VIDE: Uno
TEMA V — ARTIGO 2 — A SIMBÓLICA DA UNIDADE
Não se poderia dar qualquer conhecimento se o objeto desse conhecimento não se apresentasse distinto do resto, não se revelasse como uma unidade. Antes mesmo de haver o nosso espírito construído o esquema noético-eidético de unidade, ele estava presente não só nos fatos que surgiam, como na emergência da nossa esquemática. E neles, inseparado ainda do de pluralidade, seu oposto, porque não seria possível surgir um objeto de conhecimento que não fosse alguma coisa, formando uma, e separado do restante, dos outros. Portanto, a primeira experiência do conhecimento, inclusive do imediato, do intuitivo, já implica a presença do que será separado, posteriormente, post rem, e que se apresenta in re nas coisas, a unidade e a pluralidade.
À posição henológica, que afirma a prioridade da unidade, e às pluralistas, que afirmam a prioridade da pluralidade, poderíamos dizer que, na esfera gnoseológica, na esfera do conhecimento, estamos em face da contemporaneidade de ambas, embora na esfera ontológica, tenhamos de reconhecer que a razão cabe à primeira posição, pois o ser primeiro, em qualquer plano, deve anteceder, como unidade, à pluralidade.
Na "Ontologia", vimos por que o conceito de unidade é um conceito transcendente. Tudo que é é um, pois "toda realização do ser traz consigo unidade, e toda forma de unidade tem as suas raízes no ser."
Não há ser sem unidade, como não há unidade sem ser. E há tantas modalidades de unidade, quantas há de ser. Ser é primariamente unidade. É possível um ser que não é um? Não sendo um, o ser se esfacelaria.
E se partíssemos, como parte Etchegoyen, de que a unidade é uma pura abstração, que não se compreende na prática senão em oposição à ideia de pluralidade, e que é a ideia de pluralidade que nos levou a construir a ideia de unidade, poderíamos responder-lhe que sem a unidade não haveria possibilidade da pluralidade, porque esta é um múltiplo de uns.
Na esfera gnoseológica, o conhecimento imediato, intuitivo, implica o objeto-um do conhecimento. Se é uma totalidade de unidades que se apresenta, sem uma unidade, não se daria a suficiente positividade objetiva que permitisse o conhecimento. Quando se conhece conhece-se alguma coisa. E esse alguma coisa é uma unidade, de certa modalidade, mas unidade sempre, pois, do contrário, esfacelar-se-ia em nada.
A construção posterior dos nossos esquemas noéticos é que tem levado alguns filósofos a subordinar a ideia de unidade, na sua gênese, à de pluralidade. 1
Já o dissemos, e repetimos, que, gnoseologicamente, a unidade se dá ao lado da pluralidade, mas ontologicamente somos obrigados a aceitar a sua prioridade, que não tem nada de cronológica, porque onde há e se dá o tempo, a unidade não antecede à pluralidade, porque há contemporaneidade entre ambas.
Não se deve confundir a unidade transcendental com a unidade quantitativa, pois a primeira é de natureza metafísica, enquanto a segunda é de natureza corpórea.
Na linguagem pitagórica, a estrutura geométrica de um ente, considerado onticamente, revela uma unidade quantitativa, enquanto a estrutura ontológica, que é a da forma, é uma unidade transcendental.
A unidade quantitativa não pode ser predicável a seres não corpóreos. O ser, enquanto tal, o Ser supremo, não é uma unidade quantitativa, mas uma unidade transcendental. Sua estrutura não é geométrica.
Na posição henológica, a sequência dos raciocínios seria a seguinte : não há pluralidade que na sua base não se funde na unidade, pois se a negássemos totalmente cairíamos no nada. Portanto a pluralidade exige a prioridade da unidade, do qual na esfera ontológica não pode caber a menor dúvida.
Na "Ontologia" examinamos as várias unidades, segundo as modalidades de ser, pois, tudo quanto é, é uma unidade, como tudo, que tem uma unidade, é. A unidade em si não tem uma definição essencial como não a tem o Ser, enquanto ser, mas apenas nominal. Não pertence ela a um gênero, nem podemos predicar-lhe uma diferença específica. E o que é perfeito em si mesmo não é definível, porque não tem finitude.
NOTAS: