EVANGELHO DE JESUS: Lc 12:49-50
Evangelho de Tomé: LOGION 10; LOGION 71
Jean-Louis Chrétien
CHRÉTIEN, Jean-Louis. L’intelligence du feu: réponses humaines à une parole de Jésus. Paris: Bayard, 2003.
Este livro propõe estudar de modo ordenado as respostas humanas a uma palavra de Jesus, no caso a uma única frase que, no grego dos Evangelhos, comporta doze palavras. Poderá parecer estranho, ou de uma erudição muito especializada, que um livro tenha por objeto apenas doze palavras. Não seria afundar-se numa minúcia prolixa, isto é, reunir duas degradações da palavra? Cumpre, pois, desde logo dizer por que, e como, esse projeto adquire sentido, e em que também a aparente exiguidade do objeto é a de uma incisão, uma incisão que vai ao mais profundo, até o coração, da palavra humana e da existência humana, por mais finos que sejam o fio e o gume dessas doze palavras. Pois essa incisão não é praticada por nós sobre elas, mas por elas sobre nós, se forem ouvidas.
Qual é essa frase? “É um fogo que vim lançar sobre a terra, e que desejo tenho senão que já esteja aceso?” Lucas, em 12,49, é o único dos evangelistas que no-la transmite. Essa palavra sobre o fogo arde ela mesma de uma evidência enigmática. Evidência imperiosa de uma frase à beira do grito (imagina-se sequer dita como um murmúrio?), na qual Jesus Cristo diz sua missão e sua relação com ela no tempo, sua impaciência de já ter vindo e de ainda não ter cumprido o que por isso fez. A tensão entre o já e o ainda não é a da existência cristã apenas porque o foi primeiramente a do próprio Cristo. Uma frase em que Jesus diz o que veio fazer é, evidentemente, qualquer que seja o que se possa pensar ou crer dele, de importância capital.
Mas a evidência da importância dessa frase é, ao mesmo tempo, uma evidência enigmática, pois esse “fogo”, mesmo recorrendo ao que a Sagrada Bíblia diz em outros lugares sobre as chamas (e isso é rico e variado), pode ser entendido (e foi) de muitas maneiras, inclusive opostas. Um exegeta recente, Claus-Peter Marz, inicia seu balanço das interpretações dizendo que essa frase é uma das mais difíceis de compreender dos Evangelhos e uma das cuja interpretação é mais controvertida. Que resulta daí? Como santo Agostinho dizia da Palavra de Deus em geral, essa palavra é um espelho. Ele queima frequentemente os mansos de mansidão, tornando-os ainda mais mansos; ele queima frequentemente os violentos de violência, tornando-os ainda mais ásperos. Mas, como esse espelho é o da Palavra de Deus, e não o instrumento de nosso narcisismo, sucede que ele queime os mansos de violência e os violentos de mansidão, e que não nos mostre nossos traços, mas nosso futuro ou nossa vocação, muitas vezes a despeito de nossas expectativas e de nossa boa ou má vontade.
O caráter enigmático dessa palavra de Jesus aprofunda ainda a urgência da solicitação que ela nos dirige: diante do enigma de uma frase que, ao dizer a missão de Jesus, concerne, ao menos em potência, a todo homem (para tanto basta que ele possa ser o Salvador), torna-se nu de uma nudez sem par. Com efeito, não se pode responder à instância da questão que ela lança, como diz lançar o fogo, senão com todo o próprio ser, um ser que precisamente só vem a ser inteiro, e todo nu, na resposta mesma que dá a tal enigma, e não exercendo um poder prévio. O enigma desnuda. Desnuda também aquele que o recusa, aquele que diante dele desejaria fugir para debaixo da terra, recobrir-se de toda sorte de carapaças ou máscaras (inclusive a do sábio, e a daquele que sabe o sentido de todas as palavras antes mesmo que tenham sido ditas), pois é preciso sentir-se nu e descoberto para buscar esconder-se e proteger-se. É o caso de larga parte (mas apenas de uma parte!) da exegese chamada indevidamente “crítica”, na qual a única coisa a salvo de toda crítica é o próprio exegeta, bem como suas telecomandos prefabricadas, oculto que está atrás de montículos de fichas e glosas como Adão decaído, para não ter de responder à pergunta de Deus que lhe indaga: “Onde estás?”, e: “Quem és?”, ou fazendo-o, com menos sucesso que Ulisses diante do Ciclope, apenas para dizer: “Ninguém — não sou ninguém, mas sou doutor em ciências religiosas, em semiótica e em psicologia das profundezas, em universidades cujos professores não põem em dúvida a eminente superioridade internacional.”
O que é a palavra, com efeito, só se sabe de responder a ela e de lhe responder, e o que é a Palavra de Deus, só se sabe de responder a Deus respondendo-lhe, o que implica sempre o movimento abrahâmico de deixar o lugar onde se estava, e portanto aquele que se era. E o que é o fogo, como o que pode, de onde se poderia sabê-lo senão da queimadura? Da queimadura recebida, da queimadura fugida, da queimadura desejada. Os que a receberam, por haver deixado o fogo aproximar-se deles e atingi-los, perguntam-se como viver uma vez queimados, sabendo que de modo algum pode ser como antes, e buscam o que exatamente o fogo quis deles, e até onde o quererá. Os que a fugiram, por vezes a qualquer preço, gostariam que tê-la evitado não tivesse sido ao mesmo tempo, e de um só golpe, fugir do fogo, e assinalar-se residência no frio e no gelo, que têm também sua queimadura, que não haviam previsto. Os que a desejam já ardem desse próprio desejo, e também esses conhecem o fogo, como desde essa íntima transformação em que seu ser pouco a pouco se faz combustível. Mas essas queimaduras são pessoais, e a palavra que fala desde elas, isto é, desde um nosso vínculo com o fogo, qualquer que seja sua natureza, também o é. O que não significa que ela resvale para a autobiografia vulgar, nem que arredonde a boca a todo instante para dizer eu.