Carregando...
 
Skip to main content

Eckhart Sermon 30



ES29<= Sermão XXX – Praedica verbum, vigila, in omnibus labora. =>ES31

Hoje e amanhã lemos uma palavrinha a respeito de São Domingos, o meu padroeiro, e São Paulo escreve-a na Epístola, e em língua vulgar reza assim: “Prega a palavra, anuncia-a, tira-a para fora, produz-la e dá à luz a palavra!” (Cfr. 2 Timóteo 4, 2).

É muito estranho o fato de que algo emane e, no entanto, permaneça dentro. O fato de que a palavra emana e, no entanto, permanece dentro, é muito estranho; o fato de que todas as criaturas emanam e, no entanto, permanecem dentro, é muito estranho; o que Deus deu e prometeu dar, é muito estranho, e é incompreensível e incrível. E é bom que assim seja; pois, se fosse compreensível e crível, não estaria bem. Deus encontra-se em todas as coisas. Quanto mais está dentro das coisas, tanto mais está fora das coisas: quanto mais dentro, tanto mais fora, e quanto mais fora, tanto mais dentro. Já dissemos várias vezes que neste instante Deus cria todo o mundo. Tudo o que foi criado alguma vez por Deus, há seis mil e mais anos, quando fez o mundo, Deus está a criá-lo agora tudo junto. Ele encontra-se em todas as coisas mas, em quanto Deus é divino e Deus é razoável, não se encontra em nenhuma parte com tanta propriedade como na alma e no anjo, se quiserem, no mais entranhável da alma e no mais elevado da alma. E quando dizemos: “o mais entranhável” referimo-nos ao mais elevado, e quando dizemos “o mais elevado” referimo-nos ao mais entranhável da alma. No mais entranhável e no mais elevado da alma: ali os concebemos a ambos juntos num só. Ali onde nunca entrou o tempo, onde nunca caiu o brilho de uma imagem, no mais entranhável e no mais elevado da alma, cria Deus todo este mundo. Tudo o que Deus criou há seis mil anos, quando fez o mundo, e tudo o que Deus haverá de criar depois de mil anos – desde que o mundo exista durante todo esse tempo – Deus o cria no mais entranhável e no mais elevado da alma. Todo o passado e todo o presente e todo o futuro, Deus o cria no mais entranhável da alma. Tudo o que Deus opera em todos os santos, opera-o no mais entranhável da alma. O Pai engendra o seu Filho no mais entranhável da alma, e engendra-nos junto com o seu Filho unigênito e não em condição inferior. Se tivermos que ser filhos, temos que ser filhos dentro do mesmo ser em que Ele é Filho e em nenhum outro. Se tivermos que ser homens, não podemos ser homens dentro do ser de nenhum animal, temos que ser homens dentro do ser de um homem. Mas, se tivermos que ser este homem determinado, temos que sê-lo dentro desta natureza determinada. Agora bem, São João diz: “Sois filhos de Deus” (Cfr. 1 João 3, 1).

“Diz a palavra, anuncia-a, tira-a para fora, produz-la e dá à luz a palavra!” “Anuncia-a!” O falado de fora para dentro, é coisa grosseira; mas aquela palavra pronuncia-se dentro. “Anuncia-a!”, isto quer dizer: Dêem-se conta de que isto se encontra dentro de vós. Diz o profeta: “Deus disse uma coisa e eu ouvi duas” (Cfr. Salmo 61,12). É verdade: Deus nunca disse senão uma só coisa. O seu dito não é senão um só. Neste único dito pronuncia o seu Filho e ao mesmo tempo o Espírito Santo e todas as criaturas e, no entanto, não há senão um só dito em Deus. Mas o profeta diz: “Ouvi duas”, isto quer dizer, ouvi Deus e as criaturas. Ali onde Deus as pronuncia (às criaturas), ali é Deus; mas aqui (nesta terra) é criatura. A gente imagina que Deus só se tinha feito homem ali (na sua Encarnação histórica). Não é assim, pois Deus aqui se fez homem o mesmo que ali, e se fez homem a fim de nos engendrar a nós como ao seu Filho unigênito e não em condição inferior.

Ontem estávamos sentados num lugar e dissemos uma palavra que se encontra no Pai Nosso e que reza: “Seja feita a tua vontade!” (Mateus 6,10). Mas seria melhor: “Seja tua a vontade!”; para que a nossa vontade chegue a ser a sua vontade, que nós cheguemos a ser Ele: isto é o que o Pai Nosso quer dizer. Esta palavra tem dois significados. Um é: “Durma-se frente a todas as coisas!”, quer dizer, que não havemos de saber nada nem do tempo nem das criaturas nem das representações… Dizem os mestres: Se um homem adormecido profundamente dormisse cem anos, não saberia nada de criatura alguma, nem de tempo nem de imagens… e então poderíamos perceber o que é que Deus opera em nós. Por isso diz a alma no O Livro de Amor: “Durmo e o meu coração está de vigília” (Cantar dos Cant. 5, 2). Portanto, se todas as criaturas dormem no nosso interior, poderemos perceber o que é que Deus opera dentro de nós.

