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id da página: 6373 Ioan Couliano Gnoses Dualistas do Ocidente Ioan Couliano

Couliano Sabedoria

Tradução com notas de Antonio Carneiro

Mito gnóstico 1: a Sabedoria caída

Hipóstases
O mito trabalha com hipóstases. As hipóstases sucedem através da “deificação/ personificação de conceitos abstratos, a elaboração de partes ou poderes divinos em entidades ativas, ou a postulação e sistematização de entidades generativas, abstratas as quais funcionam como arkhai (v. arche), constituintes, ou governantes para nosso cosmo e sua ontologia” (H. S. Wiesner).

A parte do mito gnóstico que Hans Jonas denomina gênese transcendental consiste na multiplicação de hipóstases ou eones, formando o chamado Pleroma ou Plenitude. Pleroma enquanto oposto a Kenoma (Vazio), o espaço caótico “subjacente”; Plenitude em oposição ao Vazio.

Descrição do Mito de Sophia, segundo diferentes Escolas Gnósticas.

Elaboração sobre a Sophia e sua queda, resgatando a origem do mito e algumas interpretações e concluindo com uma "análise e síntese do mito":

As versões analisadas do mito de Sophia oferecem-nos todo um «pacote» de motivações de sua queda, das motivações individuais que nem sempre são perfeitamente idênticas que se combinam com duas ou três para explicar a causa deste acidente trágico. São elas reduzíveis a um denominador comum?

O epiteto Prounicos, que faz alusão à lascívia1 de Sophia (Irineu de Lião, I, 29, 4; 30, 3-4), assim como a denominação de « πόρνη »2 (Segundo Tratado do Grande Set, VII, 50, 28), parecem indicar seu estado de insaciabilidade erótica. Sophia ou Logos são ditos ser jovens (Hipólito de Roma (Hipp), VI,30, 6; Tratado Tripartite, I, 77, 18); dois textos afirmam que Sophia  não tem cônjuge (Irineu 129, 4; Paráfrase de Sem, VII, 21). De todo jeito, ela pensa sem seu cônjuge (Apocrifo de Joao, II, 57, 25 ss), ela quer criar sem ele (A Hipóstase dos Arcontes, II, 94, 4-8) ou sem a ordem do Pai (EPÍSTOLA DE PEDRO A FELIPE, VIII, 135,12), em todo caso ela agiu sem consultar o pleroma (Segundo Tratado do Grande Set, VII, 50, 28). Nas versões  valentinianas (vide: Valentino ou Valentim), ela sobe em direção ao Pai atormentada pela paixão erótica e pela temeridade (Irineu de Lião, 12, 2; Hipólito de Roma, VI, 30, 6); em Irineu de Lião, esta é a causa de sua queda; em Hipólito de Roma, é o fato de querer imitar o Pai e de gerar sem sizígia. Frequentemente, ela olha lá para baixo, ato ilegal (Irineu de Lião, 129, 4) proveniente de sua inexperiência (Tratado Tripartite, Codex I, 77, 18 ss) ou resultado das maquinações de um poder mau3 (Pistis Sophia, 31 p. 28 S.-T.). Entre os Barbelognósticos de Irineu de Lião, a sequência é formada por três motivações individuais: Sophia não tem cônjuge, ela olha para baixo, este ato é ilegal (em relação à seu estatuto no pleroma). No tratado homônimo, Pistis Sophia é objeto da armadilha preparada pelo Tríplice Poder Authadès-“O Arrogante”4 , que, com ajuda de um engodo, a incita à olhar lá para baixo. Até aqui, ela é inocente; mas ela torna-se culpada quando ela desce para ver, sem a permissão de seu cônjuge.

Nos tratados « setianos  », Sophia é um ser andrógino, mais propriamente uma matriz provida de « phallus » que se autofecunda. A coisa passa uma vez por normal (Protenoia Trimorfe, XIII, 45), outra vez é irregular pelo fato de Sophia  agir assim para não ter cônjuge (Paráfrase de Sem, VII, 21). A partir desta copulação com ela mesma, descrita em termos bastante crus, da ausência de um parceiro, de seu estado de insaciabilidade e de curiosidade mórbidas, pareceu-nos lógico concluir que o denominador comum das motivações de sua queda era o autoerotismo (Feminine, 88-90). Na realidade, Irineu de Lião  tinha provavelmente razão; a causa genérica do drama é dupla: erotismo e temeridade, insatisfação e ação ilegal. Juventude, ausência de um cônjuge, insaciabilidade e autofecundação revelam erotismo; subida e descida sem permissão e imitação do poder genésico do Pai fazem parte da esfera da ilegalidade; inexperiência, curiosidade feminina e desejo de conhecer o Pai fazem reaparecer as duas esferas ao mesmo tempo.

