VALLIN, Georges. Être et individualité. Paris: Presses Universitaires de France, 1959
O dogmatismo temporalista e a experiência da individualidade: As estruturas temporais da Consciência
A) Descrição geral das estruturas temporais
O que permite antes de tudo distinguir o dogmatismo ontoteológico e o dogmatismo temporalista 1 , é sua atitude respectiva quanto ao Tempo. A ontoteologia substantialista permanece tributária dessa Transcendência que apenas renunciou pela metade: também o tempo aí permanece sempre mais ou menos semelhante à "imagem móvel da eternidade imóvel" de que falava Platão. As inevitáveis concessões ao "cosmologismo" resultantes da inversão das relações metafísicas entre a Essência e a Substância parecem concentrar-se na passagem da Ideia divina à substância criada, isto é, do metafísico ao cosmológico: a substância criada comporta um "mais" em relação à essência que está compreendida no Entendimento divino, mas se a substância é inconcebível, num Leibniz, sem sua exteriorização no plano dos fenômenos que se desenrolam no tempo, por outro lado o tempo tem aqui por papel apenas atualizar virtualidades que estavam eternamente compreendidas na própria essência. Esta atualização não chega a um enriquecimento das determinações qualitativas da substância mas a um enriquecimento existencial que equivale a um acréscimo de tipo "quantitativo", para retomar a linguagem leibniziana.
Pelo contrário, na perspectiva temporalista que cortou todas as relações com a Transcendência, a temporalidade adquire uma autonomia que lhe dará relevo e realidade. O devir aparecerá doravante para os seres, pelo menos ao nível de certas estruturas temporais, como um princípio de enriquecimento qualitativo. O tempo circular, como se podia esperar após a inversão das relações metafísicas ou normais entre a Essência e a Substância, tem tendência a ceder lugar ao tempo linear, fator de progresso indefinido. Ver-se-á aliás que, se o Tempo ao qual se recusa a participação na Eternidade não aparece necessariamente, ao nível de cada uma das estruturas fundamentais que se terá de distinguir, como criação enriquecedora e contínua de uma novidade previsível ou imprevisível, parece sempre morder e ter prise sobre a realidade íntima e profunda dos seres.
É notável que os filósofos que, de Kant a Heidegger, falaram do "ser-para-o-tempo", tenham identificado de forma arbitrária o aspecto do tempo que puseram em evidência com a própria essência do tempo.
Do ponto de vista da perspectiva metafísica que se adotou para descrever esta experiência imanente, parece que se pode distinguir na realidade do tempo diversos andares que correspondem aliás aos diversos aspectos injusta e inconscientemente sistematizados por filósofos como Kant, Hegel, Bergson ou Sartre. Ver-se-á que se pode estabelecer entre estas estruturas uma certa hierarquia que não implica nenhuma exclusão e que se funda em seu grau respectivo de proximidade em relação ao polo essencial e metafísico ou de afastamento em relação ao polo substancial e cosmológico do Manifestado.
Assinale-se primeiro um primeiro plano de clivagem segundo o qual as estruturas de tipo panteísta opõem-se à estrutura que se chamará negativa devido ao lugar que concede ao "Nada".
As estruturas panteístas apenas conseguem justificar uma temporalidade cosmológica com exclusão de um devir concernente aos seres individuais. Em cada uma das estruturas panteístas onde se distinguirá a temporalidade lógica ou objetivante e a temporalidade estética, ver-se-á que é impossível aceder a uma experiência verdadeira do ser individual: chegam ambas à determinação de totalidades cosmológicas nas quais se encontram integrados os seres individuais (totalidades em movimento, criações contínuas de uma novidade previsível (esfera lógica) ou imprevisível (esfera estética), tais como a espécie, a humanidade, a Vida, etc.).
