"Ave, Maria, cheia de graça: o Senhor é convosco" foi, de acordo com a Vulgata, a saudação do anjo Gabriel a Maria. Reagindo contra a tradução e contra o sentido que lhe foi imputado, considerou-se que "cheia de graça" significaria que Maria não era apenas objeto e receptáculo da benevolência divina, mas que, possuindo toda a plenitude da graça, teria todo o direito de concedê-la. A versão do rei Jaime traduz a saudação como: "Salve, agraciada". O particípio passado grego usado para essas traduções conflitantes foi kecharitomene, cuja raiz, o substantivo kharis (e seus derivados), tem o sentido genérico de "favor" e, particularmente no Novo Testamento e em outras fontes literárias no início do cristianismo, é interpretado como "graça" no sentido de imerecida generosidade de Deus. De imediato, o contexto do relato da anunciação realmente parece se referir em primeiro lugar à iniciativa de Deus em assinalar Maria para se tornar a mãe de Jesus e, dessa maneira, elegê-la como sua escolhida. No hino Vom Himmel hoch da komm'ich her" (Venho dos Céus acima da Terra), de Martinho Lutero, que se tornou o leitmotiv de todas as cantatas que compõem o Oratório de Natal de Johann Sebastian Bach, escrito entre 1734 e 1735, outro anjo foi apresentado como dizendo aos pastores de Belém — e, por meio deles, a todo o mundo — "Euch its ein Kindlein heut'geborn,/ Von einer Jungfrau auserkoren" (Avós nasceu hoje um Menino, de uma Virgem eleita). Esse era o preceito adotado pela Reforma, isto é, ela aceitava a designação de Maria no sentido de escolhida-"predestinada" -, a exemplo do que, entre outros, afirmou o Concílio Vaticano li em 1964: Maria foi a pessoa por meio da qual o plano de Deus para a salvação do mundo foi colocado em ação.
Essa histórica disputa interconfessional sobre todas as implicações da kecharitomene não deveria obscurecer o papel muito mais importante que a saudação inicial — Ave/Salve — desempenhou ao longo dos séculos, e parece-nos seguro afirmar que, pelo número de vezes em que foi repetida pelos cristãos ocidentais em todos esses séculos, essa prece perde apenas para a Oração do Senhor: "Ave, Maria, cheia de graça, o senhor é convosco. Bendita sois vós entre as mulheres, e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus, orai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amem (Ave Maria, gratia plena, Dominus tecum, benedicta tu in mulieribus, et benedictus fructus ventris tui, Jesus. Sancta Maria, Mater Dei, orapro nobis peccatoribus, nuncetin hora mortis nostrae. Amen)". Sua primeira sentença, como pontuada aqui, combina as duas saudações bíblicas da Vulgata. A segunda é uma súplica que alia o título pós-bíblico, Theotokos, à doutrina marista posterior, de acordo com a qual os santos nos Céus intercedem pelos crentes da Terra e afortiori que a Mãe de Deus, sendo "cheia de graça" e portanto mediadora, pode interceder por eles, os quais, por sua vez, têm o direito de pedir diretamente a ela. De modo notável, a Ave, Maria resume não apenas a ironia que há em Maria ter se tornado a principal causa da divisão entre os crentes e entre as Igrejas, mas também a dicotomia entre a única autoridade das Escrituras e o desdobramento da doutrina pela tradição. Mas mesmo os que aceitavam a supremacia absoluta da autoridade bíblica se recusavam a orar usando as palavras impecavelmente bíblicas de sua primeira sentença.