Laotseu
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A Natureza Humana e a Transformação de Laozi
- A figura de Laozi deve ser compreendida através da distinção entre personalidade e individualidade, sendo sua personalidade considerada uma daquelas entidades sobre-humanas que surgem em momentos cruciais do destino da humanidade para impulsionar sua evolução, uma visão que encontraria ressonância em teses muçulmanas e gnósticas antigas.
- No entanto, a tradição chinesa distingue-se pela sua simplicidade e homogeneidade lógica, isenta de fabulação mítica, e Laozi insistiu em sua condição humana normal, recusando qualquer aura de divindade ou missão sobrenatural, atribuindo suas conquistas ao labor intelectual e à ascese pessoal, não a uma graça divina original.
- Sua conduta exemplifica o princípio esotérico de que a extrema humildade se transforma em extrema grandeza, mostrando que a meta por ele alcançada está aberta à boa vontade de todos os homens que, por meios humanos, podem ascender à divindade, ao invés de crer numa descensão divina à humanidade.
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O Isolamento do Sábio e o Encontro com Confúcio
- Ao atingir o estado de conhecimento pleno, Laozi considerou-se inútil para a multidão e retirou-se para uma vida de silêncio e solidão, acreditando que a sabedoria total não se ensina nem se difunde, adquirindo-se apenas no isolamento e pelo trabalho pessoal.
- O histórico encontro com Confúcio, relatado por Sse-ma-thiên, ilustra esta divergência: Laozi repreendeu Confúcio por sua vida pública, ostentação e numerosos discípulos, defendendo que o sábio ama a obscuridade, fuga aos cargos públicos, evita a exibição de virtude e concede conselhos apenas a quem está preparado para retê-los e praticá-los, tal como se esconde um tesouro.
- Esta postura define o ensino taoista como restrito no número de destinatários e na porção da doutrina comunicável, assemelhando-se ao ensino sagrado e oculto de outros centros iniciáticos que guardavam ciosamente os raios da Grande Luz.
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O Fim da Vida e a Doutrina Legada
- Reconhecendo o poder transformador alcançado pela sua ciência e vontade, mas também a inutilidade egoísta da prática desses poderes, Laozi desapareceu da sua pátria natural, retirando-se para uma comunidade distante do Alto Tibete, local intelectual daqueles que transcenderam os últimos degraus do saber, onde viveu uma vida sobre-humana que ocultou a todos, morrendo em anonimato.
- A doutrina que legou, contida num livro de aforismos breves e misteriosos, governa há mais de dois milénios o pensamento refletido da raça amarela e está destinada a governar as sociedades futuras, orientando a herança da consciência e da vontade humanas perante as leis contingentes do fluxo das formas.
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A Influência Política e Social do Taoismo e seu Conflito com o Confucianismo
- A influência da doutrina de Laozi, confiada inicialmente a poucos adeptos, foi oculta, lenta, mas soberana e profunda, por se dirigir ao que há de mais elevado e menos humano no homem, raramente exercendo-se nas affairs políticas, mas quando o fez, foi energética e total.
- A divergência fundamental com o confucionismo tornou-se evidente: os confucianistas, often pequenos letrados eloquentes e ávidos de papel no Estado ("intelectuais"), privilegiavam a propaganda e uma moral prática para a multidão; os taoistas, sábios prudentes, desinteressados e solitários ("pensadores"), determinavam leis superiores e ideias gerais sem as pregar, influenciando mandarins de alto escalão e o próprio trono imperial.
- A luta entre as duas escolas levou a uma era de troubles egoístas, com os confucianistas caindo no verbalismo e pusilanimidade (excesso de propaganda) e os taoistas na energia e intransigência (excesso de isolamento).
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A Ação dos Imperadores Taoistas e a Perseguição de Qin Shi Huang
- Imperadores taoistas dos séculos II e III a.C. agiram para travar a dissolução do Império, vendo nas teorias confucianas desviadas um desejo de fragmentar o poder em principados feudais para os letrados, enquanto o taoismo consagrava o sistema libertário e comunitário da família chinesa sob uma autoridade única emanada do Céu.
- Qin Shi Huang, injustamente difamado como "incendiário de livros", restringiu as penas a letrados envolvidos em rebelião e sedição (apenas 487 executados) e queimou apenas comentários, panfletos, glosas paradoxais e escritos tendenciosos, poupando os livros de Laozi, da Tradição Primordial, dos textos sagrados e do próprio Confúcio (exceto o Chouking), num ato energético para se libertar de elementos de alteração e discórdia intelectual.
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A Evolução Histórica da Doutrina
- Após a dinastia Qin, o retorno dos retóricos ao poder coincidiu com uma degradação política que incluiu a influência dos eunucos e a introdução mal preparada de sentimentalidades budistas, levando à fundação de sociedades secretas taoistas (como a "Sociedade do Grande Vazio") após a violenta perseguição que causou 80.000 mortes.
- Percebeu-se então a necessidade de ensinar as doutrinas de Laozi e de Confúcio concurrentemente: o confucionismo, como ciência concreta e popular, para a multidão; o taoismo, a ciência integral, para um pequeno número de sábios e altos mandarins, evitando assim a difusão inconsiderada que poderia levar a sentimentos anárquicos.
- Esta conciliação floresceu durante a dinastia Tang, com Laozi recebendo culto exterior e honras, mas a doutrina manteve-se como guia dos sábios.
- Sob as dinastias mongol e manchú, o taoismo enfrentou perseguições (como a de Kublai Khan, que destruiu escolas e livros) e perdeu influência direta na corte, mas manteve seu prestígio.
- A tentativa do cristianismo de se opor à herança intelectual de Laozi e Confúcio falhou, sendo rejeitado por um acordo comum entre o soberano e o povo, permanecendo apenas uma curiosidade ou ferramenta política menor.
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O Papel Futuro e a Missão da "Via Racional"
- Exilados dos cargos públicos desde o reinado de Jiaging, os discípulos de Laozi dedicaram-se à criação de sociedades secretas, que se tornaram a força motriz dos grandes movimentos para manter a alma chinesa na Via tradicional.
- É esta "Via Racional" que, após ter mantido a China numa imobilidade independente e bem-aventurada, deve agora guiar a raça amarela face ao contacto inevitável com outras entidades étnicas, assegurando-lhe uma supremacia perpétua através do progresso ativo, justificada pela elevação da sua doutrina, pela beleza da sua moral prática e pela innumerabilidade dos seus filhos.