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id da página: 11034 Vallin GVEI:34-39 – Dogmatismo temporalista e a experiência da individualidade.

Vallin GVEI-34-39


VALLIN, Georges. Être et individualité. Paris: Presses Universitaires de France, 1959

B) Problemas postos pelas estruturas temporais

Após este esboço dos caracteres essenciais das estruturas temporais, nós gostaríamos de evocar diversos problemas levantados por nossa descrição.

1) A dialética das estruturas temporais
Uma questão preliminar que se oferece necessariamente à reflexão é a da hierarquia das estruturas ou ao menos da ordem que nós escolhemos para as descrever; nós sinalizamos acima que esta hierarquia poderia se fundamentar na proximidade respectiva destas estruturas em relação ao polo "essencial" ou "metafísico" da manifestação. A este respeito, é evidente que a esfera lógica ocupa o primeiro lugar e a estrutura negativa o último, a estrutura estética se situando no intervalo. Além disso, nós lembraremos que a ordem seguida por nossa descrição das estruturas é igualmente a de sua sucessão histórica, tudo se passando como se a história da filosofia implicasse, pelo menos em suas grandes linhas, uma "desessencialização" progressiva do ser, uma afirmação cada vez mais acentuada do "cosmológico puro" em detrimento do "metafísico"; os sistemas focados na "esfera negativa" revelam, segundo nós, as possibilidades últimas do que se poderia chamar o ciclo atual da história das ideias filosóficas. Nós encaramos em uma obra precedente os diversos momentos desta dialética histórica. É a dialética individual que reterá aqui nossa atenção.

A estrutura lógica aparece como a esfera mais "sólida" e mais habitual da subjetividade e corresponde em certa medida ao que o existencialismo chamou de "banalidade cotidiana": tal é a segunda razão que justifica seu lugar no início de nossa descrição. As temporalidades "estética" e "negativa" são estruturas muito mais fugitivas e difíceis de circunscrever, assim como o atestam as exortações de Bergson a remontar a rampa de nossos hábitos intelectuais e as de Sartre nos pedindo para nos arrancarmos à "má fé". Tudo se passa como se a subjetividade, após ter cortado todas as relações de participação com a Transcendência, tivesse tendência a se mergulhar sem cessar no universo "desindividualizado" da estrutura lógica, a fugir da experiência aguda da individualidade que se oferece a ela na esfera negativa: tal é a dialética bem trazida à luz por Pascal e os existencialistas (divertimento, má fé, etc.). Mas nós veremos que a esfera negativa, no plano individual como no plano histórico, é a verdade (no sentido hegeliano) das estruturas panteísticas, ou seja, a consequência necessária da "desessencialização" implicada pela visão "ordinária", "habitual" da esfera lógica. Sem dúvida, um dos méritos do existencialismo, no plano histórico, é o de desvelar, com uma extrema lucidez, as últimas consequências da recusa implícita da transcendência que caracterizava o "essencialismo" antimetafísico (Leibniz, Kant, Hegel).

1) A dialética histórica
No plano de uma "dialética histórica", ou seja, dos sistemas filosóficos, é fácil de se mostrar um processo irreversível indo da esfera lógica à estrutura negativa. A esfera estética joga aqui um papel intermediário, mas sem estabelecer, no entanto, uma continuidade lógica e rigorosa, à maneira da dialética hegeliana, entre a estrutura lógica e a esfera negativa. (A descontinuidade das estruturas nos aparecerá, com efeito, como um dado irredutível tanto no plano histórico quanto no plano subjetivo.) É bem evidente, no entanto, que não se trata aqui senão de um esquema muito geral, determinando as possibilidades características de um momento do processo evolutivo, o que não impede a sobrevivência das outras possibilidades ao lado das primeiras. Por outro lado, é na estrutura negativa que se deterá nosso exame da dialética "histórica" das estruturas temporais, o reviramento total que conduz ao desvelamento das estruturas metafísicas não podendo ser senão um objeto de conjecturas incontroláveis. O problema se encontrará, no entanto, implicitamente posto: as filosofias do "nada" que parecem um dos aportes mais característicos do pensamento contemporâneo, pelo menos enquanto este se interroga sobre a essência e o destino do homem, não são elas os sinais de uma época que parece paradoxalmente capaz de retomar o contato com o pensamento metafísico concebido não como uma tímida filosofia dos valores ou uma laboriosa teoria do conhecimento, mas como uma abertura autêntica e integral ao Universal?

