Roberto Pla: Evangelho de Tomé - Logion 44
Na verdade o primeiro que anuncia esta liberação do pecado é João Batista quando vê a Jesus — Eu Sou — chegar até ele.
- No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. (Jo 1:29)
Como via evangélica até a liberdade dos oprimidos, é proclamado por João Batista o batismo de conversão (metanoia, voltar-se para Deus), para o perdão dos pecados.
- Apareceu João batizando no deserto, e pregando o batismo de arrependimento, para remissão dos pecados. (Mar 1:4)
Este primeiro batismo ou imersão na água — na alam, como já foi dito —, é em si mesmo uma conversão da mente que supõe um insistente, reiterado olhar contemplativo interior que é por si só, um “lavar” a consciência. São Tiago resume em sua epístola esta obra purificadora com uma expressão simples: “confessais vossos pecados”.
- Confessai, portanto, os vossos pecados uns aos outros, e orai uns pelos outros, para serdes curados. A súplica de um justo pode muito na sua atuação. (Tiago 5:16)
Mas para o resultado de tão sustentada e prolongada imersão na consciência para escrutar seus conteúdos e comportamentos até que ao achar-se limpa permita a contemplação transparente do si mesmo, do Eu Sou, é assinalado no formoso Benedictus que Lucas põe na boca de Zacarias quando este ficou cheio do Espírito Santo, e se explica como o que é certamente: conhecimento de salvação.
- para dar ao seu povo conhecimento da salvação, na remissão dos seus pecados, (Lc 1:77)
Mas para alcançar o nascimento interior do Filho do homem, o nascido do alto, não basta com que o batismo seja de água; em seguida a ele vem, em línguas de fogo do conhecimento, o batismo ou imersão no Espírito que desce sobre a consciência até ser percebido por ela, pois está dito que todo o que nasce em espírito do Espírito nasce.
- O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te admires de eu te haver dito: Necessário vos é nascer de novo. O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz; mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito. (Jo 3:6-8)
Com efeito, o Espírito, que vem de Deus e que tudo sonda, é o que faz descer até a consciência do homem o íntimo do homem, que é conhecido por “o espírito do homem que está nele”. Isso o diz o apóstolo, no qual afirma que o Espírito é o que nos revela uma sabedoria de Deus, misteriosa, escondida, destinada por Deus antes dos séculos para nossa glória. E conclui Paulo com o fragmento de um salmo de Isaías, por ele tenta explicar algo acerca dessa glória que nos está destinada por Deus.
- Mas falamos a sabedoria de Deus, oculta em mistério, a qual Deus ordenou antes dos séculos para nossa glória; A qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu; porque, se a conhecessem, nunca crucificariam ao Senhor da glória. Mas, como está escrito: As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, E não subiram ao coração do homem, São as que Deus preparou para os que o amam. Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus. Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus. (1Co 2:7-11)
- Com a mesma palavra “espírito” designa Paulo o Espírito Santo, o sopro de Deus que Cristo envia sobre os que creem nele e o espírito que dá vida, o último Adão, nascido do alto (1Co 15,45). Para muitos poderá criar perplexidade esta ambiguidade ou não distinção, mas, de certo, se o espírito é essência, “quem poderia distinguir no espaço entre o ar que o permeia e o sopro exalado de si mesmo ao respirar?