COULIANO, Ioan P. Expériences de l’extase: extase, ascension et récit visionnaire de l’hellénisme au Moyen Age. Paris: Payot, 1984
As mentes mais eminentes da época de Basilides, Numênio, Celso e os dois Julianos (o Caldeu e seu filho, Teurgo) estavam preocupados com uma questão que encontrará pouca compreensão e ainda menos indulgência entre nós: como a alma desce do céu para se encarnar em um invólucro mortal e por qual caminho ela retorna à sua pátria celestial? Os escritos herméticos e gnósticos e, mais tarde, o neoplatonismo, de Plotino a Proclus, compartilham o interesse pelo mistério fundamental do nascimento e seu equivalente oposto, a morte. Pois se o nascimento é uma "inclinação" ou descida em direção à terra, a morte só pode ser o seu oposto: uma subida pela mesma rota, até o local de origem da alma indestrutível.
A doutrina varia de acordo com as correntes espirituais e os autores em questão. Para A. J. Festugière, existem duas variantes principais: uma variante "demonizada", encontrada no hermetismo e no gnosticismo, que pressupõe a aquisição gradual, pela alma, de vícios planetários durante sua descida e sua remoção durante a subida; e uma variante "normal", encontrada principalmente no neoplatonismo, em que a alma adquire qualidades nas esferas durante a descida, apenas para se despir delas durante a subida.
Em geral, os textos tratam de apenas um momento no processo de cosmização-descosmistificação da alma, já que o outro momento apenas reverte o curso do primeiro, sem mudar sua estrutura.
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A Doutrina da Alma Adventícia em Basilides e Isidoro
- Basilides, um cristão erudito de Alexandria do século II d.C., e seu filho Isidoro, propuseram uma variante "demonizada" da doutrina da alma.
- Para Basilides, o pneuma transcendente do homem está ligado a uma psique adventícia (acidental) que pertence ao cosmos.
- Os vícios cósmicos atacam esta alma e incrustam-se nela sob a forma de excrescências ou "apêndices" (prosartemata).
- Isidoro, autor de um tratado Sobre a Alma Adventícia, deve ter sustentado uma concepção similar.
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A Doutrina das Duas Almas em Jâmblico e sua Fonte Hermética
- Jâmblico, seguindo escritos herméticos, expõe a doutrina de que o homem possui duas almas:
- Uma alma originária do Primeiro Intelligível, que participa também do poder do demiurgo.
- Outra alma introduzida a partir da revolução dos corpos celestes (os planetas); é nesta que a alma que vê a Deus se infiltra.
- A alma que desce dos mundos celestes acompanha a revolução desses mundos, enquanto a alma proveniente do inteligível é superior ao ciclo dos nascimentos e é por meio dela que, libertos do fatum (destino), remontamos aos deuses inteligíveis.
- A teurgia que se eleva ao inengendrado realiza-se através desta última vida.
- Jâmblico distingue entre deuses cósmicos e hipercósmicos, sendo estes últimos os "libertadores da alma", encarregados de libertá-la das garras da fatalidade astral.
- Jâmblico, seguindo escritos herméticos, expõe a doutrina de que o homem possui duas almas:
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A Noção de Fatalidade Astral (Heimarmene) e seu Determinismo
- A noção de heimarmene (fatalidade astral) no hermetismo e no gnosticismo não tinha um significado abstrato, mas representava uma influência inexorável e implacável dos planetas sobre o destino biológico e histórico do homem.
- O determinismo astral era rigoroso, e a doutrina da descida da alma através das esferas planetárias fornecia-lhe uma justificação filosófica e psicológica igualmente rigorosa.
- Este determinismo tem um correlato mitológico na aventura redentora de um "salvador", que poderia ser o Anthropos hermético, o Cristo gnóstico ou o Salvador de certas apocalipses e lendas cristãs periféricas.
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O Cenário Hermético da Incorporação do Homem Primordial
- A história da incorporação (ensomatosis) do Homem primordial hermético segue um cenário específico:
- O Homem ideal, devido a uma queda (cujo princípio comum é o eros), cai no mundo da matéria.
- Durante a queda, reveste primeiro um corpo astral ou pneumático (ochema), que serve de veículo para o noûs (que não pode ter contacto direto com a matéria).
- Ao atravessar as sete esferas planetárias (ou os doze signos zodiacais), reveste-se, como se fossem túnicas, dos vícios dos sete planetas (ou dos arcontes que as presidem).
- É assim maculado que se encarna finalmente num corpo terrestre e se une à natureza material.
- Esta reconstrução de Festugière parte do postulado de que todos os testemunhos da doutrina da descida da alma provêm do hermetismo.
- A história da incorporação (ensomatosis) do Homem primordial hermético segue um cenário específico:
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O Cenário Gnóstico da Descida do Cristo Redentor
- Um cenário similar existia no gnosticismo, ilustrado pela descida do éon Cristo na doutrina dos Ofitas segundo Irineu.
- O Cristo desce através dos sete céus, assimilando-se aos filhos dos arcontes, e evacua gradualmente a força (virtutem) dessas potências más da fatalidade astral.
- Ao anular o fatum no sentido mais físico, o Cristo cria uma brecha pela qual a alma do adepto poderá elevar-se livremente até ao pleroma.
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O Caso Especial da Ascensio Isaiae e sua Doutrina Protognóstica
- A apocalipse judaico-cristã Ascensio Isaiae (século I d.C.) revela uma situação especial, possivelmente contendo uma doutrina protognóstica, embora o texto possa ter sido remodelado por gnósticos posteriores.
- Um passo do apócrifo enuncia uma ideia tipicamente gnóstica: a arrogância aliada à ignorância do chefe dos arcontes.
- A descida do Salvador na Ascensio Isaiae não implica a evacuação da força dos anjos maus, mas indica que a direção "para baixo" comporta uma negatividade ontológica, uma deficiência crescente em relação ao "alto", o Pai.
- Para os cristãos, o principal adversário era a Morte, enquanto para os gnósticos eram os arcontes maus dos céus planetários, distribuidores da fatalidade astral e guardiões do caminho para o pleroma.
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A Identificação dos Sete Arcontes Gnósticos com as Divindades Planetárias
- Vários textos indicam que os sete arcontes gnósticos eram divindades planetárias.
- Irineu afirma isso expressamente para os Ofitas: "a sagrada hebdomade são as sete estrelas que chamam planetas".
- Os nomes dos arcontes listados (Ialdabaoth, Iao, Sabaoth, Adonaeus, Elohaeus, Oraeus, Astaphaeus) correspondem aproximadamente à lista de Celso (Ialdabaoth, Iao, Sabaoth/Adonaios, Astaphaios, Ailoaios/Elohim, Oraios).
- Ialdabaoth, representado com cabeça de leão, é identificado a Saturno, estabelecendo assim as correspondências entre arcontes e planetas.