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id da página: 9765 Leo Schaya – A Criação em Deus - materialismo

Schaya Materialismo


SCHAYA, Léo. La Création en Dieu: à la lumière du judaïsme, du christianisme et de l’islam. Paris: Dervy, 1983

Em oposição ao materialismo, cuja doutrina fundamental reduz toda realidade à matéria, — de tal modo que os fenômenos exteriores e interiores, incluindo o que se chama alma ou espírito, representam efeitos ou simplesmente aspectos de uma autocomplexificação material, — a religião ensina que a matéria, como tudo o que existe no plano cósmico, tem uma causa que a ultrapassa. É uma causa de ordem espiritual, uma causa inteligente e inteligível que, em si, é a realidade absoluta, se bastando a si mesma e repousando em si mesma. Entretanto, em sua natureza causal, ela produz, domina e salva toda realidade relativa: ela é a origem eterna, a razão de ser e a última finalidade de todas as coisas. Neste caso, o superior, o espiritual, não resulta do inferior, do material; e a causa transcendente ou, em linguagem religiosa, o Criador, não é o simples produto de uma construção mental do homem, mas, ao contrário, este é produzido por aquela, e a noção mesma de um Criador ou Deus lhe é inspirada por Deus.

No lugar ou além do materialismo, — apoiado por um racionalismo autocrático e recusando toda crença religiosa, — poderíamos tomar como ponto de partida antitético de nossas reflexões liminares, outras pseudofilosofias ateias ou agnósticas; mas não se trata de nos estender nesta introdução sobre a multidão das falsas concepções da Toda-Realidade. Se nos detemos, no entanto, em uma sorte de neo-idealismo em relação precisamente com o materialismo, — sem tratar de todas as variantes de um ou de outro destes dois pontos de vista aparentemente opostos, — é que este idealismo começa a ter um certo papel em conexão mesmo com sua aparente antítese. Mas é antes de tudo o materialismo enquanto tal que continua ainda a representar, na prática, o fator principal da existência profana, até mesmo antirreligiosa, que caracteriza eminentemente o Ocidente moderno. A ciência de nossos dias é um dos suportes mais poderosos, — mesmo se tal ou qual cientista é ou se diz crente: na medida em que esta ciência aborda do exterior os fenômenos da natureza, sem os associar espiritualmente, nem a uma causa transcendente, nem a uma finalidade coincidindo com esta última, ela se inscreve de fato no quadro do materialismo fundamentalmente ateu. E isto continua verdadeiro — sem entrar aqui também nas diversas ramificações da ciência — ali, por exemplo, onde na física atual a noção corrente da matéria se esvaiu e onde se pôs em seu lugar um tecido de relações energéticas. Nem a origem primeira, nem a finalidade deste tecido energético ou campo dinâmico são explicadas, nem a significação das formas relativamente estáveis que se encontra nele. Não é o aspecto qualitativo e simbólico destas formas, aprofundado pela ciência sagrada, que é objeto das pesquisas modernas — de ordem puramente quantitativa —, mas o campo de aparição das formas. Certos cientistas tendem a reduzir as formas, incluindo seu campo, ao nosso pensamento apenas, de tal modo que a realidade objetiva que o cerca não existe mais como tal; é a aparente transformação do materialismo em uma sorte de idealismo, que se distingue do primeiro sobretudo pelo fato de confundir a matéria e o mundo inteiro com as ideias ou representações que nós temos.

