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id da página: 9831 Henry Corbin – No Islame Iraniano II – Sábio Oriental Henry Corbin

Corbin Sabio Oriental


CORBIN, Henry. En Islam iranien: aspects spirituels et philosophiques II. Paris: Gallimard, 1991

Ishraq e a qualificação do Sábio Oriental

  • O sentido espiritual de "Oriental": O termo ishraqi ("oriental") não possui uma conotação geográfica, mas sim uma natureza espiritual. Ele qualifica um modo supremo de conhecimento, associado à iluminação (ishraq) e à visão de luz (photisme), que transcende as aparências do mundo físico.
  • A herança espiritual persa: Sohrawardi se refere à sabedoria dos antigos Sábios persas (Ahl Fars) como a base de sua teosofia. Para ele e seus comentaristas, a sabedoria desses Sábios era uma percepção espiritual (kashfiya dhawqiya) baseada na experiência íntima, em contraste com a dialética racional dos peripatéticos da escola de Aristóteles.
  • O significado de ishraq: O termo ishraq designa o "amanhecer" ou "nascer do sol", simbolizando a manifestação primordial do ser e a fulguração de Luz na consciência. É o instante em que a alma atinge o conhecimento de Si, ou seja, o momento em que se revela a si mesma. A "conhecimento oriental" (ilm ishraqi) é, portanto, a aurora do próprio conhecimento.
  • A dualidade do ser e a crítica ao dualismo: A doutrina oriental dos dois princípios, Luz e Trevas, é vista como um simbolismo para o Ser necessário e o ser não-necessário. A intenção de Sohrawardi e dos Sábios da antiga Pérsia não era afirmar um dualismo radical e co-eterno, mas sim expressar a bipolaridade essencial de todos os seres. Essa interpretação sutil distingue a verdadeira sabedoria dos Magos de sua versão dualista e desviada, como a de Mani.
  • A busca do Oriente (istishraq): A busca do sábio pela "conhecimento oriental" é um peregrinar místico, uma "questão do Oriente" (istishraq) através de múltiplos estados de existência. Essa jornada é uma ascensão hierática de um mundo para outro, de aurora em aurora, até a união final com a Luz.

Conhecimento presencial e a hierarquia das luzes

  • Conhecimento presencial (ilm huzuri): A "conhecimento oriental" não é um saber teórico ou abstrato. É uma metamorfose do ser, um conhecimento presencial (ilm huzuri) onde o sujeito conhece o objeto por sua própria presença, e não por uma representação. Este conhecimento é o próprio amanhecer do ser, a presença que o sujeito é para Si mesmo.
  • A cosmologia das luzes: No ápice da hierarquia do ser, irradia a Luz das Luzes (Nur al-Anwar), cuja essência é o Xvarnah (Luz de Glória) zoroastriano. Desta Luz, emanam hierarquias de inteligências arcangélicas (Anwar qahira), como Vohu-Manah/Bahman, através de um processo de iluminação e reflexão que se repete em todos os níveis do ser. Essa relação original é a Fonte e o arquétipo do amor primordial.
  • Os Orientes espirituais: Sohrawardi estabelece uma topografia esotérica dos universos. O Oriente Maior (al-sharq al-akbar) é o Jabarut (mundo das inteligências puras), e o Oriente Menor (al-sharq al-asghar) é o Malakut (mundo das almas). O mundo físico (molk) é o Ocidente onde as almas declinam. A ascensão da alma é um movimento de retorno, do Ocidente para os Orientes, passando pelo Oriente Médio (al-sharq al-awsat), ou "oitavo clima".
  • A realidade do mundo imaginal: O Oriente Médio é o mundo intermediário (mundus imaginalis), a realidade de todas as formas suprassensíveis. Diferente da "imaginação" (fantasia) ocidental, o mundo imaginal tem sua própria realidade ontológica e é o lugar onde ocorrem eventos como revelações proféticas e visões místicas. Sohrawardi é creditado como o primeiro a sistematizar a ontologia desse mundo, que escapa à dicotomia entre "mito e história".
  • Metamorfose do ser: A conhecimento oriental transforma o ser do adepto, conferindo-lhe a capacidade de separação (tajarrod) do corpo físico. O sábio mota'allih pode se despir do corpo como uma túnica e "subir" para a Luz. Essa imaterialização concede à alma uma "dominação da Luz" (tasallot ishraqi), permitindo-lhe atuar sobre a matéria e criar de acordo com a sua vontade.
  • A busca do conhecimento: A busca por essa sabedoria é uma jornada pessoal e intransferível. Sohrawardi a descreve como uma conversa visionária com Aristóteles, que lhe ensina que a verdadeira sabedoria não é teórica, mas uma presença real que reside na essência do próprio ser e se manifesta como luz e autoconsciência.

A herança espiritual e a morte do intelecto

  • O declínio da sabedoria: A filosofia peripatética e a teologia escolástica são vistas como um desvio da verdadeira sabedoria. Para Sohrawardi, a "morte" do intelecto puro na filosofia moderna levou a uma perda da capacidade de contemplação metafísica.
  • A ressurreição da tradição: A obra de Sohrawardi é um esforço para ressuscitar a Tradição primordial, que ele localiza nos Sábios da antiga Pérsia, nos neoplatônicos e nos sufis. Sua sabedoria não é uma novidade, mas uma redescoberta da sabedoria eterna (religio perennis), que se manifesta de forma cíclica ao longo da história.
  • A "religião do homem": Sohrawardi, como outros pensadores tradicionais, critica a mentalidade moderna, que substituiu o "culto de Deus" pelo "culto do Homem" e suas idolatrias, como a Ciência e o Progresso. Essa nova "religião" é vista como uma pseudo-religião, que perdeu a perspectiva esotérica e se limita ao mundo material.
  • A Bíblia como texto esotérico: A crítica de Sohrawardi à exegese histórica e filológica da Bíblia reflete sua própria abordagem, onde o texto é visto como um repositório de verdades espirituais (teofanias) que não podem ser compreendidas por métodos puramente racionais. A história de Israel, o Êxodo e a vinda de Cristo são eventos com um significado simbólico e apocalíptico que se repetem na jornada espiritual individual.
  • O "conhecimento oriental" como uma via de salvação: A metafísica de Sohrawardi oferece uma via para escapar do mundo das aparências e da dualidade. Ao realizar o Conhecimento presencial, a alma atinge a não-dualidade (advaita), superando a distinção entre sujeito e objeto e participando da realidade transcendente do Ser. Isso é o oposto das ilusões e aberrações da mentalidade moderna, que se perde na relatividade, no subjetivismo ou no materialismo.