2) A dialética individual
No plano da dialética individual, o processo das estruturas temporais não é certamente irreversível, e é, portanto, apenas aqui que o emprego do termo de "dialética" se encontra plenamente justificado. Embora a esfera negativa se encontre "logicamente" no término do processo dialético — já que após o trazer à luz desta estrutura temporal a consciência não saberia "logicamente" voltar para trás, mas pode então apenas avançar em vias novas que a orientarão precisamente para a descoberta das estruturas metafísicas — de fato, este desvelamento da estrutura negativa é geralmente apenas parcial e fragmentário, o que explica a reversibilidade da passagem das estruturas panteísticas para a esfera negativa. Pode-se encarar dois aspectos essenciais na dialética individual das estruturas temporais, por um lado uma dialética inerente às estruturas panteísticas, por outro lado uma dialética opondo as estruturas panteísticas à estrutura negativa.

      1. a) Dialética inerente às estruturas panteísticas

Nós já sabemos que cada estrutura aparece como um ponto de vista limitado sobre o ser, completo à sua maneira, mas excluindo por essência os pontos de vista implicados em cada uma das outras estruturas. É esta exclusão recíproca que explica e justifica em geral a passagem de uma estrutura para a outra, a consciência individual ou histórica tendo tendência a passar, após os excessos próprios ao exclusivismo de um ponto de vista determinado, à afirmação de um "sistema" oposto. A estrutura lógica e a esfera negativa estão ligadas a duas visões do mundo que se excluem de fato, mas que repousam, no entanto, sobre duas exigências complementares e, aliás, conciliáveis em um plano mais universal enquanto permanecem contraditórias no plano da imanência temporalista. Enquanto que a esfera lógica ou objetivante corresponde a uma exigência de unidade, de inteligibilidade, de clareza, a estrutura estética implica uma exigência de intimidade, de profundidade que comporta um certo sentido do mistério e da irredutível singularidade dos seres e das coisas. Estas duas tendências permanecem inconciliáveis no plano da imanência temporalista: não se saberia imaginar sua síntese, mas apenas sua justaposição e sua coexistência. A esfera objetivante nos instala no universo transparente do hábito, da ciência triunfante (em vez de militante, é verdade), da tecnologia industrial e política, onde as realidades são manipuláveis e transparentes, mas onde os seres singulares se revelam intercambiáveis e suas tendências secretas escamoteadas em favor de uma universalidade toda exterior. A esfera estética, no oposto, nos oferece a visão refrescante da singularidade e da beleza das coisas que se expande na atitude contemplativa ou criadora do artista. Ela nos desvela um aspecto do real totalmente recalcado, senão destruído, pelo hábito, a ciência e a técnica. Nós teremos que nos perguntar se a vida do homem moderno não nos oferece um exemplo muito válido da dialética destas duas estruturas. O homem moderno, com efeito, para escapar ao universo monótono e desindividualizado da ciência, assim como de sua vida ordinária, vai buscar um refúgio e mesmo uma evasão na arte ou na natureza não domesticada (da fábrica cotidiana ao cinema semanal, da oficina à excursão dominical, da filosofia das ciências ao surrealismo, etc.). Nenhuma destas duas esferas lhe é suficiente por si só: cada uma chama a outra como seu complemento, mas como um complemento contraditório, porque incapaz de se harmonizar com a esfera oposta. Em todo rigor, o mundo da ciência e da técnica não é belo, o mundo da arte não é verdadeiro: há um divórcio dos valores que se manifesta de forma mais visível nos produtos da técnica: o objeto útil tende a excluir a beleza, a arte tende para a pura gratuidade de uma atividade de luxo. Aliás, o mundo da arte é implicitamente posto como irreal, imaginário, ao lado da seriedade e da gravidade do mundo "ordinário". Estes dois universos parecem impermeáveis um ao outro, e nós passamos de um para o outro não por osmose, mas por um processo de ruptura, por um verdadeiro reviramento: há descontinuidade profunda, embora passagem possível e mesmo necessária entre estas duas esferas. As intencionalidades que presidem a seu respectivo desvelamento do real não se cruzam. A subjetividade que permanece no nível da imanência temporalista se encontra aqui como que estirada e dilacerada, mesmo que ela não seja consciente desta contradição e deste dilaceramento.