Do ponto de vista onde nos colocamos aqui e que é o da religião ou do realismo tradicional, ao qual se opõem e o materialismo e este idealismo, nosso mundo material, como a criação inteira, possui uma realidade objetiva. Mesmo se a religião considera esta como uma realidade relativa, uma existência efêmera, uma «vaidade» (Eclesiastes, I, 2) ou ilusão, ela não a toma por nada puro e simples. A miragem existe; ela possui uma realidade objetiva, por mais relativa que seja: objetos afastados de sua manifestação aparecem nela como que por milagre, — como refletidos numa lâmina d’água, o que simboliza, nós o veremos em seguida, um aspecto fundamental do mistério da criação. Se sabe que este fenômeno de ótica se deve ao reaquecimento ou à densidade desigual das camadas do ar e em seguida à reflexão total dos raios luminosos; ora, estes últimos simbolizam em particular os raios criadores do Espírito divino dando formas e corpos à matéria que, em si, é pura potência, passividade, receptividade. Ela não é então, nem no estado não-manifestado, nem no estado de atualização cósmica, nada puro e simples; se pode dizer dela, como o faz santo Agostinho (Conf. XII, 6), que ela é prope nihil, «quase nada», mas ela não é nada e não se reduz, como o querem os neo-idealistas em questão, aos únicos pensamentos ou representações que nós temos dela. Sendo destinada a ser espiritualizada, a matéria, segundo a religião, não será nunca tampouco o Espírito divino como tal que, Ele, é puro ato; ela será o que ela é em si: pura receptividade e, enquanto tal, receptividade espiritual, a receptividade própria do Espírito, mas não sua essência luminosa e ativa. E da mesma forma que a religião distingue entre a matéria — ou o mundo material — e o Espírito puro, ela discerne este último de seus reflexos mentais, os pensamentos do homem. O Espírito puro é imaterial, supraformal e incriado; ele é sobre-humano, universal e divino. Assim, sendo imanente ao mental humano, enquanto sua essência espiritual, ele o ultrapassa e o transcende infinitamente, enquanto que o idealismo absoluto confunde, ainda que implicitamente, o Espírito divino e criador com nosso pensamento que, nós acabamos de dizer, é apenas um reflexo formal de ordem sutil e imperceptível, supraespacial e «instantâneo». Todavia, refletindo em uma certa medida o Espírito puro, o pensamento domina a matéria terrestre, mas não a cria para tanto. Como esta matéria e o mundo recoberto por ela, nosso mental é criado por Deus; e o homem que confunde o Espírito do Criador com seu próprio pensamento tomando como princípio que é ele que cria — e cria apenas nele — seus objetos desprovidos de realidade própria, se fecha em um subjetivismo total, um solipsismo puro e simples.

Enfim, certos cientistas incluem expressamente a ideia de Deus em sua concepção do mundo; mas um bom número deles chega, ou a um vago deísmo, ou a um panteísmo imanentista que confunde Deus com o mundo, a matéria e o homem. Outros ainda pendem para um modo de idealismo que se refere às antigas sabedorias asiáticas, em confundindo certos aspectos da ciência moderna com verdades reveladas que eles interpretam à sua maneira. Eles arrancam do pássaro tradicional tal ou qual pena suscetível de justificar suas teses passando em silêncio todo o resto da tradição. Para não mencionar senão um dentre os múltiplos exemplos que nós poderíamos citar a este respeito, estes pseudo-tradicionalistas, centrados de fato no dado material puramente quantitativo e não nas Qualidades divinas que se refletem nele, não se referem evidentemente mais a uma doutrina cosmológica de ordem qualitativa e simbolista que o Ocidente tradicional partilhou com o Oriente e que é a dos cinco elementos, ou a dos quatro tendo uma quinta essência comum, ou seja o éter totalmente indiferenciado. Sem entrar aqui nas variantes que as diversas tradições apresentam, se trata, no que concerne à doutrina ocidental, da terra, da água, do ar e do fogo, simbolizando qualidades, impressas pelo Espírito criador na matéria, qualidades que refletem e manifestam aspectos ou arquétipos divinos através de todos os graus cósmicos e em tudo o que estes contêm, incluindo o homem por definição.

Ora, é entre outras por este simbolismo de fenômenos naturais e materiais, tais que eles se apresentam imediatamente à percepção sensorial do homem, que as tradições entendem associar espiritualmente este último à sua Causa primeira e qualitativa, que é a de todas as coisas; e é em lhe revelando que há uma quinta essência imperceptível e em si indiferenciada da matéria, que elas lhe indicam simbolicamente o que pode ser sua Essência pura, suprema e absoluta, a Essência não-manifestada, não causal, e por sua vez indiferenciada, de tudo o que existe. Nós dizemos «simbolicamente», porque esta quinta essência, ao mesmo tempo em que reflete à sua maneira a Essência pura, não se basta a si mesma e não repousa tampouco em si mesma sem se manifestar: ela é em si a receptividade pura e passiva da Causa primeira, da qual ela materializa o influxo espiritual. Esta quinta essentia da matéria é então em si mesma — não em suas manifestações materiais, ainda que a mais pura e direta, — o que certas tradições consideram como a materia prima imaterial, como o verdadeiro substrato de toda matéria criada, seja sutil, celeste ou psíquica, seja sólida, terrestre ou corporal: um substrato insuscetível de ser apreendido do exterior, já que ele é eternamente não-manifestado como tal, mas do qual a ciência atual parece no entanto buscar se apossar pela simples redução máxima, ao mesmo tempo teórica e prática, do que nós chamamos sempre, por nossa parte, a matéria terrestre.

