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Iconografia Nascente

ARTEICONOGRAFIA — PRIMEIROS PASSOS DA ARTE PROPRIAMENTE CRISTÃ


Ewa Kuryluk: SANTA VERÔNICA E O SUDÁRIO

Os cristãos primitivos desconfiavam das imagens. Apesar de dissidentes do judaísmo, sentiam-se presos ao segundo mandamento: "Você não deverá fazer para si mesmo uma imagem gravada, ou qualquer representação semelhante de algo que está em cima nos céus, ou que está embaixo na Terra, ou está nas águas debaixo da terra; você não deverá reverenciá-los ou servi-los" (Êx. 20:4-5). A rejeição da representação serviu a um objetivo prático importante. Ajudou à nova comunidade religiosa a afastar-se do mundo pagão da antiguidade tardia com sua propaganda pictórica, como os judeus haviam feito no passado. De acordo com o "apocalipse de Pedro" do começo do século II, que é um eco do Antigo Testamento, uma seção especial do inferno é reservada aos adoradores de imagens:

e abaixo deles deve o anjo Ezraél preparar um local de muito fogo: e todos os ídolos de ouro e prata, todos os ídolos, obras das mãos dos homens, e a representação de imagens de gatos e leões, de coisas rastejantes e bestas selvagens , e os homens e as mulheres que prepararam as próprias imagens, devem ser postos em correntes de fogo e devem ser castigados devido a seu erro diante dos ídolos, e esse é o seu julgamento para sempre.


Lendo os teólogos do cristianismo primitivo, percebemos que eles se preocupavam menos com a violação do segundo mandamento e mais com a sedução que os fiéis sentiam pela sensualidade da cultura helenística e que os afastava da espiritualidade e do ascetismo. Em seu Exortação aos Gregos, Clemente de Alexandria (cerca de 211) condena os esplêndidos mármores de Zeus e Vénus, Heracles e Leda com um fervor quase lascivo, argumentando que por baixo da aparência das belas formas eles ratificavam não a bondade e a virtude, mas sim a licenciosidade, a voluptuosidade e a perversão; e aqueles que sentem prazer em vê-los "praticam a fornicação" e o "adultério", e "se prostituem". A Exortação é o texto de um homem que acredita que para derrotar os cultos pagãos deve-se destruir suas fundações visíveis — todo o museu imaginário do passado. Para se livrar da competição religiosa, Clemente escolhe o ponto de vista iconoclasta, vulgariza e demoniza a representação e amedronta seus leitores em potencial. A adoração de ídolos, diz ele, reflete sua ânsia pelo mal; e você evita a salvação de sua alma ao sucumbir diante do sorriso de uma estátua. Entretanto, rejeitar a representação pagã é uma coisa, e rejeitar toda e qualquer representação é outra. Clemente denuncia o ilusionismo sedutor da arte grega e romana. Mas ele teme não só o impacto das grandes esculturas mas até mesmo a magia das pequenas representações realistas, como joias com retratos de damas ou donzelas, lembrando às pessoas suas paixões eróticas. Ele recomenda aos cristãos — como um antídoto — usarem anéis gravados com uma pomba ou um peixe, um barco ou uma lira, uma âncora ou um pescador (PAEDAGOGUS 3.11.59:2-60:1). A atitude de Clemente era de manter o estágio primitivo da arte cristã. Ela abrangia os primeiros dois séculos, era dominada pela representação simbólica ou ideográfica, em particular pelos ideogramas mais comuns de Cristo (peixe, cordeiro, vinho e cruz), desprezava as habilidades e ideais clássicos, e espelhava as condições clandestinas de uma religião demolida. A simplicidade e a escala diminuta, a qualidade amadorística, infantil e rabiscada da arte povera cristã era uma provocação artística quando vista em contraste com o naturalismo suntuoso e monumental do Império Romano tardio.

No desenvolvimento da arte cristã deve ser levada em conta a geografia. Ao se mudar da Palestina, o local não icônico de seu nascimento, para a Itália e os territórios helenizados da Ásia Menor, o cristianismo infiltra-se no mundo da representação, e os líderes da Igreja logo reconhecem a importância da representação figurativa como um excelente instrumento de transmissão da fé para a ampla massa do povo ignorante, mas criado na rica tradição pictórica do Império Romano. Portanto, uma mudança distinta em direção à figuração pode ser observada à medida que transcorre o século III. Produzida por recém-convertidos de várias religiões pagãs, a arte cristã dessa era funciona através de analogias, em que tipos clássicos do vocabulário formal do mundo greco-romano são usados para evocar o Deus do Novo Testamento. Jesus é apresentado como um jovem bonito, sem barba, na função de um pastor, doutor, mágico, músico, amante e herói. Seu modelo é Orfeu domando as bestas selvagens ao som de sua lira; ou Hércules alimentando o dragão com sementes tenras; ou Amor, cujo caso de amor com Psique é interpretado como o amor de Deus pela alma humana; ou o Sol Invencível, o deus-sol das legiões romanas, passando com suas carruagens através do céu; e em particular, o Bom e Leal Pastor. Igualmente familiar a cristãos e pagãos, a figura bíblica foi inspirada pela imagem grega do deus-pastor Aristaios ou Apollo Nomios, e de Hermes Kriophoros, o criador de cordeiros de Tanagra, e foi mais tarde popularizada pelo Pastor de Hermas do século II, um texto exortativo cristão representando a Igreja em Roma.

O simbolismo e a camuflagem terminaram em 313 com o Édito de Milão. A Igreja tornou-se pública e perdeu o temor de ser submergida pela representação pagã. Dali em diante estava sob controle — capaz de proibir a representação inaceitável e de destruir a arte pagã. Os ilustradores da Bíblia dos séculos IV e V começaram a desenvolver uma iconografia e um estilo próprios, aplicando modelos clássicos às histórias do Antigo e do Novo Testamento. A teologia primitiva era obcecada com a ideia das correspondências entre as duas escrituras e assim também era a arte da época. Moisés golpeando a pedra representava o Cristo das Águas Viventes; à história de Jonas correspondia a ressurreição de Jesus; como Daniel e os leões em relação à encarnação por Jesus da vitória da inocência e da libertação da alma de todo pecado e da morte, e no sacrifício de Abraão, quando ele aparecia como a vítima. Mas os temas mais populares eram os milagres dos evangelhos, em particular a ressurreição de Lázaro.