VIDE: Lugar
Filosofia
Marcia Sá Cavalcante Schuback
Excertos de "Para Ler os Medievais"
Depois de percorrer esses vários níveis da essência do lugar, Mestre Eckhart descreve esse quase-lugar que a alma humana e as coisas ocupam dentro do lugar de deus (SERMÃO IX). Dentro do lugar de deus, tudo o que é ocupa um quase-lugar, um lugar sem modo rígido, uma circunstância. Ele retorna à passagem do Eclesiástico que motiva todo o sermão e na qual se descreve como é que se percorre o lugar de deus, como se faz "a volta do santuário". A passagem diz assim:
Era assim como a estrela da manhã no meio da nuvem,
assim como a lua cheia nos dias de festa;
assim como o sol resplandecendo sobre o santuário do Altíssimo,
assim como o arco-íris brilhando entre nuvens de glória,
assim como a flor das roseiras em dias de primavera,
assim como o lírio junto às fontes das águas,
assim como a vegetação do Líbano em dias de verão (...) (Eclo 50, 6-9)
Mestre Eckhart não chega a citar toda essa passagem. A sua atenção recai, imediatamente, sobre a palavra "quasi" da tradução latina, sobre o "assim como", sobre o advérbio. Mestre Eckhart diz, inclusive, que todos os seus sermões se escrevem na atenção a esse advérbio.
O quase-lugar, caracterizado como um advérbio, define-se, formalmente, como um lugar junto a, um lugar perto de. Junto ou perto não é, contudo, uma posição espacial, como já dissemos, mas um modo. O quase-lugar, que é junto e perto de deus, define-se como o modo ou circunstância em que se é. Não é tampouco qualquer modo, e sim o modo mais pleno possível, o modo mais integral possível. Não é qualquer circunstância possível, mas aquela em que a alma realiza-se o mais inteiramente possível. Quando se diz "o mais possível" não se diz a plenitude, pois para o medieval essa só deus possui. Diz-se o máximo dentro do próprio limite. E uma quase plenitude, uma quase inteireza porque é o tanto de plenitude que, em seu limite, a alma pode alcançar. Por isso é também "assim como" a plenitude divina. O que Mestre Eckhart quer mostrar é que esse "como" não é uma comparação entre deus e alma humana. O como é aqui o modo em que a alma consegue ficar junto e perto de deus. Não para ser "igual" a deus, mas para simplesmente estar em sua proximidade. O modo é o de uma realização plena dentro do próprio limite. As imagens dessa inteireza do limite são "a estrela da manhã no meio da nuvem", "a lua cheia nos dias de festa", o "sol resplandecendo sobre o santuário", o "arco-íris em dias de glória", a "flor das roseiras em dias de primavera", o "lírio junto às fontes das águas", a "vegetação do Líbano em dias de verão". A estrela da manhã tem vários nomes, pode ser tanto a estrela da manhã ou a estrela vespertina, mas é a mais brilhante das estrelas, aquela que mais plenamente se mostra como estrela e isso "no meio da nuvem", ou seja, no seu elemento, que é sempre uma sombra. Em cada uma das imagens do Eclesiástico mostra-se que "cada" coisa é a sua circunstância, pois a rosa é rosa na primavera, o lírio é lírio junto à fonte d'água. Não é a estrela em si, a rosa em si, o lírio em si, como diríamos hoje. É cada coisa no modo em que mais pode transparecer o seu limite, o que faz dessa coisa essa coisa única. Se determinarmos esse caráter adverbial do ser das coisas como "ser o mais possível o que se é", não podemos esquecer que se trata de ser o mais possível o próprio limite. O limite é, contudo, limite dentro de um mesmo elemento, dentro da divindade de deus. Ser o próprio limite não se deixa, pois, confundir, com ser numa autonomia ou independência. Para o medieval, a noção de indivíduo é inteiramente estranha, sendo fundamental a noção de singularidade limitada. Ser o próprio limite é ser adverbialmente junto a deus. É guardar-se no elemento divino. Mas como guardar-se no elemento divino? Nas palavras de Mestre Eckhart, o que se pode dizer de mais próprio sobre deus é "verbo" e "verdade". E a palavra do Prólogo do Evangelho de São João, "No princípio era o Verbo". Assim, guardar-se no elemento divino é permanecer junto ao verbo. O elemento gramatical que permanece junto ao verbo é o advérbio, a circunstância da significação verbal. Por isso, diz Mestre Eckhart, o lugar da alma, esse quase-lugar, "aí a alma deve ser um advérbio e juntamente com deus realizar uma única obra..."