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Eckhart Sermon 32



ES31<= Sermão XXXII – Consideravit semitas domus suae et panem otiosa non comedit. =>ES33

“Uma boa mulher iluminou os caminhos da sua casa e não comeu ociosamente o seu pão” (Prov. 31, 27).

Essa casa significa a alma na sua totalidade, e os caminhos da casa representam as potências da alma. Diz um velho mestre que a alma está feita entre um e dois. Um é a eternidade que se preserva sempre sozinha e é uniforme. Dois, no entanto, é o tempo que se transforma e multiplica. Com isso quer dizer que a alma, com as potências mais elevadas, toca a eternidade, ou seja, a Deus; e com as potências inferiores toca o tempo e por isso é submetida à mudança e se inclina para as coisas corpóreas e, ao fazê-lo, perde a sua nobreza. Se a alma pudesse conhecer integralmente a Deus, como fazem os anjos, nunca teria entrado no corpo. Se pudesse conhecer a Deus sem o mundo, este nunca teria sido criado por causa dela. O mundo foi criado por causa dela com a finalidade de que a vista da alma fosse exercitada e fortalecida para que fosse capaz de suportar a luz divina. Assim como a luz do sol não se projeta sobre a terra sem ser envolvida pelo ar e espalhada sobre outras coisas, já que de outra maneira a vista humana não a poderia suportar, assim também a luz divina é fortíssima e tão clara que a vista da alma não a poderia suportar sem ser fortalecida e elevada pela matéria e as parábolas, e desta maneira é conduzida até à luz divina e aclimatada dentro dela.

A alma toca a Deus com as potências supremas; devido a isso está formada à semelhança de Deus. Deus encontra-se formado à semelhança de si mesmo e tem a sua imagem d’Ele mesmo e de ninguém mais. A sua imagem consiste em que se conhece a fundo, não sendo nada mais que luz. Quando a alma o toca com verdadeiro conhecimento, ela se lhe assemelha nesta imagem. Quando um selo se imprime em cera verde ou colorida ou num pano, produz-se em todo o caso uma imagem. Mas quando o selo transpassa completamente a cera de modo que não sobra nenhuma cera que não seja cunhada pelo selo, ela constitui uma só coisa com o selo, sem distinção alguma. Da mesma maneira a alma, quando toca a Deus com verdadeiro conhecimento, é-lhe unida totalmente na imagem e na semelhança. Diz São Agostinho que a alma é tão nobre e foi criada tão por cima de todas as criaturas que nenhuma coisa perecível, que perecerá no Dia do Juízo Final, é capaz de falar nem obrar no interior da alma sem mediação e sem mensageiros. Estes são os olhos e os ouvidos e os cinco sentidos; eles são os “caminhos” pelos quais a alma sai ao mundo e o mundo, por sua vez, retorna à alma por estes caminhos. Diz um mestre que “as potências da alma hão de regressar à alma com grandes ganhos”. Quando saem, sempre trazem algo de volta. Por isso, o homem deve vigiar afanosamente os seus olhos para que não tragam nada nocivo para a alma. Temos esta certeza: qualquer coisa que o homem bom vê, o aperfeiçoa. Quando vê coisas más, dá as graças a Deus por o ter posto a salvo delas, e reza por aquele em quem aparece o mal, para que Deus o converta. Mas quando vê algo de bom, anseia que seja realizado nele.

Esta forma de olhar deve ter caráter duplo: que depenhamos o nocivo e supramos aquilo de que carecemos. Já dissemos em outras oportunidades: Quem jejua muito e passa muito tempo em vigília e faz grandes obras, mas não corrige os seus defeitos nem a sua conduta, no qual consiste o verdadeiro progresso, se engana a si mesmo e o diabo se burla dele. Um homem possuía um ouriço com o qual se enriqueceu. Vivia perto de um lago. Quando o ouriço notava para onde soprava o vento, se lhe eriçava o couro e voltava o lombo para esse lado. Então o homem ia ao lago e dizia aos barqueiros: “O que quereis dar-me se eu vos indico para onde sopra o vento?”, e desta maneira vendia o vento e se fez rico. Assim também o homem na verdade se enriqueceria de virtudes, se examinasse qual era o seu lado mais fraco para se corrigir e fazer um esforço por superar essa fraqueza.

