ECKHART. Sermons 1-30. Tr. Jeanne Ancelet-Hustache. Paris: Seuil, 1974
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Contexto Intelectual e Fontes de Mestre Eckhart
- Predominância da doutrina de Tomás de Aquino e a introdução de Aristóteles na teologia no século de Eckhart.
- Persistência da influência neoplatônica e agostiniana em teólogos aristotélicos como Alberto Magno e o próprio Tomás de Aquino.
- Ecletismo de Mestre Eckhart, que segue correntes filosóficas e teológicas diversas.
- Imensa erudição de Eckhart atestada pelo índice de Konrad Weiss para a obra latina, que abrange 128 autores, 372 obras e mais de duas mil citações.
- Dependência de Eckhart de traduções latinas para acessar autores gregos, citando-os por meio de autores intermediários.
- Domínio, por vezes excessivo, das fontes, caracterizado por Konrad Weiss como "embarras de richesse".
- Predominância de citações de obras filosóficas sobre as teológicas nos escritos de Eckhart.
- Estilo referencial na obra alemã, com fórmulas como "Um mestre diz..." para invocar autoridade.
- Exatidão geral de Eckhart ao citar fontes, apesar do desconhecimento específico de sua audiência.
- Identificação por Josef Quint das principais influências: os dois Testamentos, Dionísio Areopagita, Agostinho, Proclo, Boécio, Gregório Magno, Beda, Damasceno, Avicena, Bernardo de Claraval, Maimônides, Alberto Magno e Boaventura.
- Detecção por Hugo Rahner da influência de Padres gregos como Clemente de Alexandria, Hipólito, Máximo o Confessor e Orígenes, mediada por Ricardo de São Vitor e Scoto Erígena.
- Contato de Eckhart com autores "pagãos" como Aristóteles, Platão e Sêneca através de traduções latinas e manuais como as Sentenças de Pedro Lombardo.
- Capacidade de Eckhart de assimilar elementos diversos e imprimir-lhes a marca de seu gênio.
- Flutuações e aparentes contradições no pensamento e no vocabulário de Eckhart, atribuíveis à multiplicidade de influências.
- Questão da autoria exata dos sermões, muitos sendo "reportações" de ouvintes, levando a negações ou explicações contextuais por parte de Eckhart durante seus processos.
- Advertência sobre a possível traição ao pensamento de Eckhart ao aproximar textos de forma artificial.
- Reconhecimento por Josef Quint de lacunas e passagens defeituosos em alguns manuscritos dos sermões, apesar do cuidado editorial.
- Convicção de que o fundamento e as grandes linhas da doutrina eckhartiana permanecem inalterados, dada a fidelidade essencial do autor a si mesmo.
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O Mundo Visível e o Mundo Quotidiano
- Acusações contra Eckhart de pregar que o mundo é um nada, com base na afirmação "Todas as criaturas são um puro nada".
- Defesa de Eckhart do conceito: a criatura é nada porque seu ser depende de outro, pois "o que não tem ser é nada".
- Explicação no Comentário ao Livro da Sabedoria: amar a criatura é amar o nada e orar por coisas passageiras é orar pelo nada.
- Contradição aparente: a atenção de Eckhart ao mundo visível, evidenciada por imagens familiares e pitorescas em seus sermões.
- Uso de imagens da natureza, como a seiva nas árvores, a rosa, a sálvia e outras plantas, para conferir calor e espontaneidade à sua palavra.
- Referência aos corpos celestes (sol, lua, estrelas) com base em filósofos, mas com a certeza da contemplação pessoal.
- Menção ao mar, possivelmente baseada em memórias do Mar Báltico ou do Mediterrâneo.
- Valor atribuído às coisas criadas principalmente como transparência espiritual, embora não lhe sendo estranhas.
- Citação de fenômenos terrestres como o ferro atraído pelo ímã, o carvão a queimar a mão e o fogo a penetrar a madeira.
- Emprego de analogias da vida quotidiana para estimular a imaginação dos ouvintes e despertar a inteligência para as coisas do espírito.
- Comparações como a dos mil marcos de ouro vermelho sendo como um falso heller, ou o desprezo do justo por Deus sendo como uma fava.
- Analogia do homem que não vive em si mesmo com aquele que tem vinho na adega sem o provar.
- Imagem de Deus como uma vela usada para encontrar um objeto e depois rejeitada, para quem deseja outra coisa além d'Ele.
- Comparação do amor a Deus por interesse com o amor a uma vaca pelo leite e queijo que fornece.
- Exemplos com humor, como o da maçã agradável aos olhos mas não à boca, ou os "três pequenas palavras" como nozes-moscadas para beber.
- Conhecimento de Eckhart dos ofícios quotidianos, como o oleiro, o imaginário, o carpinteiro e o médico.