A palavra: “Esforce-se em todas as coisas!” abarca por sua vez três significados. Quer dizer mais ou menos o seguinte: Opere-se o nosso proveito em todas as coisas!, isto significa: Apreenda-se a Deus em todas as coisas!, porque Deus encontra-se em todas as coisas. Diz São Agostinho: “Deus criou a todas as coisas e isto não no sentido de que tenha feito com que chegassem a ser enquanto Ele seguisse o seu caminho, mas sim que permaneceu dentro delas”. A gente imagina que tem mais quando tem as coisas junto com Deus, que no caso de que tenha Deus sem as coisas. Mas, nisto se enganam; porque todas as coisas agregadas a Deus não são mais do que Deus só; e se alguém, tendo o Filho e junto com Ele o Pai, imaginasse que tinha mais que no caso de ter o Filho sem o Pai, estaria enganado. Porque o Pai junto com o Filho não é mais que o Filho só, e o Filho com o Pai também não é mais que o Pai só. Por isso, tome-se a Deus em todas as coisas: esta é uma sinal de que nos engendrou como ao seu Filho unigênito e não em condição inferior.

O segundo significado é o seguinte: Opere-se o nosso proveito em todas as coisas! ou seja: “Amarás a Deus para além de todas as coisas e ao teu próximo como a ti mesmo!” (Cfr. Lucas 10, 27), e este é um mandamento dado por Deus. Mas, dizemos que não só é um mandamento, mas também que Deus o presenteou e prometeu presentear. Se preferirmos cem marcos nossos aos de outro, fazemos mal. Se preferirmos uma pessoa a outra, fazemos mal; e se amarmos mais o nosso pai e a nossa mãe e a nós mesmos que a outra pessoa, fazemos mal; e se preferirmos a nossa bem-aventurança à de outro, fazemos mal. “Livre-nos Deus! O que estais a dizer? Não havemos de preferir a nossa bem-aventurança à de outro?” Há muitas pessoas letradas que não compreendem tal coisa e lhes parece muito difícil; mas não é difícil, é fácil. Mostraremos que não é difícil. Olhem: a natureza persegue duas finalidades com cada membro para que opere no homem. A primeira finalidade que o membro persegue nas suas obras, consiste em servir ao corpo na sua totalidade e depois, a cada membro, por separado, tal como a si mesmo, e não menos que a si mesmo, e nas suas obras não se refere mais a si mesmo que a outro membro. Isto tem muito maior validade para a esfera da graça. Deus deve ser a regra e o fundamento do nosso amor. A intenção primária do nosso amor deve dirigir-se puramente para Deus e depois para o nosso próximo como a nós mesmos e não menos que a nós mesmos. E se amarmos a nossa bem-aventurança mais que a de outro, está mal feito; pois, se amarmos a bem-aventurança mais em nós que em outro, amamo-nos a nós mesmos. Onde nos amamos a nós, Deus não constitui o nosso amor puro, e isso está mal feito. Porque, se amarmos a bem-aventurança de São Pedro e de São Paulo como em nós mesmos, possuímos a mesma bem-aventurança que, também, eles têm. E se amarmos a bem-aventurança nos anjos tanto como em nós mesmos, e se amarmos a bem-aventurança de Nossa Senhora tanto como em nós, gozamos da mesma bem-aventurança, propriamente dita, que ela mesma; pertence-nos o mesmo a nós que a ela. Por isso se diz em O Livro da Sabedoria: “Fez-o similar aos seus santos” (Eclesiástico 45, 2).

O terceiro significado de: Opere-se o nosso proveito em todas as coisas! é este: Amar-se-á a Deus da mesma maneira em todas as coisas!; isto quer dizer: Amamos a Deus tão prazerosamente na pobreza como na riqueza, e tenhamos-lhe tanto amor na enfermidade como na saúde; amamo-lo tanto na tentação como sem tentação e no sofrimento como sem sofrimento. Ah sim, quanto maior o sofrimento, tanto menor o sofrimento; é como dois baldes: quanto mais pesado é o um, tanto mais leve é o outro, e quanto mais se sacrifica, tanto mais fácil se torna o sacrifício. A um homem que ama a Deus, seria tão fácil renunciar a todo este mundo como a um ovo. Quanto mais se sacrifica, tanto mais fácil se torna o sacrifício, como foi com os apóstolos: quanto mais pesados eram os seus sofrimentos, com tanta mais facilidade os suportavam (Cfr. Atos 5, 41).

“Esforce-se em todas as coisas!” quer dizer finalmente: Onde se encontra centrado em múltiplas coisas e noutra parte que não seja o ser nu, puro, simples, aí ponhamos o nosso empenho, quer dizer: “Esforce-se em todas as coisas!”… “cumprindo com o nosso ministério” (Cfr. 2 Tim. 4, 5). Isto equivale a dizer: Levantemos a nossa cabeça!, o qual tem dois sentidos. O primeiro é: Despojemo-nos de tudo o nosso e entreguemo-nos a Deus, então Deus nos pertencerá tal como se pertence a si mesmo e Ele é Deus para nós como é Deus para si mesmo e nada menos. Aquilo que é nosso, não o obtivemos de ninguém. Mas, se o recebemos de alguém, não é nosso, mas sim pertence àquele de quem o recebemos. O segundo significado é: Levantemos a nossa cabeça!, isto é: Dirijamos todas as nossas obras para Deus! Há muita gente que não o compreende e não nos parece surpreendente; porque o homem que o há de compreender, deve estar muito afastado de todas as coisas e muito por cima delas.

Que Deus nos ajude para que cheguemos a esta perfeição. Amen.