      1. b) Passagem das estruturas panteísticas para a estrutura negativa

Mas há uma dialética que nos reterá mais por causa do papel capital que ela vai desempenhar na determinação de uma experiência válida do ser individual: é aquela que conduz das estruturas panteísticas para a estrutura negativa e vice-versa. A passagem para a estrutura negativa marca ao mesmo tempo o fracasso e o limite da visão do mundo inerente às estruturas panteísticas, ou mais precisamente, nós veremos que ela resulta da consciência do fracasso da integração panteística. A estrutura temporal da esfera negativa se revelará como a verdade das outras estruturas e isto de duas maneiras: primeiro como o término último de um processo evolutivo, individual ou histórico; em seguida como a estrutura fundamental por referência à qual as estruturas panteísticas tomarão sua significação, pelo menos no quadro da imanência temporalista. Nós esboçamos acima a primeira perspectiva; examinemos rapidamente a segunda. Se a esfera negativa se encontra sendo a "verdade" das outras estruturas, ela toma por isso mesmo um valor provisório de polo e de fundamento em relação a estas últimas; ela aparece como uma estrutura mais íntima e mais profunda cuja negatividade ameaça surdamente o equilíbrio frágil das totalidades panteísticas. É nestas últimas estruturas que a consciência busca normalmente se estabelecer ou se refugiar em razão da dupla forma de plenitude que ela comporta: pode-se afirmar que ela recusa a experiência do real que se oferece a ela no nível da esfera negativa. Com efeito, a subjetividade humana tende naturalmente a se desviar da visão de um mundo desintegrado pelo nada, destituído de seu sentido e reduzido ao absurdo. É esta atitude que nós chamaremos de "divertimento" com Pascal. Da mesma forma que havia uma dialética intrapanteística consistindo na passagem recíproca da estrutura objetivante para a estrutura estética, haverá uma dialética do divertimento entre as esferas panteísticas e a estrutura negativa. Do ponto de vista do "instante negativo," a identificação da subjetividade com uma ou outra das esferas panteísticas aparecerá como divertimento no sentido forte e etimológico de "ato de se desviar de". Nós veremos que a "esfera negativa," de fato, nunca é senão entrevista: o fracasso fundamental de nossos projetos e o desmoronamento dos valores que se perfilam como sombras ameaçadoras atrás de cada um dos fracassos particulares de nossas démarches empíricas é sempre vencido, recalcado, esquecido. A estrutura negativa — diferindo nisto das estruturas panteísticas — é semelhante ao "sol e à morte" que, segundo La Rochefoucauld, "não se podem olhar de frente" e aparece como um termo ideal ou como um polo de significação, mas que nunca é atingido em si mesmo e na totalidade de suas implicações. Ela é "dialética", neste sentido de que ela remete necessariamente a outras estruturas que recalcam ou sublimam sua inquietante negatividade, quer se trate das estruturas panteísticas das quais ela constitui a verdade e a essência profunda, embora jamais plenamente manifestada, ou das estruturas metafísicas, em relação às quais ela aparecerá como um meio de aproximação privilegiado para a consciência que perdeu toda relação efetiva com a Transcendência. Este caráter "dialético" nos parece ter sido um tanto esquecido ou escamoteado pelo existencialismo dito "ateu" que, se ele teve o mérito de atrair a atenção sobre esta estrutura, tentou em um projeto heroico e absurdo fazer dela uma visão de mundo viável e que se basta a si mesma. Ora, nós notávamos que um fracasso da atitude "temporalista" em relação ao mundo remetia à estrutura negativa como à verdade deste fracasso, mas tão logo entrevista, a estrutura negativa por sua vez remete à segurança ilusória e à plenitude precária das esferas panteísticas. Pode-se esboçar dois momentos característicos deste "divertimento" correspondendo a cada uma das estruturas panteísticas: — por um lado o divertimento do hábito, da "banalidade" cotidiana, que corresponde à esfera lógica e que consiste para a consciência temporalista em fugir da revelação da contingência de seus projetos e de sua irremediável solidão ao se mergulhar na esfera dos valores anônimos das condutas automatizadas e desindividualizadas (primado da função sobre o ser). — por outro lado o divertimento estético que caracteriza o tipo espiritual do esteta, e não mais o do "burguês" (como era o caso no momento precedente) e que corresponde à estrutura estética. A consciência, para fugir da experiência aguda de sua solidão, se mergulha nos valores do imediato e parte em busca de sensações inéditas.