Skip to main content
id da página: 8318 Qashani – Respostas Metafísicas Jean Hani

Qashani Respostas Metafisicas 1

Ibn Arabi – Abd ar-Razzaq al-Qashani – Respostas Metafísicas (1)

LORY, Pierre. Les commentaires ésotériques du Coran: d’après ’Abd al-Razzâq al-Qâshânî. Paris: Deux Océans, 1980

RESPOSTAS METAFÍSICAS

Os Comentários Esotéricos de Qashani se situam no quadro da doutrina da Unicidade da Existência, tal como formulada por Ibn Arabi. Com algumas poucas diferenças de léxico, reproduzem, portanto, os principais temas desta doutrina, seguindo o esquema akbariano. Contudo, Qashani jamais se estende longamente sobre considerações puramente teóricas, domínio em que a fecundidade de Ibn Arabi parecia inesgotável. A menção dos pontos doutrinais permanece, na maioria das vezes, breve e alusiva, embora haja alguns desenvolvimentos importantes a assinalar.

1 A Unicidade da Existência

A doutrina da Unicidade da Existência é afirmada logo no início da obra, sem a menor ambiguidade. O versículo II, 163, por exemplo. O vosso deus (ilah) é um deus único, é assim comentado: "O deus (mabud) em cuja adoração exclusiva vós vos consagrastes, ó Unitários (muwahhidun), enquanto deus único (wahid) em Sua Essência, é único de forma absoluta; não há nada que exista fora d’Ele, nem nenhuma existência fora d’Ele que possa ser objeto de adoração. Como podeis associar-Lhe o que quer que seja, se não há fora d’Ele senão pura não-existência (al-adam al-baht)?" (1/103).

Podem-se colher comentários análogos em grande número nas Tawilat. Assim, a respeito do versículo II, 255: "Deus, não há deus senão Ele no que existe. Em tudo o que é adorado fora d’Ele, é a Ele só que a adoração retorna, quer se saiba conscientemente ou não, visto que não há deus nem existente exceto Ele (...) A manutenção deles na existência não Lhe é um encargo, pois (o Céu e a Terra) não existem fora d’Ele, de tal modo que os carregar Lhe pesaria. Ao contrário, o mundo arquetípico (correspondente ao Céu) é inteiramente o Seu aspecto interior e o mundo manifestado (correspondente à Terra) é inteiramente o Seu aspecto exterior. Eles não têm existência senão por Ele, não são outra coisa senão Ele" (1/142). Ou ainda, a propósito do versículo III, 191: "Glória a Ti / Negamos que exista o que não és Tu, ou seja, que algo seja associado à Tua Singularidade (fardaniyya), ou possa duplicar a Tua Unicidade (wahdamiyya)" (1/242).

Menciona-se, por vezes, brevemente, a explicação filosófica desta posição. Assim, para o versículo LVIII, 7: "Não há conversa a três em que Ele (Deus) não seja o quarto. Não pelo número ou pela analogia, mas pelo fato de que eles se distinguem d’Ele por suas determinações particulares, que eles estão velados em relação a Ele por suas quididades e suas hecceidades, que eles estão separados d’Ele pela possibilidade ligada necessariamente às suas quididades e às suas ipseidades, que eles se realizam seguindo a necessidade inerente à Sua Essência, que Ele se une a eles por Sua Ipseidade descendo gradualmente nas suas ipseidades, pela Sua aparição nas suas formas epifânicas, que Ele se esconde nas suas quididades e nas suas existências individuais, que Ele fundamenta (estas existências) na Sua própria Existência, e que Ele as determina necessariamente pela Sua necessidade. Seguindo estas considerações, Ele é o quarto com eles, e se se tivesse considerado o plano da Realidade ontológica. Ele teria sido a própria essência deles" (2/612).

Toda a visão de mundo e a doutrina akbarianas são resumidas por Qashani num único verso de grande densidade (1/723):

Eu vi meu Senhor com o olho de meu Senhor;
Ele me disse: Quem és tu? Eu lhe disse: Tu mesmo.

Este verso é citado por Massignon que nele vê uma réplica aos versos célebres em que Hallaj descreve sua experiência unitiva I. 2:

Eu vi meu Senhor com o olho de meu coração e Lhe disse: Quem és Tu? Ele me disse: Tu mesmo.