Três textos fazem figura à parte. Entre os Ofitas de Irineu de Lião (130,3-4), Sophia-Prounicos, Poder de Esquerda5 e andrógino, é o resultado de um acidente no pleroma: sua queda não foi devida a seu livre arbítrio. O Tratado Tripartite insiste, ao contrário, sobre a liberdade de Logos, acentuando totalmente a parte da responsabilidade de seus superiores a qual a omnisciência fica assim salva, mas a consciência é evidentemente queimada. Enfim, o mito do Éden-Israel, esposa do demiurgo Elohim no Livro de Baruch  do gnóstico Justino (Hipp, V, 24, 14 ss), recombina de uma maneira diferente os elementos presentes no mito de Sophia, para descrever uma mesma situação de decadência do mundo e do homem, causada por uma entidade feminina decaída, insatisfeita e desequilibrada.

O relato do Jardim do Éden forma um complemento importante do mito de Sophia: longe de romper esta impressão de unidade que suas variantes não deixam de dar, indica claramente que a fábula não é senão um instrumento para transmitir alguns dados essenciais invariáveis.

Condensado do mito de Sophia

Em justapondo todas as variantes do mito de Sophia, sem separar nenhuma, nós obteremos a epitome seguinte, que difere dos relatos transmitidos pelas fontes naquilo que ela ocupa em relação da inclusão dos componentes da sequência da queda que, sem nunca se excluir reciprocamente, são em relação de e/ou uma dirigida à outra:

Uma entidade quase exclusivamente feminina se encontra em uma situação irregular. Em um caso singular, esta situação é produzida por falha de sua Mãe (falha descrita em termos sexuais). Em todos os outros casos, Sophia ela própria é responsável disso. Ela é jovem, sem experiência. Ela é lasciva, insaciada, « πόρνη ». Ela não tem cônjuge. Ela pensa, age, quer criar sem cônjuge ou sem consentimento de seu Pai  ou de seus superiores. Ela está curiosa por seu Pai que se encontra fora de sua alçada e sobe para fazer seu conhecimento; onde do abismo do universo: ela olha lá para baixo e desce para cair na armadilha preparada pelos seres cruéis. Ela se autofecunda em vez de copular com um companheiro. Ela é animada pela ideia de vingança dirigida ao esposo que a abandonou. De todo jeito, seu desequilíbrio se deixa descrever em termos de insatisfação erótica, curiosidade feminina desmedida, ignorância da ordem patriarcal que reina na família em que ela é a última criação6 : complexo juvenil onde se misturam frustração, revolta, inveja, autoerotismo e angústia de separação (abandono).

Seu pensamento, sua ação e a dúvida que esta suscita, tem por resultado o nascimento de um aborto: o demiurgo do mundo daqui embaixo. Num caso singular, o desequilíbrio que segue sua frustração provoca uma deterioração radical das condições do mundo, que não é « malvado » em si, mas simplesmente inferior. A aparição do mundo ou sua degradação são resultados da crise da personagem feminina.

Após ter constatado as consequências deletérias de seu ato, a personagem se arrepende, faz um pedido de desculpas7 , é ajudado por sua família e se apressa para ser reintegrado no seu domicílio e nos seus direitos. Em particular, ela é o fator ativo que ajuda o gênero humano a suportar a condição de decadência que ela mesmo acabou de provocar.

A condensar todos esses dados, pode-se caracterizar como segue o mito de Sophia:

Uma personagem feminina está em crise erótica e se revolta, com razão ou não, contra a ordem patriarcal de sua família. À continuação de suas ações, um mundo inferior, habitat desconfortável do homem, virá a ser ou será deteriorado às despensas da humanidade. A personagem feminina fará um pedido de desculpas8 , ajudando a humanidade à suportar as malvadas consequências de seu próprio comportamento.


