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id da página: 9616 Fontes Orientais Divina Comedia

Fontes Orientais Divina Comedia

Tradução de Antonio Carneiro

Fontes Orientais da “Divina Comédia”

Quando o padre Miguel de Asín Palacios (1871-1944) escreveu em 1919 “La Escatologia Musulmana en la Divina Comédia”, gerou de imediato um interessante debate acerca das fontes islâmicas da Divina Comédia. E mais, hoje se conhece quase exclusivamente o erudito espanhol por seu aporte para este vital assunto.1

Certamente a viagem noturna de Muhammad, que se encontra na Suratu Al-’Isra’2 (XVII — parte 15) (a sura da viagem noturna) do Alcorão, como alguns “hadices” (hadiths), constituem um material revelador em favor das teses de Asín Palacios. Não obstante o anterior e sem pretender descartar o alto grau de influência da cultura e religiosidade muçulmana sem vários aspectos da Divina Comédia, cremos que há uma vertente espiritual seguramente anterior, muito mais evidente em pontos específicos, ao qual quase nenhum autor se atreveu sequer a mencionar3 , a qual nos revela a grande ignorância que exite ainda nos meios ocidentais de uma forma de espiritualidade tradicional abundante em profunda metafísica e poético simbolismo. Nos referimos ao Zoroastrismo, e a “Narração de Arda Viraf” (“Arda Viraf Namak”)4

Portanto, não acredite que o presente artigo negue a influência da rica cosmovisão mulçumana na obra de Dante. Simplesmente, tenta mostrar uma forma tradicional anterior, que pudesse haver nutrido o universo de Dante, Deve ficar claro, além disso, que pesquisas como a empreendida pelo padre Miguel Asín de Palacios faz quase um século, ou, a mais humilde, dirigida por nós nesta oportunidade, não pretendem questionar o valor de uma obra insubstituível como a divina Comédia, de por si majestosa em estilo, rica em qualidade, e, o que é primordial, instrutiva da verdadeira sabedoria tradicional. Pelo contrário, sentimos que existe real utilidade em tais trabalhos, dado que permitem aproximar de uma específica forma tradicional (como é o catolicismo, o qual se circunscreve a obra de Dante) a outras expressões do Espírito, como são o Islã e o Zoroastrismo; uma vez que servem para demonstrar que a Tradição sendo ampla em possibilidades, no entanto é Una como Verdade.


NOTAS:
1 Outro livro onde Miguel Asín Palacios estudou a relação entre a sapiência muçulmana e a célebre obra de Dante Alighieri é “Dante y el Islam” (Editorial Voluntad S.A., Madrid, 1927). Devemos consignar aqui que a tese do padre Asín Palacios cativará a muitos, os quais exporão, resumirão ou aperfeiçoarão seus posicionamentos. Vide por exemplo, “Influencia del Islam en la Divina Comedia” de German Valenzuela (Instituto Chileno-Árabe de Cultura, Santiago de Chile, 1965)
2 Nota de Antonio Carneiro: Al-’Isra’ — do infinito asra, que significa andar a noite. Assim, é denominada a sura pela menção, no primeiro versículo, da Viagem Noturna que, de acordo com a tradição, Muhammad, acompanhado do anjo Gabriel, fez, no segundo ano da Hégira, desde a Mesquita Sagrada, em Makkah até a Mesquita de Al ‘Aqsa, em Jerusalém. O sentido desta viagem, no dizer de alguns exegetas, “é a afirmação da unidade profética, a proclamação da identidade das mensagens divinas, transmitidas por todos os profetas, nomeadamente, por Abraão, Moisés, Jesus e Muhammad”. A esta viagem terrestre sucedeu, na mesma noite, a outra, a mais importante: al miraj ou ascensão aos céus, onde Muhammad não só encontrou, em cada um dos céus, alguns dos profetas anteriores a ele (Noé, Abraão, José, Moisés, Jesus), mas testemunhou todas as maravilhas invisíveis do Universo. Já no sétimo céu, Muhammad foi levado à Siderat al Muntaha (cuja menção alcorânica se encontra na sura LIII 14), à árvore existente à direita do Trono, além do qual, está o Invisível. Passar por ela é interdito a todos os anjos celestiais. Em seguida à série de deslumbramentos e conhecimentos, Muhammad, finalmente, contemplou a Deus com os olhos do espírito. Despertando, contou sua viagem e ascensão a alguns parentes, que, incrédulos, tentaram persuadi-lo de nada relatar a ninguém, pois seus prosélitos poderiam não crer no ocorrido, por inverosímel, além de que seus inimigos se prevaleceriam disso para detraí-lo mais ainda e tornar mais acirradas as perseguições contra ele. Esta sura implica, também, vários itens, cuja maioria se relaciona com a fé; outros tratam da conduta tanto individual quanto coletiva do homem. Além disso, traz notícias sobre os filhos de Israel (aliás outra denominação desta sura é Banu Israil ou Filhos de Israel), e, ainda, concernentes à Mesquita de Jerusalém, para qual Muhammad foi transportado, durante a viagem noturna, antes de ascender aos céus; e, outrossim, notícias sobre Adão e Iblis. O elemento preponderante, nesta sura, é a personalidade do Profeta Muhammad e a atitude dos idólatras de Makkah em relação a ele e ao Alcorão; assim também, a natureza da Mensagem, que se distingue das demais, por não apresentar milagres concretos, tais quais verificados com Abraão, Moisés e Jesus. Ela, apenas, se atém a um plano puramente espiritual e divino. (In: pag. 440 — Parte 15 — 17. Suratu Al-’Isra’ da tradução do sentido do Nobre Alcorão para a língua portuguesa com a colaboração da Liga Islâmica Mundial, em Makkah Nobre, realizada por Dr. Helmi Nasr, professor de Estudos Árabes e Islâmicos na Universidade de São Paulo, Brasil, ano 1425 da Hégira, 1076 p.)
3 Dentre estes poucos autores, cabe mencionar a Blochet (“Études sur l’Histoire religieuse de l’Islam”, in: “Revue de l’Histoire des Religions”, 1899), o qual é citado de passagem por René Guénon no Esoterismo de Dante (Ed. Dédalo, Buenos Aires, 1976, p.67). Pela pouca importância que dá o grande metafísico francês a esta possível fonte da (Divina) Comédia, não há dúvida quanto ao fato de que este não teve conhecimento direto da obra persa que aqui comentamos.
4 O presente artigo tem por referência a tradução inédita em espanhol, disponível no “site” www.ashavan.el . Pode se empregar também a expressão “Arda Viraf Nameh”. Outra acotação: Temos optado neste caso traduzir a palavra “namak” (“nameh”) por “narração” frente à mais usual de “livro”.