2 Unidade e multiplicidade

A simultaneidade em Deus da Unidade perfeita e da multiplicidade indefinida é notada por Qashani em várias ocasiões. A passagem mais importante a este respeito é sem dúvida o seu comentário do primeiro versículo da surata CXII: Dize: Ele, Deus, é Um. " 'Dize' (que) é uma ordem vinda da Unidade essencial, aparecendo no plano epifânico da multiplicidade. 'Ele' (huwa) exprime a Realidade-Una pura, ou seja, a Essência sem relação de Atributo, tal como só Ele a conhece. Allah está em aposição a huwa e designa a Essência com todos os Atributos. Por esta aposição, mostra-se que Seus Atributos não se sobrepõem em nada à Sua Essência; ao contrário, são a própria Essência, não há distinção senão no nível puramente lógico. É por isso que esta surata é dita 'da fé pura' (ikhlas), porque a fé pura é a purificação da Realidade-Una das imperfeições da multiplicidade. Como disse o Comandante dos crentes (Ali) — sobre ele a Paz —: 'A perfeição da fé pura n’Ele é a negação dos Atributos em relação a Ele. Pois todo atributo atesta por si mesmo que é outro que o qualificado por este atributo, e reciprocamente, todo qualificado atesta que é outro que o atributo que o qualifica.' É bem isto que querem dizer aqueles que professam que 'Seus Atributos não são nem Ele nem outro que Ele', ou seja: não são Ele no nível da consideração racional e não são diferentes d’Ele segundo a realidade.

"Aqui, 'Um' (ahad) é o predicado do sujeito huwa. A diferença entre Um (ahad) e Único (wahid) é que o Um é a Essência sozinha sem relação de multiplicidade, ou seja, a Realidade Pura de onde jorra a Fonte de Cânfora, ou melhor, a própria Fonte de Cânfora, que é a Existência enquanto Existência, sem determinação geral ou particular, não condicionada pelas contingências, nem localizada. O Único (wahid) é a Essência considerada sob a relação da multiplicidade dos Atributos; é a Presença dos Nomes, pelo fato de que o Nome é a Essência com o Atributo. A Realidade Pura, conhecida só por Ele, foi expressa pela palavra Huwa (Ele); colocou-se-Lhe em aposição a Essência com todos os Atributos para indicar que estes são na realidade a própria Essência, unicamente. A Unidade (ahadiyya) está em predicado para indicar que a multiplicidade percebida subjetivamente não é nada na realidade e não anula em nada a Sua Unidade nem influencia a Sua Unicidade. A Presença da Unicidade (wahidiyya) é ela mesma a Presença da Unidade na realidade; e pode-se comparar aqui, por exemplo, a ilusão (de considerar separadamente) as gotas de água no mar" (2/869-870).

Não se poderia ser mais explícito. Baseando-se numa teologia dos Atributos divinos idêntica à dos Asharitas, o teósofo sufi alcança assim a sua visão unitária do universo, aquela que subjaz a todo o resto do seu comentário.



3 Cosmogonia

Importa, antes de começar a descrição da cosmogonia sufi, relembrar a distinção essencial a observar entre a concepção akbariana das "emanações" — das irradiações ou epifanias (tajalliyat) mais exatamente — e a cosmogonia neoplatônica clássica. Ibn Arabi ele mesmo chama a atenção para este ponto numa célebre passagem das Futuhat al-makkiyya onde compara a relação das coisas existenciadas com a Essência divina aos pontos da circunferência de um círculo em relação ao seu centro. Trata-se para cada ponto de uma distância semelhante, pois a relação é idêntica em cada caso. As Ideias Universais não são, de fato, intermediárias entre a Essência divina e os seres manifestados senão porque constituem as possibilidades principiais destes últimos. Assim como se relembra noutro lugar, nos Fusus al-hikam, são puros inteligíveis cuja existência é estritamente relacional. É por isso que esta concepção se afasta de forma decisiva daquela de Plotino para quem as emanações constituem entidades distintas, procedendo não da Essência propriamente dita, mas da primeira delas, o Nous.

Qashani relembra este ponto da cosmogonia akbariana no comentário do versículo II, 116: Eles dizem: Deus tomou um filho "...nada existe fora d’Ele; os seres existenciados determinados são Seus Atributos e Seus Nomes, devido à sua distinção por suas determinações que lhes são específicas, que são puros possíveis não-existentes (umur imkaniyya adamiyya); não são Ele mesmo no nível da consideração intelectual que os divide em 'existência' (wujud) e 'quididade' (mahiyya). Esta última, sem a existência, não é nada exteriormente, mas só existe interiormente, no intelecto (aql) e nos inteligíveis (aqliyyat)" (1/81).



