Frithjof Schuon: O ESOTERISMO COMO PRINCÍPIO E COMO VIA
François Chenique: O IOGA ESPIRITUAL DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS
No Antigo Testamento, a bem-aventurança é a do homem piedoso, que observa a Lei de Deus e medita sobre ela dia e noite1 ; o Novo Testamento abre-se com o Sermão da Montanha e com as bem-aventuranças (Mat. V, 1-12), que são os frutos perfeitos2 das virtudes e dos dons do Espírito Santo entre os cristãos3 .
— A primeira bem-aventurança (os pobres de espírito) corresponde ao dom do Temor, pois o que teme a Deus não procura toe glorificar, nem ser glorificado pelos seus bens materiais.
— A segunda bem-aventurança (os mansos) corresponde ao dom da Piedade, que cria em nós uma afeição verdadeira por Deus e pelo próximo.
— A terceira bem-aventurança (os que choram) corresponde ao dom da Ciência, porque os que são enganados pelas criaturas adquirem a verdadeira ciência de Deus.
— A quarta bem-aventurança (os que têm fome de justiça) corresponde ao dom da Força, porque a busca insaciável das obras de justiça pressupõe uma força divina.
— A quinta bem-aventurança (os misericordiosos) corresponde ao dom de Conselho, que nos mostra a caridade para com Deus e o próximo como a mais importante das virtudes.
— A sexta bem-aventurança (os corações puros) corresponde ao dom da Inteligência, que nos abre para a contemplação das coisas divinas.
— A sétima bem-aventurança (os pacíficos) corresponde ao dom da Sabedoria, que dispõe todas as coisas para seu fim supremo e as pacifica, impondo-lhes a ordem desejada por Deus.
— A oitava bem-aventurança (os perseguidos) confirma as sete bem-aventuranças precedentes, porque elas pressupõem, todas, uma certa forma de perseguição ou de sofrimento.
As bem-aventuranças são como que o sinete divino na alma, testemunho da ação dos dons e sinal visível do progresso espiritual. Eis como Santo Boaventura, citando Hughes de Saint-Victor, explica os três graus do caminho do conhecimento: "A fé, avançando em três etapas, dirige-se e sobe para a sua perfeição: de início ela acolhe a doutrina segundo a piedade; a seguir ela a aprova segundo a razão; enfim, ela a apreende segundo â verdade. A partir disso tem-se a impressão que também é tríplice a forma de saber: primeiramente, a confiança de uma aprovação piedosa; em segundo lugar, a aprovação de uma justa razão; em terceiro lugar, o uso da contemplação pura. Um se refere à posse e ao uso de uma virtude que é a fé; o outro, à posse e ao uso de um dom, o da inteligência; o último, à posse e ao uso de uma bem-aventurança, que é a pureza de coração"4 .
Enfim, Deus pode ser interpretado e conhecido pelos cinco sentidos espirituais, que são funções especiais dos dons de Inteligência e Sabedoria5 . Eis o que escreve Santo Agostinho, em suas Confissões: "Que é que eu amo, quando vos amo? não é a beleza dos corpos, nem sua graça perecível, nem o brilho da luz — essa luz tão cara a meus olhos —, nem as doces melodias das cantilenas em tons variados, nem o suave perfume das flores, nem o maná, nem o mel, nem os membros feitos para os abraços da carne. Não, não é tudo isso que eu amo, quando amo meu Deus. Contudo, é uma luz, uma voz, um perfume, um alimento, um abraço, que eu amo, quando amo meu Deus: é a luz, a voz, o perfume, o alimento, o abraço do homem interior que está em mim, lá onde resplandece para a minha alma uma luz que não tem limites, onde se desenvolvem melodias que o tempo não leva consigo, onde se exalam perfumes que o sopro do vento não dissipa, onde se toma um alimento que voracidade alguma faz desaparecer, e há abraços que saciedade alguma possa desfazer; eis o que amo, quando amo meu Deus!"6 .
São Boaventura explica assim a função dos sentidos espirituais: "Os sentidos espirituais designam percepções mentais da verdade contemplada. Essa contemplação existiu nos profetas, pela revelação, em tríplice visão, corporal, imaginativa e intelectual; nos outros justos, ela parte da especulação que começa nos sentidos e vai ter à razão, da razão ao intelecto, da inteligência à sabedoria, ou conhecimento excessivo que começa nesta vida e se completa na glória eterna"7 ; depois ele declara: "Então, o homem está preparado para a contemplação, para a visão e para o abraço do esposo e da esposa, que aparecem quando ele possui os sentidos espirituais pelos quais vê a soberana beleza de Cristo esposo sob o aspecto do Esplendor, ele ouve a harmonia soberana sob o aspecto do Verbo, saboreia a doçura "soberana sob o aspecto da Sabedoria, que compreende os dois aspectos precedentes, o Verbo e o Esplendor, ele cheira o perfume soberano sob o aspecto do Verbo inspirado no coração, ele abraça a soberana suavidade sob o aspecto do Verbo encarnado que habita em nós corporalmente, deixando-se tocar, abraçar, estreitar pela caridade ardente, que através do êxtase e do transporte leva nosso espírito a passar deste mundo para o Pai"8 .
NOTAS
Existem vários sistemas de correspondência entre os dons e as bem-aventuranças; seguimos aquele comumente tirado de São Tomás, que cita, com frequência, opiniões diferentes da sua. As referências estão na IIa IIae para as sete bem-aventuranças: q. 19, a. 12; q. 121, a. 2; q. 9, a. 4; q. 139, a. 2; q. 52, a. 4; q. 8, a. 7; q. 45, a. 6; para a oitava bem-aventurança: I, II, q. 69, a. 3, ad 5 e q. 69, a. 4, ad. 2; v., igualmente, J. Goettmann. Tobie, cap. XVII: Das bem-aventuranças do peregrino de Jerusalém.
São Boaventura desenvolve as mesmas correspondências em Breviloquium, 5.a parte, c. 6, n. 5: "O temor dispõe, pois, à pobreza de espírito. A piedade dispõe à doçura, porque aquele que ama alguém não o irrita e não é irritado por ele. A ciência dispõe às lágrimas, porque sabemos, pela ciência, que estamos afastados do estado de beatitude, neste vale de miséria e de lágrimas. A força dispõe à fome de justiça, porque o que é forte prende-se tão avidamente à justiça, que prefere deixar a vida corporal e não deixar a justiça. O conselho dispõe à misericórdia e coloca esse ato acima de todos os holocaustos. A inteligência dispõe à pureza de coração, porque a especulação da verdade purifica nosso coração de todas as imaginações. A sabedoria dispõe à paz, porque a sabedoria nos une ao verdadeiro e ao bem soberano nos quais se encontram o fim e a tranquilidade de todo o nosso vivo desejo racional".