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id da página: 8943 SOL CORAÇÃO

Sol Coração


René Guénon: OS SÍMBOLOS DA CIÊNCIA SAGRADA
Ao nos referirmos a propósito da "luz e da chuva",(Ver cap. 50) às representações do Sol com raios alternadamente retilíneos e ondulados, mencionamos que as duas espécies de raios se encontram também, de modo muito semelhante, em certas figurações simbólicas do coração. Um dos exemplos mais interessantes é o do coração figurado sobre um pequeno baixo-relevo de mármore negro, que data aparentemente do século XVI e provém do Convento Cartuxo de Saint-Denis d'Orques, tendo sido estudado por L. Charbonneau-Lassay.1 Esse coração irradiante está colocado no centro de dois círculos sobre os quais se encontram respectivamente os planetas e os signos do Zodíaco, o que o caracteriza de forma evidente com o "Centro do Mundo", sob a dupla relação do simbolismo espacial e do simbolismo temporal.2 Essa figuração é evidentemente "solar", mas no entanto, o fato de que o Sol, entendido no sentido "físico", encontra-se colocado no círculo planetário, tal como deve estar normalmente no simbolismo astrológico, mostra muito bem que se trata nesse caso do "sol de medianoche".

Vale a pena lembrar que a assimilação do Sol ao coração, na medida em que ambos têm igual significação "central", é comum a todas as doutrinas tradicionais, no Ocidente e no Oriente. Proclo, por exemplo, assim fala ao se dirigir ao Sol: "Ocupando acima do éter o trono do meio, e tendo por imagem um círculo deslumbrante que é o Coração do Mundo, tu preenches a tudo com uma providência pronta a despertar a inteligência."3 Citamos de preferência esse texto, ao invés de muitos outros, em virtude da menção formal que se faz à inteligência. E, tal como já explicamos em muitas oportunidades, o coração é considerado também, antes de mais nada, em todas as tradições, como a sede da inteligência.4 Aliás, segundo Macróbio, "o nome Inteligência do Mundo que se dá ao Sol corresponde ao de Coração do Céu;5 fonte da luz etérea, o Sol é para esse fluido o que o coração é para o ser animado.6 Plutarco, ainda, escreveu que o Sol, "tendo a força de um coração, espalha e emite de si o calor e a luz, como se fosse o sangue e o sopro.7 Encontramos nessa última passagem, tanto para o coração como para o Sol, a indicação do calor e da luz, que correspondem às duas espécies de raios que considerávamos. E se o "sopro" está aí relacionado à luz, é porque na verdade se constitui no símbolo do espírito, que é em essência a mesma coisa que a inteligência. Quanto ao sangue, é evidentemente o veículo do "calor vivificante", o que se refere mais em particular ao papel "vital" do princípio que é o centro do ser.8


NOTAS:
1 Le Marbre astronomique de Saint-Denis d'Orques, na Regnabit, fev. 1924, (republicado no livro Le Bestiaire du Christ, cap X).
2 Existem também, na mesma figura, outros detalhes de grande importância do ponto de vista simbólico : assim, em especial, o coração tem uma chaga, ou alguma coisa com a aparência exterior de uma chaga, com forma de um iod hebraico, o que se refere ao mesmo tempo ao "Olho do Coração" e ao "germe" do avatar que reside no "centro", quer seja este entendido no sentido macrocósmico (o que é aqui claramente o caso) ou no sentido microcósmico (v. Aperçus sur l'Initiation, cap. XLVIII).
3 Hymne au Soleil, trad. de Mario Meunier.
4 É claro (e voltaremos a isso mais adiante) que se trata aqui da inteligência pura, no sentido universal, e não da razão, que é o simples reflexo dela na ordem individual e está relacionada ao cérebro; no ser humano, o cérebro está para o coração em relação análoga a que, no mundo, a Lua está para o Sol.
5 A expressão "Coração do Céu", aplicada ao Sol encontra-se também nas antigas tradições da América Central.
6 O Sonho de Cipião, 1,20.
7 Da face que se vê no circulo da Lua, 15,4. Esse texto e o precedente são citados em nota pelo tradutor a propósito da passagem de Proclo que acabamos de reproduzir.
8 Aristóteles assimila a vida orgânica ao calor, no que está de acordo com todas as doutrinas orientais. O próprio Descartes coloca no coração um "fogo sem luz", mas que para ele é apenas o princípio de uma teoria fisiológica exclusivamente "mecanicista" como toda sua física, o que, bem entendido, nada tem em comum com o ponto de vista tradicional dos antigos.