivo" do desvelamento explícito da essência objetiva, pois é importante não esquecer que, se a essência objetiva se desvela diante da subjetividade que a acolhe intuitivamente ou "passivamente", por assim dizer, este desvelamento é condicionado pela projeção conceitual e subjetiva que é ela mesma determinada, tanto pelo contato com a "experiência", quanto pela decisão prévia de não descobrir nesta última senão o que se encaixará com o imperialismo de sua vontade de poder. Mas esta dialética da projeção do conceito e do desvelamento da essência exige o recurso a uma atividade diferente do sujeito, que se situa em outro plano que a projeção e o desvelamento, e que em definitivo os torna possíveis um e outro. Esta atividade não é outra coisa senão o que nós chamaremos, com um termo emprestado da fenomenologia husserliana, a atividade constituinte ou a constituição pela subjetividade transcendental das significações essenciais que a subjetividade empírica desvelará na experiência sob a forma de essências objetivas após as ter projetado sob a forma de conceitos. Se a subjetividade pode descobrir uma significação qualquer no nível de uma experiência que lhe é dada, é preciso que esta significação não lhe seja estranha; é preciso que a subjetividade, de uma maneira ou de outra, participe do movimento espiritual que constitui a significação como tal. Assim no empirismo tomista, por exemplo, é preciso bem admitir que o "intelecto agente" que é capaz de extrair do sensível, por uma passagem da potência para o ato, o inteligível que este último contém em potência, participa de alguma maneira da Inteligência criadora de Deus que criou o ser ou o objeto sensível projetando, por assim dizer, a essência inteligível no plano da existência espaço-temporal (passagem da essência à substância). E pode-se perguntar se todo empirismo, seja ele qual for, não é em definitivo inconscientemente tributário de tal perspectiva ambígua que admite implicitamente uma participação da inteligência humana no "Verbo" transcendente, mas sem ir até o fim das exigências de tal posição. Se, por outro lado, se recusa explicitamente ao ser e ao intelecto humano toda relação de participação na Transcendente, como explicar que a subjetividade humana seja capaz, no plano psicológico-empírico, de desvelar as significações implicadas na experiência, se não se admite que esta mesma subjetividade "constitui", no plano transcendental, as significações que ela será capaz de descobrir. Mas é claro, após a descrição que nós demos acima, da "transcendência temporal" da subjetividade objetivante, que as significações constituídas pela subjetividade transcendental objetivante não são mais intemporais do que a própria subjetividade temporalista. Estas significações, que aqui são essências (e que serão submetidas, nós o veremos, a um outro estatuto no nível da esfera estética), são ontologicamente imanentes à existência espaço-temporal. A subjetividade transcendental objetivante, que por essência se transcende, devido à sua encarnação abstrata, para o mundo existente, constitui necessariamente estas significações essenciais em correlação com este movimento de transcendência para o mundo. Esta atividade constituinte, que emana da subjetividade transcendental encarada por assim dizer em seu centro e seu princípio espiritual, não enquanto encarnada, espacializada e temporalizada, mas antes enquanto origem imanente da temporalidade e da espacialidade no quadro das quais se desenrolarão os eventos objetivos do mundo, não constitui estas significações senão enquanto relações universais destinadas a se atualizar na imanência da experiência e não tendo realidade senão nesta atualização.

A subjetividade objetivante, encarada sempre em sua raiz transcendental e não no plano empírico que comanda a dupla atividade de projeção conceitual e de desvelamento da essência, constitui a essência enquanto processo "de existencialização", segundo um esquema que é importante de se colocar bem à luz. O nó de relações que constitui a essência se situa sempre no plano de uma universalidade abstrata, embora "encarnada e existencializada". Ele é a réplica, no plano da realidade objetiva intencionalmente visada pela subjetividade objetivante, da encarnação abstrata que constituía a natureza essencial desta última. A significação "essencial" constituída pela subjetividade transcendental objetivante é bem uma essência que implica um nó de relações coordenadas ou hierarquizadas, mas esta atividade quase espiritual de relação, este laço ou este nó que está no cerne mesmo do real que a subjetividade objetivante empírica encontrará, nunca visa, ou mais profundamente — no plano quase criador e transcendental da constituição que nós encaramos aqui — nunca constitui um ser em toda a densidade ontológica de que este termo é capaz, mas uma entidade abstrata. Embora esta essência não possa ser concebida senão como individualizada, como encarnada no plano da existência espaço-temporal, sua noção é diferente da noção de ser individual.

