FILIPPI, Gian Giuseppe. Post mortem et libération d’après Shankaracharya. Cahiers de l’Unicorne. Milano: Archè, 1978
”Quando um homem vai morrer, a palavra (vak) se reabsorve no sentido interior (manas), manas em prana, prana em tejas, e tejas na Suprema Divindade”. (Ch.Up., VI-VIII-6.) No momento da morte, os karmendriyas, isto é, as faculdades de ação, dentre as quais a palavra é a última a surgir na criança, abandonam os órgãos corpóreos respectivos para se retirarem no manas. O texto cita a palavra seja para significar a série completa dos karmendriyas, seja para sublinhar que esta reabsorção se desenrola na ordem inversa da sua produção no recém-nascido. Mas não é somente a série dos karmendriyas que se retira no sentido interior à expiração da vida corpórea: “Deve-se ler no texto, e pela mesma razão, que, à medida que a palavra (enquanto faculdade, não as palavras articuladas) se une ao manas, do mesmo modo a faculdade da visão mergulha no sentido interior”. (B.S., IV.II.2, S.b.) Por esta razão, embora a Upanisad mencione somente a palavra, deve-se, todavia, interpretar isso como o retorno seja dos karmendriyas, seja dos cinco jnanendriyas (faculdades de sensação) ao manas.
É mister agora estabelecer de que forma estes dez indriyas se reabsorvem no manas. Sankara indaga se entre o manas e os dez indriyas há uma relação de causa a efeito. É o caso, nestes exemplos, da causa material, isto é, da causa que difere das suas produções pelos atributos, mas que lhes permanece, contudo, sempre consubstancial. O exemplo tradicional hindu é o do ouro, que é a causa material dos colares de ouro.
A resposta é negativa, visto que os indriyas têm a sua causa material nos tanmatras, e não no manas. Aliás, o retorno dos indriyas nos tanmatras no momento da morte do corpo destruiria o agregado individual, o que aqui está fora de questão (não sendo ainda ultrapassado o domínio individual).
Então, a reabsorção dos dez indriyas no manas deve ser encarada como uma unificação que não acarreta confusão, porque mantém a distinção dos seus componentes. A Shruti descreve desta forma a unificação das faculdades ao manas: “Assim como os vassalos, os escudeiros e os chefes das aldeias rodeiam um rei que vai marchar, do mesmo modo, no momento da morte, todos os pranas circundam este atma, quando a respiração vai esvair-se.” (Br.A.Up., IV-III-38) “Quando este atma se torna fraco e desfalece, então todos os pranas vêm a ele: acolhendo em si todas estas partículas de luz, retira-se para o coração. Quando a divindade que preside à faculdade da visão ali regressa, o homem não pode mais perceber a cor. Estando os pranas unificados, diz-se então que ele não vê, não sente, não degusta, não fala, não escuta, não pensa, não toca, não conhece...” (Br.A.Up., IV.IV.l, 2).
Assim como os indriyas se reabsorvem no manas sem se identificarem com ele, não sendo este a sua causa, do mesmo modo o manas se retira no prana, e o prana no jivatma, a alma individual: “O prana se reabsorve na entidade que rege (a individualidade inteira)... que reside nos tanmatras, conforme a afirmação da Sruti.” (B.S., IV-2-4, 5).
Esta última etapa, a passagem do jivatma aos tanmatras, é o momento preciso da morte; e, visto que o jivatma é o calor vital, a sua passagem aos tanmatras acarreta o arrefecimento do corpo, como sinal exterior. Tudo isso é decretado pela Sruti (Br.A.Up., IV-IV.2), que afirma que no momento da morte os pranas e o jivatma abandonam juntos o corpo grosseiro.
”Esta reabsorção, ou este abandono da forma grosseira, é ademais comum ao ignorante e ao sábio, até ao começo das suas vias respectivas” (B.S., IV-II-7). É somente no momento preciso da morte que se diferenciam dois destinos distintos. A este propósito, impõe-se a explicação dos termos “ignorante” e “sábio”. O ignorante aqui não é totalmente um profano, mas um iniciado que empreendeu a via. Deve-se interpretar o termo “ignorante” num sentido técnico, isto é, opondo-o ao “sábio”. O ignorante é aquele que não conhece ainda. Trata-se, contudo, de um yogin, como o atesta a passagem seguinte: “Ora, ó melhor dos Bharatas, dir-te-ei quando os yogins mortos voltam, e quando não voltam mais” (Bh.G., VIII-23). É mister, ademais, realizar outra precisão; o "sábio" de que se trata não é o Sábio perfeito, visto que este último já não tem via alguma a empreender em vista da realização, que já consumou; estes diferentes níveis de sabedoria serão esclarecidos na sequência.
Mas voltemos ao estado de contração da individualidade integral no coração. “O ápice do coração brilha. Por este ápice o Si (jivatma) sai, ou pelo olho, ou pela coroa da cabeça, ou por qualquer parte do corpo. Quando sai, o prana segue-o; quando o prana sai, todos os indriyas seguem-no. Então o Si tem uma consciência particular e vai à envoltura que tem uma relação com esta consciência. É seguido pelo conhecimento, o karma e a experiência passada.” (Br.A.Up., IV-IV-2). No seu comentário, Sankara ensina-nos que o ápice do coração corresponde à sua abertura no alto, a qual comunica com as artérias sutis. Este ápice brilha porque os indriyas, que são ígneos, estão reabsorvidos no jivatma, que é a luz do Atma. Segundo o conhecimento, o karma e a experiência passada do indivíduo morto, ele retira-se pelo olho, pela coroa da cabeça, etc. Aqui se dividem as vias do sábio e do ignorante.
”Quando abandona o corpo, por estas artérias (nadis) sobe ao alto: ... e como o pensamento, rapidamente chega ao céu (do Sol) porque lá se encontra a porta do mundo; ela abre-se para o sábio, e fecha-se para o ignorante. Com efeito, a Sruti diz: Há cento e uma nadis (que saem) do coração; uma só sobe para a cabeça; aquele que sobe por esta nadi torna-se imortal; pelas outras sai-se em todas as direções, sai-se em todas as direções.” (Ch.Up., VIII-VI-5/6). Estas duas vias chamam-se pitryana ou via dos ancestrais, e devayana ou via dos deuses, pois a primeira conduz ao céu da lua que representa o fantasma da terra, o ancestral morto que mantém a memória do cosmos (o tempo passado); neste reservatório, toda a forma está em sofrimento antes da sua descida sobre a terra. A outra refere-se aos mundos informes, onde residem os deuses.
”Ouvi: há duas vias para os mortais, uma conduz aos deuses, a outra aos ancestrais.” (Br.A.Up., VI-II-2)