Em sua imensa obra sobre o mito e as tradições religiosas da humanidade, o historiador das religiões Mircea Eliade, legou inúmeras referências à tradição gnóstica, as quais serão inseridas nesta página, a come çar por esta definição constante do dicionário das religiões que elaborou com Ioan Couliano.
Breve apresentação de Mircea Eliade e Ioan Couliano
No panorama das ideias da época, o gnosticismo é revolucionário ao contradizer os dois princípios enunciados quer pela Bíblia quer por Platão: o princípio da inteligência ecossistêmica, segundo o qual a criação do mundo teve uma causa inteligente e bem intencionada, e o princípio antrópico, que afirma que este mundo foi criado pelo tipo de ser humano que aqui se encontra e que este ser humano foi criado por este mundo. Pelo contrário, o gnosticismo afirma que o demiurgo do mundo é ignorante, que o mundo é, por consequência, mau, e que o homem é superior ao mundo por possuir uma centelha do espírito do Pai distante e bom das gerações divinas. Evadir-se do cosmos será então o objetivo do gnóstico.
O gnosticismo utiliza a maior parte das vezes conceitos cristãos e o seu salvador chama-se na maior parte dos casos Jesus Cristo. Ele tem a função de revelar ao crente a existência da centelha de espírito presente na sua alma, gnose eterna que lhe permitirá regressar à sua origem hipercósmica. Jesus Cristo não tem, em geral, corpo físico (cristologia doceta) e logo, não pode realmente sofrer e morrer na cruz. As interpretações variam enormemente, mas em determinados casos é outro o crucificado (Simão de Cirene) e o verdadeiro salvador fica a rir-se à sombra da cruz. Este sorriso trocista de Cristo, segundo o demiurgo e seus acólitos, representa sem dúvida um traço que não se liga com os Evangelhos.
Verbete do Dicionário das Religiões, Mircea Eliade e Ioan Couliano. Dom Quixote, Portugal.