É na deficiência ontológica inerente à "abstração" deste ato constituinte que põe estas "significações essenciais", que nos parece residir a objetivação que caracteriza a vontade de poder da subjetividade objetivante. E é a universalidade abstrata da essência encarnada que constitui a objetividade — no sentido ontológico e não apenas epistemológico desta palavra. É de se notar que esta abstração está profundamente ligada à encarnação ou, se se preferir, à imanência da essência na existência espaço-temporal. A objetivação não está, portanto, ligada à posição da essência em geral nem àquela da universalidade em geral, mas à posição de uma essência ao mesmo tempo universal, abstrata e encarnada: 1) Universal neste sentido de que ela se aplica a um número indefinido de realidades particulares (nós não dizemos de indivíduos); 2) Abstrata neste sentido de que ela não visa a totalidade concreta do real, mas que ela se move, de certa forma, na superfície do ser (assim as leis da física matemática ou as essências ou formas específicas da biologia animal ou vegetal enquanto elas se distinguem dos seres individuais encarados na totalidade de sua concreção singular); 3) Encarnada neste sentido de que a essência objetiva — produto da constituição objetivante — não tem realidade senão em seu ato de inserção no quadro individualizante do espaço e do tempo que ela constitui por seu próprio desdobramento.

A universalidade, a abstração e a encarnação constituem, portanto, a tripla condição do processo de objetivação que caracteriza a "vontade de poder" da subjetividade lógica. À encarnação abstrata da subjetividade cognoscente, que é necessariamente individualizada, embora não individual, corresponde a encarnação abstrata da essência universal que, ela também, é sempre individualizada em realidades singulares, mas não individual.

Nós podemos voltar agora ao desvelamento da essência objetiva que se integra, com a projeção do conceito e a constituição da significação essencial, à dialética epistemológica que caracteriza a subjetividade objetivante. E isso nos permitirá ao mesmo tempo completar nossa análise da temporalidade objetivante, pelo exame da natureza do presente que jorra da transcendência da subjetividade objetivante para o mundo das essências encarnadas. A subjetividade objetivante desvela o mundo como um conjunto de essências imanentes à experiência ou "existencializadas", e é nisto que consiste a transdescendência objetivante para o mundo existente. Não se trata, é claro, de uma transcendência para a existência concreta, encarada como a totalidade dos "predicados" que definem e caracterizam os seres individuais em sua intimidade singular, mas de uma transcendência para o que conviria mais nomear "a existência abstrata". É de se notar que a abstração que está na raiz do ato de objetivação que caracteriza a subjetividade como vontade de poder incide tanto sobre a essência, que não é encarada senão no plano da universalidade abstrata, quanto sobre a existência, que não é jamais senão o complemento ontologicamente deficiente desta última. A existencialização da essência universal é ela mesma marcada com o selo desta abstração fundamental. A singularidade das determinações da experiência espaço-temporal nunca é senão a indispensável, mas também a abstrata, tradução da universalidade da essência (tal cor aparece como um exemplar da cor em geral e não como a cor que caracteriza tal atributo próprio a tal ser singular; tal homem concreto aparece como um exemplar qualquer da humanidade em geral, ou no máximo como o representante de tal grupo étnico ou social, etc., mas não como tal ser individual encarado como uma totalidade singular e concreta). O desvelamento da essência objetiva consiste precisamente na apreensão quase intuitiva pela subjetividade empírica objetivante da essência universal e abstrata no cerne mesmo da existência na qual ela se encarna. Nós falamos aqui de desvelamento precisamente porque a essência assim visada é apreendida como pertencente explicitamente ao mundo existente para o qual a subjetividade se transcende. É a própria essência que se revela, por assim dizer, à subjetividade em sua pertença íntima ao mundo no qual se enraízam a essência, assim como a própria subjetividade. A essência só é "projetada" sobre a existência no nível do processo transcendental e quase "cosmogônico e criador" da constituição que nos parece logicamente impossível de recusar se não se admite o recurso metafísico ao processo transcendente da "criação" ou da "participação". E é, aliás, esta projeção sobre o tecido da existência bruta que garante — no plano transcendental da constituição, distinto, repetimos, do plano empírico do desvelamento e da projeção — a autenticidade do processo de transdescendência para o mundo existente. A existência é implicitamente visada como o termo último da intencionalidade ou da transcendência da subjetividade para o mundo, mas como o termo sempre escondido, recalcado e recoberto pela expansão da inteligibilidade racional, abstrata e objetivante que emana da subjetividade lógica. Trata-se bem da existência que não é o objeto de um ato constituinte da subjetividade transcendental, mas de uma existência travestida, abstrata, empobrecida.

