Pode se medir o precipício que separa as duas modalidades de experiência — sagrada e profana — lendo-se as descrições concernentes ao espaço sagrado e à construção ritual da morada humana, ou às diversas experiências religiosas do Tempo, ou às relações do homem religioso com a Natureza e o mundo dos utensílios, ou à consagração da própria vida humana, à sacralidade de que podem ser carregadas suas funções vitais (alimentação, sexualidade, trabalho etc.). Bastará lembrar no que se tornaram, para o homem moderno e a religioso, a cidade ou a casa, a Natureza, os utensílios ou o trabalho, para perceber claramente tudo o que o distingue de uni homem pertencente às sociedades arcaicas ou mesmo de uni camponês da Europa cristã. Para a consciência moderna, um ato fisiológico — a alimentação, a sexualidade etc. — não é, em suma, mais do que uni fenômeno orgânico, qualquer que seja o número de tabus que ainda o envolva (que impõe, por exemplo, certas regras para “comer convenientemente” ou que interdiz um comportamento sexual que a moral social reprova). Mas para o “primitivo” um tal ato nunca é simplesmente fisiológico; é, ou pode tornar-se, uni “sacramento”, quer dizer, uma comunhão com o sagrado.
O leitor não tardará a dar-se conta de que o sagrado e o profano constituem duas modalidades de ser no Mundo, duas situações existenciais assumidas pelo homem ao longo da sua história. Esses modos de ser no Mundo não interessam unicamente à história das religiões ou à sociologia, não constituem apenas o objeto de estudos históricos, sociológicos, etnológicos. Em última instância, os modos de ser sagrado e profano dependem das diferentes posições que o homem conquistou no Cosmos e, consequentemente, interessam não só ao filósofo mas também a todo investigador desejoso de conhecer as dimensões possíveis da existência humana.
No entanto a separação testamentária entre o santo e o profano é o resultado de uma distinção natural, inteligente, que busca preservar o sagrado. Quando no Êxodo diz YHWH a Moisés: “Deslinda o contorno da montanha”. O que aconselha é conservar a transcendência da santidade, porque como é sabido: “Todo aquele que toque o monte morrerá”, quer dizer, todo aquele que empreenda o caminho até a consumação, deverá entrar na negação de si mesmo, na morte da alma, na incineração dos conteúdos desta, e essa é uma Paixão difícil que só está reservada para as almas que já se fortaleceram na fé em sua semente interior.
Da mesma maneira, quando no Levítico se diz: “Nenhum laico comerá das coisas sagradas”, há que entender que o laical se aplica aos leigos, quer dizer, aos que na falta de conhecimento não alcançam distinguir o sagrado. Para eles o “não comer” não é o resultado de uma proibição, senão uma impossibilidade mais ou menos eventual, por falta de maturidade.