Esta vã tentativa implica além do mais a confusão entre esta matéria e a energia que ela veicula e que, segundo as tradições, é em verdade de natureza espiritual: é uma potência da divina Toda-Potência, o que não poderia ser infirmado pelos abusos que o homem comete dela por conta do livre-arbítrio de que o Criador o dotou; não abusa ele desde sempre das forças espirituais que Deus lhe empresta a fim de que ele leve uma existência deiforme em vista de sua finalidade divina? Embora estas forças usurpadas se voltem contra ele, ele continua a se apossar delas no não respeito das leis divinas que elas manifestam; e nós não temos necessidade de lembrar as consequências nefastas que este não respeito implica em germe pela ciência moderna, profana e quantitativa, centrada exclusivamente sobre nosso mundo que o homem, em sua sede de potência, arrasta para o abismo. Todos os progressos materiais dos quais ele pode se vangloriar se revelam de antemão como engolidos por esta progressão global para o precipício: em cortando a terra de sua Causa primeira para instaurar ali um paraíso sem Deus, ele a vota, como uma planta cortada de sua raiz, a uma morte certa. Se a ciência tradicional, de ordem qualitativa e simbolista, é por sua vez centrada sobre este mundo, é unicamente para o associar à sua raiz, não apenas em vista da instauração do Reino de Deus aqui embaixo, mas também e sobretudo da realização espiritual integral do homem, destinada a o conduzir para lá mesmo do paraíso terrestre, para sua união à Essência transcendente. O geocentrismo ou o antropocentrismo da ciência tradicional é então, a bem da verdade, um teocentrismo, pelo fato mesmo que ela considera e trata o mundo e o homem como «imagens» — por mais imperfeitas que sejam — Daquele que os criou e de quem eles veiculam a Imanência, uma Imanência ou Presença real que os une à sua Transcendência.

Assim, esta ciência sagrada permite em princípio àqueles que são iniciados nela de realizar entre outros o mistério da materia prima, e isto do interior, de uma forma puramente espiritual, quer dizer, com a ajuda do Espírito criador mesmo que, apenas Ele, a conhece, já que ela é sua receptividade própria e não-manifestada. É Ele que, a partir dela, manifesta, qualifica e forma toda materia secunda ou cósmica e que reintegra também esta última nela; e é em fazendo participar os iniciados nesta reintegração que Ele lhes permite também de participar no conhecimento da materia prima nEle mesmo. Não se trata aí de uma redução da matéria ao espírito, no sentido em que o entendem os idealistas acima citados, que confundem conscientemente a substância grosseira ou terrestre e, em suma, o Espírito divino mesmo, com o pensamento humano. A tradição, nós o dissemos, não identifica mesmo a materia prima e imaterial com o Espírito de Deus em tanto que Ele é Ato e Luz; a matéria primeira, repitamos, é apenas sua receptividade que, em si, é um simples poder não atualizado; então, sendo uma propriedade do Espírito, ela não se confunde contudo, enquanto potência pura, com Ele que é puro Ato. Ele atualiza a matéria criada a partir desta potência, que reside nEle no estado passivo, incriado e «tenebroso»; e Ele o faz projetando nela os reflexos dos arquétipos eternos, reflexos escondidos indistintamente em Sua luz e que, por esta projeção, dão formas e corpos à matéria, manifestada com eles. E é em reintegrando estes reflexos em Sua própria luz e, por lá, em seu estado puramente espiritual e arquetipal, que o Espírito reabsorve e dissolve simultaneamente a matéria que os envelopa, em sua receptividade cosmológica não-manifestada, a materia prima incriada. A matéria criada não se transmuta então para tanto no Espírito enquanto tal — no puro Ato luminoso —, mas se torna novamente sua receptividade em si tenebrosa, enquanto que, redizemos, as formas ou reflexos espirituais dos arquétipos, imanentes à matéria, tal que o espírito do homem ou a essência espiritual de sua alma, se tornam novamente pura luz incriada. Se tal tradição, como nós o veremos em seguida, designa a materia prima simbolicamente como a «Mãe» divina de todas as coisas, e se ela diz que esta, em repousando no divino «Pai» enquanto sua receptividade própria, é eternamente e infinitamente coberta de sua Luz a ponto de se tornar um com Ele, esta unidade não implica de modo nenhum, segundo a mesma tradição, uma confusão entre o Ato puro que é o «Pai» e sua potência puramente receptiva que é a «Mãe». O homem, em realizando esta receptividade em si mesmo, — pois ela é imanente à sua substância psíquica e corporal, — acaba por se transmutar substancialmente na materia prima, então por retornar à sua divina «Mãe», enquanto que a essência espiritual de sua alma se absorve em seu «Pai», que é Espírito, Verdade e Vida: Ele é a Fonte de toda luz, de toda força, de toda energia espiritual e deificante, de tudo o que faz existir e que liberta das cadeias existenciais, de tudo o que liberta o homem interiormente das trevas deste mundo, do sofrimento e da morte.