No plano empírico, por outro lado, a essência não é projetada pela subjetividade, mas desvelada no cerne mesmo desta existência abstrata. A objetivação que caracteriza a transcendência da subjetividade para o mundo existente determina, portanto, a objetividade tomada no sentido da independência da realidade para a qual a subjetividade se transcende. Esta independência está ligada ao fato de que a subjetividade empírica encontra o objeto, isto é, a essência objetiva abstrata e encarnada que se desvela a ela, mas este encontro pelo sujeito empírico (isto é, aqui individualizado, mas não propriamente individual) é explicitamente postulado como idêntico para qualquer sujeito empírico, visto que cada um destes sujeitos é apenas um exemplar qualquer da subjetividade transcendental que ela também só existe enquanto encarnada e individualizada. A objetividade, que implica o encontro de uma essência individualizada pela subjetividade empírica, se fundamenta, portanto, igualmente na constituição universal de uma essência abstrata pela subjetividade transcendental. A imersão na existência abstrata que caracteriza a essência objetiva em sua independência em relação à subjetividade empírica está, portanto, profundamente ligada, para a constituição deste caráter de objetividade, à universalidade abstrata que é implicada pelo duplo superamento do sujeito empírico para o sujeito transcendental no plano da subjetividade, e da existência na qual o real se individualiza para a essência que ali se realiza, no plano da realidade intencionalmente visada pelo sujeito.

É de se notar ainda que a objetividade, que está intimamente ligada à aparência de desapego, de quase-passividade diante do real que se oferece à subjetividade na experiência, se opõe, portanto, apenas na aparência à vontade de poder que nos parece caracterizar a subjetividade objetivante nas diversas modalidades, empíricas ou transcendentais, de sua atividade. A independência aparente da essência objetiva e seu acolhimento pela subjetividade empírica não deve nos mascarar o fato de que a subjetividade transcendental que constitui a significação "essencial" e "objetiva" que a subjetividade empírica desvelará não é outra coisa senão a própria essência desta última. Na passagem de uma para a outra, trata-se de dois planos diferentes e não separados de uma mesma natureza, de uma mesma realidade. A aparência de desapego da subjetividade empírica deve ser referida à atividade fundamental pela qual a subjetividade transcendental individualizada projeta sobre o existente bruto significações ou essências objetivas. Mais profundamente, poder-se-ia dizer que no acolhimento objetivo e desinteressado, que parece caracterizar o desvelamento objetivante, se manifesta a decisão implícita da Vontade que influiu a Inteligência individualizada no sentido de uma visão totalitária, embora limitada e mutilante, do real. O "desvelamento" do real é, portanto, sempre subordinado, aqui como em cada uma das estruturas temporais da subjetividade temporalista, ao Querer fundamental e deformante que pesa sobre a Inteligência enquanto ela se recusa a toda relação positiva de participação na Transcendente (no duplo plano ontológico e gnoseológico).

A dimensão do presente, que nós podemos melhor determinar agora, resulta precisamente desta transcendência objetivante para a essência atualizada, existencializada ou individualizada. A projeção do conceito que permite o desvelamento da essência implica, nós o vimos, uma abertura permanente sobre um futuro indefinido e inesgotável, que é, aliás, a própria marca da existência em sua oposição à plenitude imóvel e acabada da essência metafísica ou simplesmente lógica. Os conceitos que eu aponto, por assim dizer, sobre o mundo existente enquanto implicitamente desvelado, implicam, portanto, um inacabamento, mas este inacabamento caracteriza igualmente a essência que o conceito permite desvelar. O presente é o ponto de ancoragem da subjetividade no real existente, isto é, aqui na plenitude abstrata da essência encarnada. O presente não é, portanto, tanto aqui o lugar de passagem de um possível que se atualiza para desaparecer sem retorno em um passado irrevogável, quanto o que permite à subjetividade colocada em face da essência objetiva superar o risco e o perigo de um tal aniquilamento.

Cada uma das determinações que a essência revela em seu incessante devir se integra à presença fundamental da essência desvelada, pois nós já sabemos que o passado não é outra coisa senão esta essência em sua realidade espiritual mais profunda que aparece como ser e plenitude e não como nada, enquanto que o futuro, que não é nem indeterminado nem imprevisível, não é outra coisa senão a garantia da permanência da essência objetiva. O futuro é a essência objetiva enquanto ela visa a existência abstrata na qual ela precisa se atualizar, esta atualização sendo a garantia e o próprio sinal de sua realidade.

A subjetividade objetivante como tal é, portanto, levada a desvelar, no nível do real objetivo, uma temporalidade tão abstrata, tão pouco trágica quanto aquela na qual ela se encontra ela mesma mergulhada enquanto subjetividade empírica. É a natureza da presença no mundo que liga a subjetividade ao real existente que constitui aqui o tempo como um presente contínuo, neste sentido de que ele se fundamenta em um passado que lhe confere sua densidade ontológica e sua significação, e se projeta para um futuro que lhe assegura sua permanência e sua continuidade. Este primado da dimensão do presente provém aqui do fato de que a subjetividade, em seu movimento de transcendência para o mundo existente, não visa a existência em sua contingência e sua opacidade originais, mas enquanto mediada pela essência à qual ela permite se atualizar. E é esta visão da essência "existencializada" que confere ao presente este aspecto de permanência oposto ao aspecto fugidio que se costuma atribuir a ele e que nós teremos a ocasião de meditar no decorrer da análise das outras estruturas temporais.