NOTAS:

1 “Quase todos os grupos gnósticos [...] distinguiam a Sofia superior, Mãe celeste, e a Sofia inferior, à qual chamavam ora Sofia Achamoth, ora Sofia Prounicos (“a Lasciva”), porque consideravam desejo sexual o seu desejo de luz — p. 59 In: História da filosofia oculta, Sarane Alexandrian, Portugal: Lisboa, Edições 70, coleção Esfínge, s.d., original francês: “Histoire de la philosophie oculte”“Histoire de la philosophie oculte”, Seghers (Payot), 1983 (2008), 390 p., ISBN-10: 2221011228 (2228903728), tradução por Carlos Jorge Figueiredo Jorge.)
2 Na ausência da palavra original em copta, foi escolhida para esse texto a palavra em grego « πόρνη » (pornÄ“), poderia ter sido também « zônah » em hebreu, embora no texto em francês estivesse « Putain », que no Larousse virtual é equivalente a: « Qui cherche à séduire tout le monde », cuja tradução literal seria: « Que procura seduzir todo o mundo », para tradução em inglês no Nag Hammadi foi adotada « whore » que significa: « 1) a woman who sells her body for sexual uses: a) a prostitute, a harlot, one who yields herself to defilement for the sake of gain, b) any woman indulging in unlawful sexual intercourse, whether for gain or for lust. 2) metaph. an idolatres », a escolha pela palavra grega foi uma forma de minimizar o impacto da palavra equivalente em idioma nacional por não refletir o sentido impregnado do significado da palavra original.
3 Em francês “puissance mauvaise”. Conforme “Le Traité Tripartide” (vide: Tratado Tripartite), tradução do copto por Louis Painchaud e Einar Thomassen, (NH I,5; 107,10), “[ . . . . .  ] 10 . . . . pelo “poder malvado” (“puissance mauvaise”) chamado de serpente. É de fato o mais matreiro de todos os “poderes malvados” (“puissances mauvaises”). Enganou o homem, por ordem daqueles que pertencem ao pensamento (presunçoso) 15 e aos desejos, e lhe fez transgredir o mandamento afim de que morresse. E homem foi afastado de todas as delícias desse lugar.” In: “Le Traité Tripartide”. Vide também: Poimandres Divinização § 6°”... “Objetivamente, ... que os doze poderes malvados (“puissances mauvaises”) vão ser substituídos por ...” 
4 ”... apareceu Authades (= Aquele que se compraz em si, o presunçoso). Pois, quando ela deixou uma porção dela mesma, Authades se apossou disso, e isso se tornou uma deficiência. Tal é a Deficiência dos Eons. E quando Authades recolheu uma porção, ele a semeou e estabeleceu os Poderes (“Puissances”) sobre ela e as Autoridades, e a aprisionou entre os Eões mortos. E eles, todos os Poderes (“Puissances”) do mundo, se regozijassem de terem sido engendrados. Entretanto, eles não conheciam Aquele que é pré-existente, uma vez que eles lhe são estrangeiros. Mas, é aquele lá Authade que foi dotado de poder (“puissance”) e celebrado pelos louvores! Ora, ele, Authades se vangloriava do louvor dos Poderes (“Puissances”). Ele torna-se falsificador (Em francês “contrefacteur”, vide: Antimimon penuma, 1ª. frase do texto e ss.) e quis modelar imagem por imagem e forma por forma. E encarregou os Poderes (“Puissances”) sob sua autoridade de modelar os corpos mortos. E estes concluíram sobre suas origens de uma falsificação (“contrefaçon”) da ideia pré-existente. In: “La Lettre de Pierre a Philippe (NH VIII, 2, 150), traduit du copte par Jacques E. Menard, revisé par Jean-Pierre Mane, Bibliothèque copte de Nag Hammadi”. (Vide: EPÍSTOLA DE PEDRO A FELIPE, In: Primeiro ponto: a Deficiência dos Eões.)
5 Em francês « Puissance de Gauche » vide: La Religion Gnostique, le message du Dieu Étranger et le début du christianisme; Hans Jonas; traduit d’anglais par Louis Evrard; Paris, Ed. Flammarion, collection Idées et Recherches dirigé par Yves Bonnefoy, 1978, 506 p., ISBN-10: 2082107108. IN: Deuxième Partie: Systèmes de Pensées Gnostiques, Chapitre VIII: La spéculation valentinienne, II. Le Système: Origine des éléments, ... (Irinée, I, 5, 4), nota 2: ... Le Démiurge provient ici de l’affection de crainte, et de la sorte, il relève entièrement de la « puissance de gauche » de l’âme (códex VI, 32,6 sq) pp. 248-249. Disponível em: fr.scribd.com/doc/125378382/Hans-Jonas-La-religion-gnostique-scanne. (Vide: Hans Jonas).
6 Em francês “dernière-née” cujas traduções podem ser: 1. última filha, filha mais nova; 2. Fig. último modelo, última criação, incluída esta por ser a mais apropriada
7 ”No texto em francês: “amende honorable”.
8 ”No texto em francês: “amende honorable”.