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id da página: 3639 Samuel da Silva

Samuel da Silva

Filosofar em português — Samuel da Silva (1571-1631)

Apresentação de Pinharanda Gomes, em Tratado da Imortalidade da Alma (Imprensa Nacional, 1982)

«Bom hebraísta e bom escritor vernáculo, tanto português, como castelhano», quem era, de facto, Samuel da Silva?

A sua parca biografia consta de vários dicionaristas, que trasladam as notícias disponíveis de uns para outros, sem que obtenhamos a imagem histórica, desde o nascimento (1571) até à morte (1631).

Chamou-se e assinou Samuel da Silva, em Amesterdão e em Hamburgo, mas que nome era o seu, antes de se homiziar? Chamar-se-ia Samuel? Ao abandonarem o Sefarade, os judeus trocavam de nome próprio : se o nome primeiro era francamente não hebraico, o judeu escolhia um nome inequivocamente judeu, por ex., Fernando (Isaac Cardoso); se o nome era já hebraico, mas apresentava comum uso na onomástica cristã, o judeu procedia a uma leve alteração, por ex., Gabriel (Uriel) da Costa, ou Miguel (Daniel) Levi de Barros. A mudança de nome próprio, com respeito pelo sobrenome, era significativa e utilitária. Significativa, por corresponder a um novo baptismo, a uma re-profissão vital de judaísmo como pública inserção na comunidade santa israelita; utilitária, por servir de bilhete de identidade na terra do exílio, permitindo que as autoridades dos países abandonados não mais soubessem — ou dificilmente soubessem — do paradeiro dos judeus que saíam das suas fronteiras.

Este costume legal, tão frequente nos séculos XVI e XVII, leva-nos a interrogar se a inicial identidade de Samuel da Silva seria esta, ou se seria outra; e, caso fosse outra, tendo havido troca de nome, qual seria ela. O problema, ainda que não seja crucial, é por agora insolúvel, já que nos falece o documento por onde nos fosse propício o acesso à claridade onomástica.

Médico de profissão, as notícias sobre a sua vida e morte escasseiam, mas há unanimidade quanto à sua naturalidade, uma vez que teria nascido na cidade do Porto, adonde, por ser sequaz dos delírios do Talmude, emigrou para Amesterdão, onde exerceu o múnus clínico, participou da vida sinagogal, e se afirmou como hebraísta, sábio da Sagrada Escritura e da História Eclesiástica e Secular. Também se ignora se era médico por Coimbra — certamente era — e se o judaísmo que testemunhou é anterior ao exílio, ou se apenas na Holanda aderiu à Lei Velha, já que, nalgumas biografias, se informa que, tendo-se fixado em Hamburgo, aí se converteu ao judaísmo. Neste caso, volta a tomar vulto a dúvida inicial relativa ao nome próprio antes de converso, em cuja qualidade, «portugais, médecin à Amsterdam», se afirmou como ahum dos judeos mais sábios do seu tempo». Líquido, para além da sua obra de tradutor e de escritor temos, em síntese, que Samuel da Silva, natural do Porto, foi médico de profissão e judeu converso e professo, tendo vivido e trabalhado em Amesterdão. Esteve algum tempo refugiado em Hamburgo, cidade onde viviam negociantes judeo-pórtuenses, entre eles o milionário Pecharía Cohen. A Sinagoga Beth Israel (Casa de Israel) hamburguesa ganhou certa projecção cultural e social, mormente por causa do poderio económico dos judeus idos de Portugal, e ainda pela influência que exerceu na aliança conjuntural das tradições doutrinais nórdica (asquenazíe) e mediterrânica (sefardíe), as quais sempre se consideraram diferentes, mas que, a partir do século XVII, contraem enlace mútuo nas esferas da exegese bíblica, da interpretação midráshica e talmúdica, da vida de piedade e ãa prospectiva messiânica — mais imanentista e mais imediatista e pragmática no judaísmo nórdico, mais transcendentalista e mais escatológica no judaísmo mediterrânico. Sabemos hoje que Samuel da Silva teve uma filha, que veio a casar com o médico hamburgués, e rabino da Beth Ysrael, Benjamin Dionys Massaphia, ou Mussaphia — ramo familiar também presente em Amesterdão. Benjamim salientou-se como controversista, tendo escrito um livro contra a Religião Cristã cujos termos caíram deveras mal na sociedade hamburguesa. Por isso, o Senado da cidade, resolveu expulsá-lo em 1640, o que o levou a Amesterdão, onde viria a falecer em 1650. Os seus descendentes obtiveram um monopólio de cunhagem de moeda, tornando-se agentes financeiros dos Duques de Gottorp da Schleswig-Holstein, e dos Reis da Dinamarca.

O TRATADO DA IMORTALIDADE DA ALMA

Samuel da Silva foi personagem central na tragédia de Uriel da Costa. Portuense como ele, ao que parece amigo dele, na medida em que se dispôs a ensinar-lhe hebraico, à sua pena se poderia dever o relato intitulado Propostas contra a Tradição, aviso à Sinagoga para tomar conhecimento legal das heresias, e à sua intervenção se deve o melhor momento da polêmica : o Tratado da Imortalidade da Alma, que reflete o universo planetário de toda a concepção filosófica e teológica greco-hebraica, e toda a arquitetura do saber bíblico, talmúdico e cabalístico, tudo destinado a demonstrar, contra Uriel, o que, anos muitos depois, o admirável poeta João de Deus poria nesta quadra: «A pó não se reduz/ A luz, a alma do homem/ Nem os vermes a consomem,/ Os vermes não comem luz». Com efeito, nesta quadra, João de Deus sintetiza a conclusão do tratado de Samuel da Silva.

O livro saiu com a seguinte apresentação: TRATADO DA IMMORTALIDADE: Da alma. Composto pelo Doutor Semuel da Silva, em que também se mostra a ignorância de certo contrariador de nosso tempo que entre outros muitos erros deu neste delírio de ter para si e publicar que a alma de homem acaba juntamente com o corpo. A Amesterdam. Impreso em casa de Paulo Ravesteyn. Anno da criação do mundo 5383.


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