4 O triplo nível do ser

Assim como se verá no decorrer do resumo dos principais temas dos Comentários Esotéricos, Qashani mantém uma abordagem intelectual rigorosamente ternária, refletindo, para cada tema estudado, o triplo nível possível: particular, universal e absoluto não condicionado. Esta abordagem é em grande medida inspirada pela visão que Qashani tinha da cosmogonia sufi. Brevemente, pode-se resumir o processo de existenciacao em três graus cuja menção retorna constantemente na escrita de Qashani:

— A Presença da Essência, onde todas as coisas estão contidas em Deus, fora de toda forma e de toda determinação geral e particular. É o mundo do Mistério dos mistérios, que ninguém conhece senão Ele.

— A Presença dos Atributos e dos Nomes, onde Deus manifesta a Si mesmo os diversos aspectos das possibilidades indefinidas sob a "forma" dos Universais ou "essências imutáveis" (al-ayan ath-thabita).

— A Presença dos Atos, onde a Essência divina manifesta as possibilidades principiais contidas nas essências, projetando-as, em modo sucessivo, no mundo formal.

Os três aspectos da Existência divina são relacionados simbolicamente à grafia do versículo liminar das suratas do Alcorão: Em Nome de Deus, o Todo-Misericordioso, o Misericordiosíssimo, em árabe: Bismillah ar-Rahman ar-Rahim. Na grafia usual, com efeito, três alif não são escritos: a inicial de ism, a mediana de Allah e de Rahman. "Os três alif ocultados (...) designam o Mundo divino verdadeiro, considerando a Essência, os Atributos e os Atos. Pois há três mundos no nível da particularização, mas um só no nível da Realidade ontológica. Os três alif escritos (ou seja: as iniciais de Allah, de ar-Rahman e de ar-Rahim) designam a aparição destes mundos sobre o supremo suporte teofânico que constitui o ser humano. É a propósito da ocultação do Mundo divino que o Profeta, quando lhe perguntaram o que havia acontecido com o alif seguinte à letra ba (em bismillah), disse: 'O diabo o roubou.' E ordenou prolongar graficamente o ba de bismillah para compensar a perda do seu alif. Isto é uma indicação de que há ocultação da Ipseidade divina na forma da Misericórdia universalmente propagada, e que ela aparece na forma humana, mas de tal modo que ninguém a conhece, senão os eleitos" (1/8).

Toda a abordagem espiritual do Sufi consistirá, a partir de então, em alcançar, por desvelamentos sucessivos, o nível universal, a fim de descobrir primeiro a sua própria verdade, depois a Verdade única de toda coisa.



5 A cosmologia espiritual

No nível da cosmologia espiritual, Qashani detalha a "descida" das determinações que exprimem os Atributos divinos em cinco "mundos":

— o mundo da Essência;

— o mundo da Coerção ou da Onipotência (Jabarut), que é o primeiro nível das determinações, o das Ideias Universais;

— o mundo da Dominação ou da Realeza (Malakut), que é o da Alma Universal;

— o Céu mais próximo (as-sama ad-dunya), que corresponde ao mundo da imaginação (alam al-khayal) em Ibn Arabi;

— o mundo do Reino (Mulk), que é o mundo sensível também nomeado, conforme a expressão corânica, mundo do Testemunho (alam ash-shahada).

Deve-se notar, aliás, que esta classificação das cinco Presenças diverge de um autor para outro. De fato, poder-se-ia considerar um número indefinido de níveis destas "descidas" entre, por um lado, a Essência divina e, por outro, o mundo sensível. Qashani ele mesmo simplifica ou desenvolve por vezes este escalonamento assimilando assim, em alguns lugares, o "Céu mais próximo" ao mundo da Alma Universal.

O primeiro nível, o da Essência, será frequentemente mencionado por Qashani, pois corresponde ao grau supremo de realização dos "Unitários" (muwahhidun). Contudo estas menções serão puramente alusivas, como maneira de "limite" (hadd, segundo o hadith citado no primeiro capítulo) visto que a realidade considerada se situa além de toda linguagem conceitual ou simbólica.