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id da página: 5298 Direita Esquerda

Direita Esquerda

Orientação — DIREITA-ESQUERDA



René Guénon: Excertos da tradução em português de Daniel Camarinha de "A GRANDE TRÍADE"

Essas questões de orientação são, além disso, muito complexas, pois não apenas é preciso ter sempre atenção para não cometer a esse respeito nenhuma confusão entre correspondências diferentes, mas pode ainda suceder que, numa mesma correspondência, a predominância da direita e da esquerda em relação uma com a outra se dê em pontos de vista diferentes. É o que indica muito claramente um texto como este: "A Via do Céu prefere a direita, o Sol e a Lua se deslocam para o Ocidente; A Via da Terra prefere a esquerda, o curso d'água corre para o Oriente; os dispomos igualmente em cima (isto é, um e outro dos dois lados têm direito à preeminência)"1 . Essa passagem é particularmente interessante; primeiro, porque afirma, sejam quais forem, aliás, as razões que ela dê para isso, as quais devem ser, de preferência, tomadas como simples "ilustrações" tiradas das aparências sensíveis, que a preeminência da direita está associada à "Via do Céu" e a da esquerda à "Via da Terra". Ora, a primeira é necessariamente superior à segunda, e, pode-se dizer, é porque os homens perderam de vista a "Via do Céu" que acabaram por se conformar com a "Via da Terra", o que assinala bem a diferença entre a época primordial e as épocas posteriores de degenerescência espiritual. Pode-se ver nisso, em seguida, a indicação de uma relação inversa entre o movimento.do Céu e o movimento da Terra2 , o que está rigorosamente de conformidade com a lei geral da analogia; ocorre sempre isso quando se está diante de dois termos que se opõem de tal modo, que um deles é como um reflexo do outro, reflexo invertido como a imagem de um objeto no espelho o é em relação a esse mesmo objeto, de modo que a direita da imagem corresponde à esquerda do objeto e vice-versa3 .

Aditaremos a propósito uma observação que, embora pareça bastante simples em si mesma, está longe de ser sem importância: é que, principalmente quando se trata da direita e da esquerda, deve-se sempre ter o maior cuidado de determinar em relação a que elas são consideradas. Desse modo, ao falar da direita ou esquerda de uma figura simbólica, queremos dizer com isso as dessa própria figura ou as de um espectador que a olha, colocando-se diante dela? De fato, os dois casos podem apresentar-se: quando se trata de uma figura humana ou de qualquer outro ser vivo, quase não há dúvida sobre o que convém chamar sua direita e sua esquerda. Mas o mesmo não acontece em relação a outro objeto qualquer, uma figura geométrica por exemplo, ou ainda um monumento. Então considera-se mais comumente a direita e a esquerda, situando-se no ponto de vista do espectador4 . Mas isso não é, todavia, sempre assim. Pode acontecer também que se atribua às vezes uma direita e uma esquerda da figura considerada em si mesma, o que corresponde a um ponto de vista naturalmente inverso ao do espectador5 . A falta de precisão nesse sentido, em cada caso, pode nos levar a cometer erros bastante graves a respeito6 .

Roberto Pla: Evangelho de Tomé - Logion 62

Esta afirmação deve ser entendida em vários sentidos, por exemplo, no da mão, como ocorre no evangelho de Mateus, por ser esta, a mão esquerda, símbolo de um instrumento inadequado e (neste caso), demasiado pendente de si mesmo para contender com o ato generoso e esquecido de si mesmo que possa se propiciar pela mão direita, como resultado de um impulso até a unidade trazida pelo conhecimento do Primeiro Mistério.

De igual maneira, na esfera dos mistérios, a consciência psíquica (a esquerda) não está dotada constitutivamente para entender a plenitude da percepção superior do “Cristo em nós” quando esta presença tenha sido alcançada pela consciência do homem pneumático. Em proximidade com isto fala Jesus quando afirmou que “o vento sopra onde quer e ouves sua voz, mas não sabes de onde vem nem aonde vai”. Quem “ouve a voz” é o homem pneumático (da direita) e o que não sabe de onde lhe chega esse som silencioso que como nada, nem para onde caminha, é a alma, a consciência psíquica (da esquerda).

Tal direita e tal esquerda ficam muito bem prefiguradas nas ovelhas e cabritos da synteleia de Mateus, que o Filho do Homem coloca segundo a parábola, em ambos lados de seu trono. à Direita só podem sentar-se quem por haver alcançado a revelação do Primeiro Mistério converteram em realidade, em si mesmos, a riqueza desse Mistério que “Cristo em nós”, quer dizer, todas as ovelhas e também aqueles cabritos que graças ao uso da sabedoria que vem do Mistério foram metamorfoseados (v. allasso; Transfiguração) em ovelhas e imputados como varões pneumáticos.

Agora se compreende o inadequado daquela súplica formulada pelos filhos de Zebedeu quando pediram a Jesus para sentar-se em sua glória, um a sua direita e o outro a sua esquerda. Como advertiu Jesus, isso não era coisa sua concedê-lo, senão para quem está preparado por seu Pai.

No entanto, o cálice de Cristo, o sangue do Cordeiro de Deus derramado sem taça para o beba quem queira bebê-lo como fruto da sabedoria, é, justamente, o tesouro oculto no Mistério que penetra em todo aquele em quem se revelou.

A revelação será então viva, impossível à reflexão incrédula da alma. Assim se disse, com efeito, que será a Vinda: “Como o relâmpago que sai do oriente (direita) e brilha até o ocidente (esquerda). Assim será o Filho do Homem em seu Dia, em sua manifestação de “Cristo em nós”: “Brilhará de um extremo ao outro do céu”, quer dizer, será recebido na totalidade de nosso ser reunificado.


NOTAS:
1 Tcheou-li.
2 Voltaremos a lembrar ainda que o "movimento" é aqui apenas uma representação puramente simbólica.
3 O mesmo acontece, aliás, com duas pessoas colocadas diante uma da outra; por essa razão é que se diz: "adorarás tua direita, onde está a esquerda de teu irmão (o lado de seu coração)" (Phan-khoa-Tu, citado por Matgioi, La Voie Rationnelle, cap. VII).
4 É assim que, na figura da "árvore sefirótica" da Cabala, a "coluna de direita" e a "coluna de esquerda" são as que temos, respectivamente, à direita e à esquerda, quando se olha a figura.
5 Plutarco, por exemplo, conta que "os egípcios consideram o Oriente como o rosto do mundo, o Norte como estando à direita e o Sul à esquerda" (Isis et Osíris, 32; tradução de Mario Meunier, p. 112); apesar das aparências, isso coincide exatamente com a designação hindu do Meio-dia como o "lado da direita", pois é fácil imaginar o lado esquerdo do mundo como se se estendesse na direção da direita daquele que o contempla e vice-versa.
6 Dai vem, por exemplo, no simbolismo maçônico, as divergências que se deram a respeito da situação respectiva das duas colunas colocadas na entrada do Templo de Jerusalém. A questão, porém, é fácil de resolver reportando-se diretamente aos textos bíblicos, desde que se saiba que, em hebreu, a "direita" significa sempre o Sul e a "esquerda", o Norte o que implica que a orientação é tomada, como na Índia, voltando-se na direção do Leste. Essa mesma modalidade de orientação é, aliás, igualmente, a que no Ocidente, praticavam os construtores da Idade Média para determinar a orientação das igrejas.