Assim procedeu Santa Isabel com grande empenho. “Tinha contemplado” prudentemente “os caminhos da sua casa”. Por isso “não temia o inverno porque a sua servidão tinha vestimenta dupla” (Prov. 31, 21). Pois andava com olho avizor a respeito a tudo o que podia danificá-la. Em relação às suas fraquezas punha todo o seu empenho por convertê-las em perfeições. Por isso “não comeu ociosamente o seu pão”. Também tinha dirigido para Nosso Deus as suas potências supremas. São três as potências supremas da alma. A primeira é o conhecimento; a segunda a irascibilis, a qual é uma potência tendente para cima; a terceira é a vontade. Quando a alma se entrega ao conhecimento da reta verdade, ou seja, a potência simples na qual se conhece a Deus, então a alma se chama uma luz. E Deus é também uma luz e quando a luz divina se verte na alma, esta é unida a Deus como uma luz a outra. Então se chama a luz da fé e esta é uma virtude teologal. E aonde a alma não pode chegar com os seus sentidos e potências, ali a leva a fé.

A segunda é a potência tendente para cima; a sua obra por excelência é o tender para cima. Assim como é próprio do olho ver figuras e cores, e do ouvido ouvir doces sons e vozes, assim é ação própria da alma tender ininterruptamente para cima com esta potência; mas, se olha para um lado, cai vítima do orgulho, o que é um pecado. Não suporta que haja algo por cima dela. Cremos que nem sequer pode suportar que Deus se encontre por cima dela; quando Ele não se encontra dentro dela, e quando não vive tão bem como Ele mesmo, não pode descansar nunca. Nesta potência Deus é apreendido dentro da alma em quanto seja possível à criatura, e neste sentido se fala da esperança que é também uma virtude teologal. Nela, a alma tem tão grande confiança em Deus que lhe parece que Deus não tem nada em todo o seu ser que não lhe seja possível receber. Diz o senhor Salomão que “a água furtada é mais doce” que outra (Prov. 9, 17). E afirma São Agostinho: Nos resultavam mais doces as peras que roubávamos que as que a nossa mãe nos comprava; justamente porque nos estavam proibidas e vedadas. Assim também lhe resulta mais doce à alma essa graça que ela conquista com especial sabedoria e empenho antes que aquela que é comum a todo o mundo.

A terceira potência é a vontade interior que, qual rosto, sempre está voltada para Deus na vontade divina e dentro de si recolhe de Deus o amor. Aí Deus é conduzido através da alma, e a alma é conduzida através de Deus; e isto se chama um amor divino e é também uma virtude teologal. A bem-aventurança divina reside em três coisas: precisamente no conhecimento com o qual Ele se conhece integralmente, em segundo termo, na liberdade de modo que permanece incompreendido e incoercível para toda a sua criação e finalmente, na completa suficiência com a qual é suficiente para Ele mesmo e para toda a criatura. Pois, a perfeição da alma reside também no seguinte: no conhecimento e na compreensão de que Deus a apreendeu, e na união com o amor cabal. Queremos saber o que é o pecado? Voltar as costas à bem-aventurança e à virtude, disto provém qualquer pecado. Esses caminhos os deve olhar toda a alma bem-aventurada. Por isso “não teme o inverno porque a sua servidão leva posta, também, vestimenta dupla”, como diz dela Isabel a Escritura. Estava vestida de fortaleza para resistir a toda a imperfeição, e adornada com a verdade (Prov. 31, 25 a 26). Esta mulher, para fora, ante o mundo, gozava de riquezas e honras, mas no seu foro íntimo adorava a verdadeira pobreza. E quando lhe faltava o consolo externo, se refugiava com Aquele com quem se refugiam todas as criaturas, e ela desprezava o mundo e a si mesma. Assim conseguiu superar-se a si mesma e desprezava que a desprezassem, de modo que já não se preocupava por isso nem renunciava à sua perfeição. Com o coração puro ansiava que se lhe permitisse lavar e cuidar de pessoas enfermas e sujas.

Que Deus nos ajude para que iluminemos assim os caminhos da nossa casa e que não comamos ociosamente o nosso pão. Amen.