- Menção aos filhos na escola a aprender a escrever e uso de um exemplo gramatical para mostrar a relação com Cristo.
- Posição relativa sobre o vestuário: o interior deve guiar o exterior, não o contrário.
- Exemplo do vestido cinzento como o mais agradável se fosse o modo de agradar a alguém.
- Analogia do vestir um rei no dia da coroação com vestes cinzentas como inadequado.
- Uso da palavra "casa" principalmente em relação ao templo de Deus, com o sermão Sta in porta domus domini.
- Comparação da cidade de Naim e da alma como lugar de repouso para Deus.
- Menção de Paris por três vezes nos sermões, referindo-se à Escola (Sorbonne).
- Sugestão de que a imagem de uma cidade murada poderia remeter à Paris de Filipe Augusto.
- Visão do mundo animal como repleto de símbolos, muitos emprestados dos Antigos, como a luta entre a serpente e a doninha.
- Menção de insetos como a mosca, o mosquito, o verme do estrume e a lagarta, esta colocada ao lado do anjo.
- Desenvolvimento da comparação do cão fiel ao seu dono.
- Ousada comparação da alegria do Senheiro com a do nobre corcel a saltar num campo verde.
- Uso de cores como o preto e o branco, o azul e o vermelho, considerando o cinzento feio e triste e o castanho não integral.
- Citação dos mestres sobre a indistinção entre o amarelo e o verde no arco-íris.
- Recorrência e significado do termo "amigo", usado por Jesus e aplicado por Eckhart a todos os que Ele ama.
- Definição da amizade: o amigo sabe o que seu amigo sabe; é suave para um amigo estar perto de seu amigo.
- Admissão de que se pode ficar desnorteado por causa dos amigos, exigindo uma advertência contra esse sofrimento.
- Flexibilidade momentânea da exigência de desapego em favor do amor natural por uma pessoa mais do que por outra, comparado a navegar com vento a meio.
- Definição do amor verdadeiro pelo amigo: pela sua bondade e virtude próprias, não pelo benefício próprio.
- Rara menção ao amor entre homem e mulher, citando a história do esposo que arranca um olho para se assemelhar à amada, como alusão a Cristo.
- Afirmação de que "uma mulher e um homem são dessemelhantes, mas no amor são perfeitamente semelhantes".
- Expressão rara do amor recíproco entre pais e filhos, evocada principalmente por analogia com o amor entre o Pai e o Filho.
- Conclusão de que, embora visse Deus nas criaturas, Eckhart as percebeu na sua realidade terrestre, merecendo a epíteto de poeta.
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Deus e a Alma Humana
- Proposição fundamental do Opus propositionum: "Esse est Deus" (O Ser é Deus).
- Inadequação de qualquer nome ou predicado para Deus, que é "Aquele que é".
- Afirmação de que "Deus não é bom, nem melhor, nem o melhor", comparando dizer que Deus é bom a dizer que o sol é negro.
- Atitude preferível de silêncio perante Deus, paradoxalmente acompanhada por um discurso inesgotável sobre Ele.
- Adoção e radicalização da fórmula de Tomás de Aquino, "Intelligere Dei est ejus substantia".
- Preferência pelo termo intellectus (vernünfticheit) sobre esse ou ens para definir Deus.
- Definição de Deus como um intelecto que vive no conhecimento de si mesmo, habitando sozinho em seu silêncio.
- Crítica aos mestres de espírito grosseiro que dizem que Deus é um ser puro, estando Ele tão acima do ser quanto o anjo mais elevado está acima de um mosquito.
- Adoção da teologia negativa (apofática) a partir do pseudo-Dionísio Areopagita, definindo Deus como um Nada, fora das categorias intelectuais.
- Distinção entre Deus (Got) como Trindade e criador, e a Deidade (Gottheit) como essência divina, fundamento originário, deserto, o Um sem nome.
- Localização no "fundo" divino das "ideias" platônicas ou arquétipos de todas as criaturas, que em Deus não são diferentes d'Ele.
- Expressão da unidade de todos os seres em Deus antes da criação temporal: "Nesse ser de Deus... eu mesmo estava, eu me queria a mim mesmo... eu sou a causa de mim mesmo segundo o meu ser eterno".
- Origem divina da alma, criada à imagem e semelhança de Deus.
- Nobreza conferida às potências superiores da alma, inteligência e vontade, pela sua origem.
- Definição da alma como forma do corpo, segundo Aristóteles e a Escolástica.
- Dificuldade em nomear a parte mais elevada da alma, para a qual Eckhart usa mais de trinta termos, como "pequena centelha da alma" (vünklin der sêle) e "fundo da alma" (grunt).
- Descrição dessa realidade como uma luz impressa de cima, uma imagem da natureza divina, por vezes chamada sinderese.
