CARREIRA DAS NEVES, Joaquim. Escritos de São João. Lisboa: Universidade Católica, 2004
- Análise do Logos no Prólogo do Quarto Evangelho
- A ausência do termo "Logos" como título para Jesus Cristo em outros escritos do Novo Testamento e a apresentação de verdades teológicas sem uma definição explícita por parte do autor implícito.
- A necessidade de contextualização do Logos na composição do quarto evangelho e a compreensão do seu sentido através das escrituras hebraicas e da filosofia teológica de Filão de Alexandria.
- O reconhecimento da Bíblia como uma "palavra" sempre em aberto, com ênfase no Prólogo, e o compromisso de considerar propostas de exegetas recentes e propostas pessoais ao longo do estudo.
- Características literárias distintivas do Prólogo
- O Prólogo como um corpo literário distinto do resto do quarto evangelho, evidenciado por termos exclusivos como "logos", "pleroma" e "charis".
- A interrupção do ritmo poético do hino pela narrativa em prosa sobre João Batista nos versículos 6-8 e 15.
- A existência de variantes textuais significativas na tradição manuscrita, particularmente nos versículos 13 e 18.
- A divergência no versículo 13 entre a leitura no singular, apoiada pela Bible de Jérusalem, que enfatiza a concepção virginal de Jesus: "ele que não foi gerado nem do sangue, / nem de um querer da carne, / nem de um querer do homem, / mas de Deus", e a leitura no plural, majoritária entre comentaristas e traduções, referida aos cristãos.
- A variação no versículo 18 entre as lições "monogenês Theós" (Deus unigênito), "ho monogenês Theós" (o Deus unigênito) e "ho monogenês huiós" (o Filho unigênito), com preferência para a primeira proposta baseada no princípio da leitura mais difícil e nos manuscritos P66, sinaiticus, B, C*, L, siríaco, Ireneu e Orígenes.
- A relação entre o Logos e Jesus Cristo e a teoria das redações do Prólogo
- A discussão entre comentaristas sobre a relação entre o Logos e a pessoa de Jesus Cristo, notando-se que o Logos aparece inicialmente relacionado com Deus, a criação, a vida e a luz, com a oposição dos humanos apenas nos versículos 10-11 e a afirmação explícita da encarnação somente no versículo 14.
- A aparição do nome Jesus Cristo apenas no versículo 17, não diretamente relacionado ao Logos, mas em oposição a Moisés.
- A conclusão de autores sobre múltiplas redações no Prólogo, partindo de um hino ao Logos na linha da literatura sapiencial judaica, similar ao trabalho de Filão de Alexandria, posteriormente cristianizado e utilizado pelo último redator do quarto evangelho como introdução.
- Perspectivas sincrônica e diacrônica para a compreensão do Prólogo e a sua função como abertura narrativa
- O valor da perspectiva diacrônica para compreender a função do Prólogo como hino ao Logos e abertura ao quarto evangelho, apesar da preferência atual por abordagens sincrônicas.
- A importância decisiva do versículo 18 — "Ninguém jamais viu Deus; / Deus unigênito variante: 'o Filho único, Deus...' que está voltado para o seio do Pai /, esse é que o narrou" — como ponto de partida para a narrativa da vida do Logos.
- A interpretação do verbo "exegesato" (aoristo de ex-êgéomai) como "narrar / contar", indicando que as afirmações prévias sobre o Logos se tornarão objeto de uma narrativa que se inicia com as relações entre Jesus e João Batista.
- Características distintivas do quarto evangelho em relação aos Sinópticos
- A diferença fundamental no narrador: nos Sinópticos, um narrador humano; no quarto evangelho, o "monogenês Theós" (unigênito Deus ou unigênito divino/Logos).
- A estrutura do quarto evangelho, compreendida a partir do versículo 18, que abrange as relações entre Jesus Cristo (o Verbo-Logos) e João Batista, Jesus Cristo e o Pai, Jesus Cristo e "os seus" (judeus), e Jesus Cristo e os discípulos.
- A divergência de interesses teológicos: o quarto evangelho não se foca no "Reino de Deus" — mencionado apenas de passagem em 3,3.5 — mas na verdade da salvação que deve ser aceita, oposta à Lei de Moisés e à linha judaica dos batistas de João Batista.
- A origem do quarto evangelho nas comunidades joânicas, vistas como uma "Igreja" dentro da grande "Igreja", e a sua recepção controversa na Igreja "tradicional", sendo por alguns considerada obra do herege Cerinto e associada a gnósticos valentinianos e montanistas no século III.
- Autoria e processo composicional do quarto evangelho
- O consenso entre a maioria dos exegetas de que o quarto evangelho não é obra de João, irmão de Tiago, filho de Zebedeu.
- As diferenças de ordem entre o evangelho de João e os Sinópticos, indicando uma tradição distinta, embora a redação final tente conciliar ambas, conforme evidenciado em narrativas sobre João Batista, adições sobre o Reino de Deus, os Doze, a Eucaristia e a pessoa de Pedro.
- A hipótese de que a primeira camada de João, composta por pequenas unidades de relatos e ditos, não diferiria significativamente das camadas primitivas dos Sinópticos, sustentada pela comparação das narrativas sobre João Batista e pela coleção "primitiva" de milagres.
- A marca teológica, cristológica e histórica do quarto evangelho
- A conclusão de que o quarto evangelho, em sua forma final, possui uma marca própria, na qual a teologia e a cristologia orientam a narrativa e o discurso.
- A contextualização histórica proporcionada pelas referências à expulsão dos judeus messiânicos das sinagogas (9,22; 12,42; 16,2), situando o evangelho após a destruição de Jerusalém e as determinações farisaicas do sínodo de Jâmnia (Jabne).
- A definição do evangelho de João como um ensaio cristão, de acordo com a fé do "Discípulo Amado", com finalidade apologética e teológica para fundamentar a fé joânica perante a descrença dos judeus, justificando a verdade desta fé e desta comunidade.
- A função do Prólogo e da "personagem" do Logos como fonte de toda a revelação sobre a pessoa verdadeira — distinta da pessoa real — de Jesus Cristo, com a qual se funde em osmose de natureza e função.
- A introdução da "personagem" do Paráclito, exclusiva deste evangelho, como aquele que revela o mistério do Logos-Jesus Cristo após a sua morte e ressurreição, até ao fim dos séculos (14,16-17; 14,25-26; 15,26; 16,7-14).