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id da página: 2860 Reiner Schürmann (1941-1993)

Reiner Schurmann

Filosofia Moderna — Reiner Schürmann (1941-1993)


Alemão de origem, nascido em 1941, foi dominicano e fez seus estudos de filosofia e teologia na Alemanha e na França. Ensinou na Universidade católica de Washington. Um dos grandes intérpretes contemporâneos de Martin Heidegger.


SCHÜRMANN, Reiner. Heidegger y la mística, Paideia, Córdoba, 1995, pp. 53-70

O abandono segundo Heidegger.

Quando se trata da Gelassenheit em Martin Heidegger, esta palavra é habitualmente ligada a uma atitude do pensamento. Também o escrito que a tem como título opõe dois modos de pensamento: o pensamento “calculador” e o pensamento “meditativo”. Esta oposição tornou-se célebre. Contudo, não diz tudo. Mesmo que não se subscreva à observação do interlocutor de Heidegger segundo a qual Mestre Eckhart pensa “a Gelassenheit ainda no interior do domínio da vontade”, tanto a divindade mística quanto o ‘satori’ zen designam ambos um acontecimento que se relaciona com o homem. Ora, o acontecimento do abandono é retirado deste contexto por Heidegger. Mestre Eckhart aponta nesta direção quando descreve o livre jogo, a ebulição seminal, no deserto além do ser e do qual este se distingue como uma chama da noite. O ser é assim “deixado”, dado, pela noite. Mas é necessário compreender que a noite, a divindade, significa para Eckhart o Deus mais divino que o Deus criador ou salvador. Busca a Deus “sem porquê”, diz ele, então será teu Deus. “Se estás doente e rogas a Deus por tua saúde, esta é mais querida para ti que Deus. Então Deus não é teu Deus. É o Deus do céu e da terra, mas não é teu Deus.” O conceito transcendental de abandono em Mestre Eckhart permanece, assim, um conceito relacional: a verdadeira relação com Deus é a gelâzenheit tanto de Deus quanto do homem. Deus e o homem são um, anônimos, neste abandono idêntico. Em Heidegger, o pensamento da Gelassenheit deve ser compreendido como um “passo atrás” da categoria da relação e de seu caso extremo, a identidade.

O “satori” também “faz mudar completamente de atitude” e constitui uma “reevaluação das relações do indivíduo com o mundo”. Ao menos tal como descrito por Suzuki, permanece sendo, para o homem, uma maneira de situar-se nas relações que constituem seu mundo. “Trata-se de tornar-se consciente de um novo poder do espírito que o coloca em condições de julgar as coisas a partir de um novo ponto de vista.” Chamar “abandono” a esta nova consciência, como o fizemos, equivale ainda a falar do homem e em vista do homem. A profundidade da Gelassenheit em Heidegger parece residir no fato de que não a pensa, em última instância, nem a partir do homem nem, especialmente, em vista do homem. Neste sentido, seu pensamento difere radicalmente do pensamento do “velho mestre do ler e do viver”, que para ele é Mestre Eckhart, e de Suzuki, que, segundo Heidegger, exprime “o que tentei dizer em todos os meus escritos”. Considere-se que esta última frase pode estar referida à distinção feita mais acima entre pensamento calculador e meditativo, e até mesmo, talvez, como veremos, à distinção entre “deixar a presença” e “deixar ser presente o que está presente”; contudo, a dimensão histórica, o abandono epocal, dito de outro modo: o tempo como horizonte do ser, não pertence à essência do satori. Fazemos nossa a opinião de William Barrett, que vê na homenagem incondicional prestada por Heidegger aos escritos de Suzuki um “entusiasmo ligeiramente exagerado”. O ponto de partida de Heidegger é uma reflexão sobre o destino da cultura ocidental. Este ponto de partida é irredutível à “abertura” mística e à “iluminação” budista. Nossa análise da Gelassenheit em Heidegger deve, portanto, partir de uma crítica desta história, mais precisamente da modernidade.


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