Excertos da versão francesa de Bernard Gorceix, traduzidos para português por Yara Azeredo Marino e Elisabete Abreu
Contemplei, então, no segredo de Deus, na essência dos espaços aéreos do meio-dia, uma figura maravilhosa, de aspecto humano. A beleza e o resplendor de seu semblante eram tais que contemplar o sol teria sido mais fácil do que contemplar aquele rosto. Um largo círculo de ouro cingia-lhe a cabeça. No círculo, um segundo semblante, o de um velho, dominava o primeiro. O queixo e a barba roçavam o alto do crânio. De cada lado do pescoço da primeira figura saía uma asa. Essas asas se elevavam por cima do círculo de ouro, acima do qual se uniam. A parte extrema da curvatura da asa direita mostrava uma cabeça de águia: seus olhos de fogo irradiavam o esplendor angelical, feito um espelho. A parte correspondente da asa esquerda trazia um homem que cintilava como brilham as estrelas. Os dois rostos estavam voltados em direção ao leste. De cada ombro descia uma asa até os joelhos. Uma túnica, clara como o sol, a revestia. Trazia nas mãos um anel, que brilhava como um dia transbordante de luz. Com o pé ela dominava um monstro de aspecto terrível, perverso e negro, e uma serpente. A serpente comprimia na mandíbula a orelha direita do monstro. Seu corpo se enrolava ao redor da cabeça do monstro, e sua cauda ia até os seus pés, do lado esquerdo da figura. A figura então falou: "Sou a energia suprema, a energia ígnea. Sou eu quem tem inflamado cada centelha de vida. Nada de mortal em mim se propaga. Decido sobre toda a realidade. Minhas asas superiores envolvem o círculo terrestre, na sabedoria sou a ordenadora universal. Vida ígnea da essencialidade pois Deus sendo inteligência, como poderia Ele não criar? Por meio do homem Ele assegura a difusão de todas as suas obras. Na verdade, Ele criou o homem à sua imagem e semelhança; nele inscreveu, com firmeza e medida, a totalidade das criaturas. Por toda a eternidade, a criação dessa obra — a criação do homem — estava prevista em sua determinação. Uma vez a referida obra terminada, colocou entre as mãos do homem a integralidade da criação, a fim de que o homem pudesse atuar com ela da mesma forma que Deus modelara a sua obra, o homem. Assim, sou servo e sustentáculo. Por mim, realmente, toda a vida se inflama. Sem origem, sem fim, sou essa vida que, idêntica, persiste, eterna. Essa vida é Deus".