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id da página: 13857 Pétrement – Surgimento do Demiurgo Simone Pétrement

Petrement Surgimento Demiurgo

Simone Pétrement – A Separate God – Surgimento do Demiurgo

PÉTREMENT, Simone. A Separate God: The Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984.

Ligação entre a tensão judeus-cristãos no século I e o surgimento do Demiurgo

Sem dúvida, recua-se perante a ideia de que a oposição ao Antigo Testamento possa ter-se formado dentro do cristianismo. Atualmente, os teólogos cristãos cessaram, ou quase cessaram, de opor o cristianismo e o judaísmo. Eles os consideram tão intimamente ligados que, na França, pelo menos, quase nunca se fala do cristianismo sem o denominar judeocristianismo.

Certamente, há motivos para destacar tudo no Antigo Testamento que já anunciava o Novo. Há motivos para apreciar seus textos muito belos, que abundam. Há também motivos no fato de que Jesus, Paulo, João e todo o Novo Testamento reivindicam o Antigo. Finalmente, tudo o que pode diminuir a intolerância religiosa absurda e cruel é precioso. Mas devem-se evitar ideias confusas que tornam a história incompreensível.

Primeiro, o nome "judeocristianismo" pode prestar-se à confusão. Pois, nos primeiros séculos da nossa era, existiu um judeocristianismo que não era o cristianismo em absoluto, mas simplesmente um ramo dele, que logo foi considerado herético. Cristãos judeus eram aqueles que desejavam manter suas observâncias judaicas (circuncisão, leis alimentares, o Sábado, etc.). Além disso, muitos deles, ainda que venerassem a Cristo, não o consideravam absolutamente divino ou consubstancialmente unido ao Deus único. Falar de judeocristianismo para designar o cristianismo em geral leva a uma situação em que já não se consegue entender o que os historiadores referem quando falam de judeocristãos.

Ademais, não se deve esquecer que existem certas diferenças entre o judaísmo e o cristianismo além daquela da divindade de Cristo. Não se podem considerar estas diferenças longamente aqui; é um assunto sobre o qual os teólogos cristãos quase não pararam de discorrer durante quase vinte séculos. Mas é bastante sabido que a teologia paulina, uma teologia da cruz, rompe com a visão de mundo do Antigo Testamento. A fé na cruz faz parecer ingênuo o otimismo que geralmente reina nos escritos do Antigo Testamento, onde, na maior parte das vezes, os bons são recompensados e os maus são punidos nesta vida; ademais, esses escritos quase não conhecem outra vida. A cruz é o sinal mais marcante de que o julgamento pelo que acontece no mundo não é o verdadeiro julgamento, que a glória e o poder não justificam, que o infortúnio não condena, que não é a história que julga. A teologia da cruz implica o "anticosmismo" que se encontra até certo ponto em Paulo e que é mais profundo do que o dos escritores apocalípticos.

Os escritores apocalípticos também criticavam o mundo. Mas o outro mundo com que sonhavam era um mundo futuro, que deveria suceder à destruição deste mundo; um mundo futuro, mas análogo a este. Para Paulo, a fé na cruz de certo modo provocava desde já o colapso do poder do mundo, na medida em que este poder atuava sobre a alma. Paulo preservou a ideia apocalíptica do fim iminente do mundo; mas ele pensava que, a partir do presente, o mundo havia perdido seu domínio sobre as almas daqueles que tinham fé na cruz. Essas pessoas já estavam como que mortas para o mundo e ressuscitadas para outra vida. Dado o fato de que esta vida coexiste com a vida presente, ela é necessariamente de outro tipo; assemelha-se menos à vida presente do que a vida futura dos escritores apocalípticos. Doravante, há algo verdadeiramente outro e mais alto que o mundo para a humanidade.

No Antigo Testamento, o mundo era de tal modo estreita e diretamente dependente de Deus que o próprio Deus (compreende-se aqui o modo como ele era representado) estava, por sua vez, quase atado e acorrentado ao mundo. E estava, com isso, também atado às almas dos seres humanos muito mais do que estaria naturalmente. Pois a tentação natural ao pensamento humano era assim reforçada, a submeter-se totalmente à força, ao fato bruto, não apenas nos juízos de fato, mas nos juízos de valor. Uma vez que os eventos do mundo eram representados como diretamente dependentes de Deus, mal se podia julgar a vontade divina exceto em relação aos eventos, em relação ao sucesso ou ao fracasso, numa palavra, em relação à força. Julgar assim a vontade divina era julgar o bem e o mal. Era, portanto, necessário submeter-se aos poderes do mundo, não apenas por necessidade, mas ainda mais por escrúpulo religioso.

É verdade que aqueles que criam na religião do Antigo Testamento nem sempre respeitavam a força e nem sempre se submetiam a ela. Pois eles também encontravam em seu livro exemplos de pessoas inocentes — Jó entre outros — atingidas, pelo menos temporariamente, pelo infortúnio. Além disso, a deles era em grande medida uma religião da nação; ora, Israel nem sempre era o mais forte, e quando não era, Israel contestava energicamente a força. Mas havia mesmo uma tendência a considerar o infortúnio como um castigo justo.

A imagem da cruz é uma imagem que liberta. Ao mostrar que os poderes não conheciam o bem, ela se interpõe entre o bem e a força. Ela ensina que Deus está acima dos poderes e de modo algum é por eles manifestado. A cruz separa Deus do mundo. Se não o separa absolutamente, ao menos o põe a uma muito grande distância. Põe-no muito mais longe do que a distinção entre Criador e criatura poderia fazê-lo, ou a correção dos antropomorfismos na Bíblia, ou mesmo a teoria judaica tardia dos intermediários. Ela assim livra os seres humanos de uma servidão espiritual na qual o espírito do Antigo Testamento tendia a encerrá-los, assim como o espírito das religiões antigas em geral tendia a fazê-lo. É realmente, como Paulo vê, algo que é profundamente novo, "escândalo para os judeus e loucura para os gregos".

Certamente, Deus também é concebido como poderoso no cristianismo. Ele pode intervir no mundo. Mas separado do curso ordinário dos eventos, e fundamentalmente separado dos poderes materiais e sociais, ele pode manifestar-se como o Bem absoluto. O Deus do Antigo Testamento proclama que é a causa do mal tanto quanto do bem, e que o diabo está entre seus servos. Em Qumran, os dois espíritos rivais que dominam o mundo, o Príncipe da luz e o Anjo das trevas, são estabelecidos por Deus e lhe obedecem, ainda que cada um deteste o outro. Esta ideia ainda se encontra mesmo nos judeocristãos das Pseudo-Clementinas, para quem o "Verdadeiro Profeta" e o diabo são a mão direita e a mão esquerda de Deus. No evangelho, ao contrário, o diabo é o inimigo de Deus, que de modo algum inclui o mal. Os gnósticos em particular, e especialmente Marcion e Valentino, insistiam na bondade absoluta de Deus.

Mais uma ideia de Deus, que se poderia chamar de "outro Deus"; um Deus até então desconhecido.