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Eckhart Sermon 31



ES30<= Sermão XXX – Ecce ego mitto angelum meum etc. =>ES32

“Olhem, Eu envio o meu anjo adiante do vosso rosto para que prepare o vosso caminho. Em seguida será sacrificado no seu templo. Quem conhece o dia da sua chegada? É como um fogo que une tudo com o seu alento” (Mal. 3,1 ss.).

Diz-se, pois: “Em seguida será sacrificado no seu templo aquele a quem esperamos”. A alma há de Sacrificar-se com tudo o que é e tudo o que tem, quer sejam fraquezas, quer sejam virtudes: tudo isto, há de subir e sacrificar, junto com o Filho, ao Pai celestial. Quanto amor pode o Pai oferecer, de tanto amor é merecedor o Filho. O Pai não ama nenhuma coisa com exceção do seu Filho e de tudo o que encontra no seu Filho. Por isso, a alma deve elevar-se com toda a sua força e sacrificar-se no Filho ao Pai; e assim será amada com o Filho pelo Pai.

Agora bem, Ele diz: “Olhem, envio o meu anjo”. Quando se diz: “Olhem”, entendem-se três coisas: uma que é grande, outra que é maravilhosa ou uma terceira que é extraordinária. “Olhem, envio o meu anjo para que prepare” e purifique a alma a fim de que possa receber a luz divina. A luz divina encontra-se, em todo o momento, firmemente inserida na luz do anjo, e a luz do anjo seria incômoda à alma e não lhe agradaria, se dentro daquela não estivesse escondida a luz divina. Deus esconde-se na luz angelical e cobre-se com ela esperando continuamente o instante no qual possa arrastar-se para fora para entregar-se à alma. Dissemos também em outras ocasiões: Se alguém nos perguntasse o que é que Deus faz no céu, diríamos: Engendra o seu Filho e o engendra completamente novo e sadio, e ao fazê-lo sente um deleite tal que não faz senão realizar essa obra. Por isso diz: “Olhem, Eu”. Aquele que diz “Eu” tem que fazer a obra da melhor maneira imaginável. Ninguém pode pronunciar esta palavra, em sentido próprio, senão o Pai. A obra é-lhe tão própria que ninguém senão o Pai é capaz de a realizar. Nesta obra Deus opera todas as suas obras e dela dependem o Espírito Santo e todas as criaturas, porque Deus realiza a obra, que é o seu nascimento, na alma; o seu nascimento é a sua obra e o nascimento é o Filho. Esta obra Deus a opera no fundo mais íntimo da alma e tão às escondidas que não o sabem nem os anjos nem os santos, e a alma não pode contribuir com nada senão só sofrê-lo; pertence unicamente a Deus. Por isso diz com propriedade o Pai: “Eu envio o meu anjo”. Agora dizemos: Não o queremos, isto não nos basta. Diz Origenes: “Maria Madalena procurava a Nosso Senhor; procurava um morto e encontrou dois anjos vivos (Cfr. João 20, lis.) e não lhe bastou. Tinha razão porque procurava a Deus”.

O que é um anjo? Dionisio fala do principado sacro dos anjos onde há ordem divina e obra divina e sabedoria divina e similitude divina ou verdade divina na medida do possível. O que é a ordem divina? Do poder divino prorrompe a sabedoria e dos dois prorrompe o amor, este é o fogo; porque a sabedoria e a verdade e o poder e o amor, ou seja, o fogo, encontram-se na periferia do ser que é um ser sobre-flutuante, puro sem natureza. É esta a sua natureza de Deus: carecer de natureza. Quem deseja refletir sobre a bondade ou a sabedoria ou o poder, encobre o ser e o obscurece com o pensamento. Um só pensamento adicionado encobre o ser. Este é, pois, a ordem divina. Onde Deus encontra na alma uma similitude a respeito a essa ordem, aí o Pai engendra o seu Filho. A alma, com todo o seu poder, deve penetrar na sua luz. Do poder e da luz surge um fogo, um amor. Assim, a alma tem que penetrar, com todo o seu poder, na ordem divina.

Agora falaremos desta ordem da alma. Diz um mestre pagão: a sobre-flutuante luz natural da alma é tão pura e tão clara e tão alta que toca a natureza angelical; é tão leal e por outra parte tão desleal e hostil às potências inferiores que nunca se infunde nelas nem alumia dentro da alma, a não ser que as potências inferiores se encontrem subordinadas às potências superiores, e as potências superiores à suprema Verdade. Quando um exército está ordenado, o criado subordina-se ao cavaleiro e o cavaleiro ao conde e o conde ao duque. Todos querem que haja paz; por isso cada um ajuda ao outro. Do mesmo modo, cada potência deve estar subordinada a outra e ajudá-la no combate para que haja pura paz e tranquilidade na alma. Dizem os nossos mestres: “A tranquilidade cabal é ser livre de todo o movimento”. Desta maneira a alma deve elevar-se mais além de si mesma à ordem divina. Aí o Pai lhe dá a alma ao seu Filho unigênito em pura tranquilidade. Este é, pois, o primeiro ponto a respeito à ordem divina.

Passemos por alto os outros pontos. Só diremos um pouco mais sobre o último. Quando nos referimos aos anjos – que possuem muita similitude com Deus e iluminação: na iluminação escalam por cima de si mesmos até à similitude divina na qual continuamente se encontram frente a frente com Deus na luz divina com tanta similitude que operam obras divinas. Os anjos assim iluminados e símiles a Deus, obrigam a Deus a entrar no seu foro íntimo e se embebem d’Ele. Dissemos também em outras ocasiões: Se estivéssemos vazios e tivéssemos um amor puro e similitude, faríamos entrar por completo a Deus no nosso foro íntimo. Uma luz se espalha e ilumina aquilo sobre o qual se espalha. O que às vezes se diga: Este é um homem iluminado, não é grande coisa. Mas, quando a luz dimana e irrompe na alma e a assemelha a Deus e a faz deiforme na medida do possível, iluminando-a de dentro, isto é muito melhor. Na iluminação trepa por cima de si mesma na luz divina. Quando ela retorna assim à sua pátria, e se encontra unida com Ele, é uma co-operadora. Fora do Pai nenhuma criatura opera, só Ele opera. A alma não deve desistir nunca até que tenha o mesmo poder de obrar que Deus. Assim opera junto com o Pai todas as suas obras; coopera simples e sábia e amorosamente.

Que Deus nos ajude a cooperar assim com Deus. Amen.