Pelo contrário, ao nível da estrutura negativa, ver-se-á operar um verdadeiro retorno em relação às estruturas precedentes. A integração panteísta aí revela-se impossível: a subjetividade que aí se atinge coloca-se como efetivamente irredutível a totalidades cosmológicas, e parece possível justificar aí a realidade de um devir propriamente individual dos seres. A subjetividade aí realiza a experiência de uma espécie de isolamento radical em relação a um mundo que perdeu seu sentido e sua densidade existencial. Mas ter-se-á de notar que esta experiência falha na medida em que a irredutível singularidade do ser individual deve-se ao fato de a subjetividade identificar-se com um nada, com um vazio, que traduzem uma nostalgia ou uma recusa do mundo, bem mais que um autêntico desapego. E ver-se-á que a ideia de um devir individual ao qual se recusa toda participação de tipo vertical (metafísico) ou horizontal (cosmologismo ontológico ou temporalista) é uma pura impossibilidade filosófica.
Donde este dilema que se imporá à reflexão: ao nível de uma experiência "imanente":
— ou bem o ser individual possui uma estrutura verdadeira mas sob a condição de negar-se como individualidade singular, e de encontrar sua essência numa totalidade cosmológica na qual se integra e com a qual se identifica;
— ou bem o ser individual encontra-se colocado como individualidade irredutível, mas perdendo toda realidade efetiva e toda estrutura, isto é, identificando-se com o nada.
Há pois descontinuidade entre as perspectivas panteístas e a estrutura negativa, que respondem ambas a duas exigências aparentemente contraditórias, pelo menos no plano da imanência temporalista: a exigência de plenitude ontológica que se encontra satisfeita ao nível das estruturas panteístas e a exigência de intimidade subjetiva que parece encontrar um eco na estrutura da temporalidade negativa.
Se se considerar o conjunto das estruturas panteístas, descobre-se aí igualmente uma solução de continuidade entre a temporalidade estética e a temporalidade objetivante.
Ao nível da estrutura objetivante vê-se dominar o que se poderia nomear uma vontade de poder e de posse em relação ao real.
A temporalidade objetivante é estruturada por uma essência (cosmológica, e não metafísica) que apenas se concebe engajada numa existência temporal. O devir aí é colocado ao mesmo tempo como enriquecedor e previsível porque conforme a uma dialética racional que ilustra bastante bem o sistema hegeliano. Os seres individuais encontram-se aí integrados, segundo que seu grau de existência os faz ou não participar do tempo, a totalidades cosmológicas, imóveis (espécies químicas) ou em movimento (Vida, Humanidade), mas o movimento mesmo recebeu o batismo da razão.
A intencionalidade que determina aqui o conhecimento do real tende a colocar, segundo a fórmula de Hegel, como irreal tudo o que não é racional, encerrando a totalidade do ser numa sistematização conceptual que expulsa deliberadamente o individual, o mistério, o imprevisível, etc.
Na temporalidade estética pelo contrário, a vontade de poder cede lugar a uma atitude de acolhimento, onde o conceito é rejeitado em proveito de uma intuição que pretende fazer penetrar na intimidade existencial dos seres e das coisas. A apreensão do real quer-se imediata, a subjetividade pretende abrir-se à individualidade misteriosa das coisas, aquém de todas as relações conceptuais artificialmente tecidas pela inteligência. Descontinuidade e imediatez da sensação pura, intuição inefável, espanto perpétuo, contingência radical, eis alguns dos aspectos desta visão do mundo que se encarna nomeadamente no temporalismo bergsoniano.
A recusa das essências e do conceito traduz-se no plano do devir por uma temporalidade linear que expulsou os últimos vestígios de uma temporalidade circular que ainda podiam subsistir ao nível da estrutura objetivante.
Ver-se-á todavia esta estrutura, que busca também deliberadamente cercar o individual que a estrutura lógica tendia a ultrapassar, falhar finalmente seu objetivo: a duração individual confunde-se com o devir universal (Élan vital bergsoniano) e os seres individuais encontram-se integrados a uma totalidade cosmológica de tipo "vital" ou "existencial". A temporalidade estética revelar-se-á uma estrutura panteísta ao mesmo título que a temporalidade lógica.