Approches de l’Inde - Tradition et incidences. Dir. Jacques Masui, Cahiers du Sud, 1949 (original)
Se, conforme assinala A. K. Coomaraswamy, Shankara, em seus comentários, evita de certo modo falar da “redescida” ao manifestado, o mesmo não se pode dizer de seus hinos, e aquele de que se oferece aqui a tradução inédita é um testemunho eloquente. Parece-nos difícil encontrar uma conclusão melhor para um panorama do pensamento hindu do que este magnífico panegírico do sábio que, após ter rejeitado todas as formas e todos os estados para evadir-se do Cosmos, “redesce” à manifestação, ao menos em aparência, estando a libertação realizada, e as assume todas e a todos sem ser minimamente afetado pelas condições e limitações inerentes a tamas, sua raiz tenebrosa. 1 . Precisa-se que o termo tamas, repetido em cada estância, possui um sentido inteiramente geral e mais estendido do que aquele de que se fala adiante, onde se refere a um dos três gunas do ponto de vista cosmológico. Quanto à palavra Muni, esta designa o sábio que realizou a Solidão (mauna) ou Libertação, por meio da meditação (jnanana) do Veda, segundo o preceito enunciado pela Brihad Aranyaka Upanishad: shrotavyo mantavyo nididhyasitavyah: (Isso) deve ser ouvido (da boca de um mestre qualificado), meditado (na profundidade do coração) e contemplado (pela percepção direta). Acrescenta-se que a palavra moha, que foi traduzida por ilusão, possui, como sentido primário, a perda de consciência e designa mais especialmente no Vedanta o extravio que atribui às aparências mundanas uma realidade absoluta e imerge nos prazeres dos sentidos com, por consequência, a confusão, a perplexidade, a infatuação, o erro, a aflição, etc., acepções que estão igualmente incluídas em moha.
Quando, na cidade, contempla os citadinos, homens e mulheres constituídos pelo nome e pela forma, bem vestidos e adornados com ornamentos de ouro, e se distrai com eles, pensando: “Aquele que percebe é a (pura) Testemunha”, o Muni não está na ilusão: tamas, graças à iniciação de seu guru, foi abolido.
Quando, na floresta, observa os cumes que se curvam sob seus fardos de folhas, e escuta os chilreios variados das tropas de pássaros ocultos na espessa sombra, tendo por assento, à noite como de dia, apenas uma porção do solo, o Muni não está na ilusão: tamas, graças à iniciação de seu guru, foi abolido.
Quando permanece num templo, num outro dia em um palácio suntuoso, ora sobre um rochedo, noutra vez nas margens dos rios, ou quando compartilha a cabana de algum sábio eminente e tranquilo, o Muni não está na ilusão: tamas, graças à iniciação de seu guru, foi abolido.
Quando se recreia, aqui com crianças que riem e batem palmas, ali com uma mulher jovem e bonita, quando dialoga com anciãos austeros ou bem com homens inteiramente diferentes, o Muni não está na ilusão: tamas, graças à iniciação de seu guru, foi abolido.
Quando conversa com Sábios que saboreiam uma felicidade imemorial e multiforme, ou bem com poetas tendo nos lábios a essência mesma da arte poética, noutros momentos com os melhores lógicos apaixonados por deduções, o Muni não está na ilusão: tamas, graças à iniciação de seu guru, foi abolido.
Quando realiza em algum lugar um culto divino com meditações assíduas, noutro lugar com flores apropriadas, desabrochadas e muito odorantes, em algum outro lugar com folhas imaculadas, o espírito regozijado, inteiramente dedicado ao louvor, o Muni não está na ilusão: tamas, graças à iniciação de seu guru, foi abolido.
Quando recita os nomes daquela que é favorável aos seres 2 , daquele que concede a Tranquilidade 3 , ou de Vishnu (que penetra todas as coisas), ou quando recita os do Condutor da Tropa divina 4 ou daquele que manifesta e consome o universo 5 , e que a beatitude inunda seus olhos de lágrimas, o Muni não está na ilusão: tamas, graças à iniciação de seu guru, foi abolido.
Quando se purifica nas águas do Ganges, quando utiliza a água de um poço ou de um açude, quer esta água seja fria ou tépida e agradável, ou quando seu corpo (coberto de cinzas) é semelhante a cânfora, o Muni não está na ilusão: tamas, graças à iniciação de seu guru, foi abolido.
Quando está ocupado com os sentidos e os objetos do estado de vigília, quando usufrui dos objetos do estado de sonho ou quando percebe a felicidade ininterrupta do sono profundo, o Muni não está na ilusão: tamas, graças à iniciação de seu guru, foi abolido.
Quando está nu 6 , quando está vestido como um deus, ou quando porta em torno dos rins uma pele de leão, magnânimo, sem preocupação, causando a alegria no coração de seus próximos, o Muni não está na ilusão: tamas, graças à iniciação de seu guru, foi abolido.
Quando se mantém em sattva, quando está em contato com a natureza de rajas ou com a de tamas, ou quando se liberta destas três modalidades 7 , ora no curso da transmigração 8 , ora deleitando-se no caminho da Shruti 9 ; o Muni não está na ilusão: tamas, graças à iniciação de seu guru, foi abolido.
Quando guarda o silêncio ou quando se mostra propenso a falar, quando sua felicidade íntima suspende sua voz e o faz rir às gargalhadas, ou bem quando examina com interesse algum assunto mundano, o Muni não está na ilusão: tamas, graças à iniciação de seu guru, foi abolido.
Quando verte goles (de vinho puro) nas bocas em lótus abertos das Shaktis 10 , ou quando os toma ele mesmo por sua própria boca, mostrando que o meu e o teu não maculam a natureza não-dual, o Muni não está na ilusão: tamas, graças à iniciação de seu guru, foi abolido.
Quando tem prazer em frequentar os fiéis de Shiva ou os Shaktas 11 , quando vive entre os adoradores de Vishnu, entre os de Surya ou os de Ganesha, desembaraçado pela não-dualidade de tudo o que divide, o Muni não está na ilusão: tamas, graças à iniciação de seu guru, foi abolido.
Quando percebe a pura essência através da variedade inumerável de qualidades e de distinções, ora revestida de uma forma e ora sem forma, essência que é a sua e a de Shiva, quando, diante desta maravilha, exclama: “Que é isso!”, o Muni não está na ilusão: tamas, graças à iniciação de seu guru, foi abolido.
Quando percebe a dualidade inteira como sendo também a Verdade, como sendo feita de Shiva, segundo a grande palavra 12 , da qual compreendeu e meditou as acepções profundas; quando, tendo rejeitado o erro da dualidade (não unificada), repete incessantemente: Shiva! Shiva! Shiva!, o Muni não está na ilusão: tamas, graças à iniciação de seu guru, foi abolido.
Ele goza sem descanso da Libertação, mergulhando e mergulhando de novo no lago de beatitude inata que é a suprema realidade de Shiva, onde ele chegou graças ao olhar de néctar de seu guru compassivo. Sendo sua conduta perfeita, ele é o primeiro entre os homens e os poetas o proclamam um yogi, um renunciante, um inspirado.
Ele é silencioso com o taciturno, virtuoso com o virtuoso, erudito com o erudito, aflito com o aflito, na felicidade com o feliz, no prazer com o usufruidor, estúpido junto ao estúpido, juvenil com as mulheres jovens, loquaz entre os tagarelas, ele, o afortunado que conquistou os três mundos, ele é desprezado com o miserável!