- Definição da sinderese como a centelha do intelecto que não pode extinguir-se, com duas operações: lutar contra o impuro e atrair para o bem.
- Dificuldade em definir essa realidade: "não é isto nem aquilo", mas "um algo" mais elevado do que o céu em relação à terra.
- Caracterização desse "algo" como acima de todo o ser criado, intocado pelo criado, um nada, um deserto, inomeado, mais ignorado que conhecido.
- Afirmações de que é "incriado e incriável", distante de toda a criatura.
- Distinção: se a alma fosse toda assim, seria incriada, mas com a outra parte está voltada para o tempo e é criada.
- Negação vigorosa por Eckhart, durante os processos, de ter ensinado que há algo na alma que é incriado, pois isso implicaria uma composição de criado e incriado.
- Interpretação de Vladimir Lossky: o ser cognitivo na alma pertence a um intermédio que participa do incriado divino e do criado.
- Interpretação de Hermann Kunisch: os termos "incriado e incriável" foram usados por Eckhart para expressar uma experiência de união inefável, não uma igualdade de natureza.
- Interpretação de Reiner Schürmann: Eckhart ensina uma identidade de realização, não de essência; um imperativo de identidade de operação entre o intelecto humano desapegado e a operação divina.
- Tema da identidade do homem com o Filho de Deus através do nascimento do Filho na alma: "O Pai gera o seu Filho na minha alma... ele me gera a mim como seu Filho e o mesmo Filho... ele me gera a mim como ele e a ele como mim".
- Fundamentação bíblica para esta identidade em passagens como I João 3:1-2, II Pedro 1:4, Romanos 8:29, Gálatas 4:7 e Gálatas 2:20.
- Citação de Agostinho no Comentário sobre João: "Cristo faz de nós uma única pessoa, cabeça e corpo".
- Exigência da "ruptura" (Durchbruch) da alma para além de Deus enquanto tem um nome, em direção à Deidade sem nome, identificada aqui com o Pai.
- Unificação dos temas: o nascimento do Filho na alma e a ruptura na Deidade são um único evento; a alma despojada (nuda essentia animae) encontra a essência divina despojada (nuda essentia dei).
- Condição fundamental para a união: o desapego (abegescheidenheit).
- Exigência de desaparecimento de todo o prazer, satisfação, alegria e contentamento terrenos.
- Definição da verdadeira honra a Deus como sair completamente de si mesmo, não buscando nada próprio.
- Rigor no abandono à vontade divina: querer a doença, a morte do amigo, a perda de um olho "em nome de Deus", e não contra a sua vontade.
- Justificação evangélica desta exigência com base no chamado ao renúncia de si mesmo e à perda da vida.
- Identificação do desapego com "deixar-ser", libertação, despossessão, renúncia, desapropriação, despojamento, abandono.
- Resposta à objeção sobre a tristeza de Cristo e o pranto de Maria: o homem interior permanece em desapego imutável.
- Reconhecimento da dificuldade do ideal: "Nunca ainda ninguém se renunciou tanto nesta vida que não pudesse renunciar ainda mais".
- Desapego supremo: renunciar a Deus por Deus, como fez São Paulo ao desejar ser separado de Cristo pelos irmãos.
- Renúncia a um Deus com rosto e ternura, para que Deus permaneça presente como o ser puro que é em si mesmo.
- Indicação de que a experiência última é namelôs, wîselôs, bildelôs, unsprechelich (sem nome, sem modo, sem imagem, inexprimável).
- Tentativa de traduzir a experiência em termos de alegria (vrôude), beatitude (saelicheit) e deleites (wunne).
- Distinção no tratado Do Homem Nobre: a beatitude não está no saber que se contempla Deus, mas no contemplar Deus sem véu, repousando no ser de Deus.
- Afirmação de que quando a alma sabe que contempla, isso é uma saída do estado original de união.
- Imagem do "beijo da Deidade" como aquisição da perfeição e beatitude, sendo a alma abraçada pela Unidade.
- Confidência indireta de Eckhart: "Se pudésseis reconhecê-lo com o meu coração, compreenderíeis o que digo".
- Abertura ao diálogo com as místicas não-cristãs, como o Hinduísmo e o Budismo, onde Eckhart é frequentemente referido devido aos temas do desapego, ruptura, fundo e nada.
- Relevância de Eckhart para o crente comum: chamada a um maior desprendimento e consolo pela existência de uma alegria que reflete a beatitude futura.
- Indulgência de Eckhart para com os imperfeitos, comparados àqueles que atravessam o mar com vento a meio.
- Exigência única e fundamental, comum a todos os espirituais cristãos: a aceitação da vontade de Deus.
- Apresentação por Eckhart do duplo aspecto do Evangelho: a renúncia e a cruz, e a alegria perfeita.
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