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Como Proceder Tentação

Tanquerey — Compêndio de Teologia Ascética e Mística


CAPÍTULO V — LUTA CONTRA AS TENTAÇÕES (cont.)

III. Como proceder na tentação


Para triunfar das tentações e fazê-las servir ao bem espiritual da nossa alma, três coisas principais se devem observar: 1. prevenir a tentação; 2. combatê-la vigorosamente; 3. agradecer a Deus depois da vitória, ou levantar-se após a queda.

911. 1. Prevenir a tentação. Conhecemos o provérbio: Mais vale prevenir que remediar; é também o que aconselha a sabedoria cristã. Quando Cristo Senhor Nosso conduziu os três apóstolos ao jardim das Oliveiras, disse-lhes: «Vigiai e orai, para não entrardes em tentação: vigilate et orate ut non intretis in tentationem»; vigilância e oração, eis, pois, os dois grandes meios de prevenir a tentação.

912. A) Vigiar é estar de atalaia em torno da própria alma, para não se deixar colher de sobressalto. E é tão fácil sucumbir num momento de surpresa! Esta vigilância implica duas disposições principais: desconfiança de si mesmo e confiança em Deus.

a) É, pois, necessário evitar a presunção orgulhosa que nos lança para o meio dos perigos, a pretexto de que somos assaz fortes para deles triunfar. Foi o pecado de S. Pedro que, no momento em que Jesus predizia a fuga dos apóstolos, exclamava: «Ainda quando sejais para todos uma ocasião de queda, para mim nunca o sereis». Reflitamos, pelo contrário, que aquele que julga estar de pé deve ter cuidado, não vá cair: «Itaque qui se existimat stare, videat ne cadat»; porque, se o espírito está pronto, a carne é fraca, e segurança não se encontra senão na desconfiança humilde da própria fraqueza.

b) Mas devem-se evitar igualmente esses vãos terrores que não fazem senão aumentar o perigo; é bem verdade que somos fracos por nós mesmos, mas invencíveis naquele que nos conforta: «Deus que é fiel não permitirá que sejais tentados mais do que podem as vossas forças; antes fará que tireis ainda vantagem da mesma tentação, para a poderdes suportar».

c) Esta justa desconfiança de nós mesmos faz-nos evitar ocasiões perigosas, tal companhia, tal divertimento, etc, em que a nossa experiência nos mostrou que nos vimos expostos a cair. Combate a ociosidade, que é uma das ocasiões mais perigosas (n. 885), bem como essa moleza habitual, que afrouxa as energias da vontade e a prepara a todas as capitulações. Tem horror desses fúteis devaneios que povoam a alma de fantasmas que não tardam a tornar-se perigosos. Numa palavra, pratica a mortificação sob as diferentes formas que assinalamos (n. 767-817), e aplica-se aos deveres de estado, à vida interior e ao apostolado. E, então, no meio desta vida intensa, resta pouco lugar para tentações.

d) A vigilância deve exercer-se especialmente sobre o ponto fraco da alma, visto ser geralmente desse lado que vem o assalto. Para fortificar esse ponto vulnerável, é lançar mão do exame particular, que por tempo notável concentra a atenção sobre esse defeito, ou melhor ainda sobre a virtude contrária {n. 468).

913. B) à vigilância é preciso ajuntar a oração, que, colocando a Deus do nosso lado, nos torna invencíveis. Afinal, Deus acha-se interessado em nossa vitória, porque é a Ele que o demônio quer atingir em nossa pessoa, é a sua obra que ele quer destruir em nós; podemos invocá-lo com santa confiança, seguros de que Ele nada mais deseja que socorrer-nos. Contra a tentação é boa toda a oração: vocal ou mental, privada ou pública, sob forma de adoração ou de petição. É bom, sobretudo nas horas de paz, orar para o tempo da tentação. No momento em que esta se apresenta, não há mais senão elevar rapidamente o coração a Deus, para resistirmos com mais vigor.

914. 2. Resistir à tentação. Esta resistência será diversa conforme a natureza das tentações. Há umas que são frequentes, mas pouco graves: para essas a melhor táctica é o desprezo, como tão bem explica S. Francisco de Sales.

«Quanto a essas pequenas tentações de vaidade, suspeitas, tristeza, ciúme, inveja, afeiçõezinhas e outras semelhantes ninharias, que, como moscas e mosquitos, nos andam passando por diante dos olhos, e umas vezes nos picam nas faces, outras no nariz... a melhor resistência que lhes podemos fazer é não nos afligirmos; porque nada disto nos pode causar dano, ainda que nos pode enfadar, contanto que tenhamos firme resolução de querer servir a Deus. Desprezai, pois, estes pequenos assaltos e não vos ponhais nem sequer a considerar o que querem dizer; deixai-os zunir ã roda dos ouvidos, quanto quiserem... como se faz com as moscas».

Aqui ocupamo-nos sobretudo das tentações graves: é preciso combatê-las prontamente, energicamente, com constância e humildade.

A) Prontamente, sem discutir com o inimigo, sem hesitação alguma; ao princípio, como a tentação não firmou ainda o pé sòlidamente em nossa alma, é bastante fácil rechaçá-la; se esperarmos que lance raízes na alma, será muito mais difícil. Por conseguinte, nada de parlamentar com o tentador; associemos a ideia de prazer ilícito a tudo quanto há de mais repugnante, a uma serpente, a um traidor que nos quer apanhar de sobressalto, e lembremo-nos da palavra dos nossos Livros Santos: «Foge dos pecados como da vista duma cobra; porque se te aproximares deles, apoderar-se-ão de ti, quasi a facie colubri fuge peccata». E foge-se, orando e aplicando o espírito a qualquer outro assunto.

915. B) Energicamente, não com moleza e como de má vontade, o que pareceria convidar a tentação a voltar; mas com força e vigor, testemunhando o horror que tal proposição nos causa: «arreda, Satanás, vade Satana». É, porém, diversa a táctica que se deve empregar segundo o gênero de tentações. Se se trata de prazeres atraentes, é necessário afastar-se e fugir, aplicando fortemente a atenção a um assunto diferente, que nos possa absorver o espírito; a resistência direta não faria geralmente senão aumentar o perigo. Se a tentação é repugnância em cumprir o próprio dever, antipatia, ódio, respeito humano, o melhor é muitas vezes afrontar a tentação, considerar francamente a dificuldade, de rosto, e apelar para os princípios da , para dela triunfar.

916. C) Com constância: é que às vezes a tentação vencida por um instante, volta com novo furor, e o demônio reconduz do deserto sete espíritos piores do que ele, A esta pertinácia do inimigo é mister opor resistência não menos tenaz: quem combate até o fim é que ganha a vitória. Mas então, para haver maior segurança de triunfar, importa dar a conhecer a tentação ao diretor espiritual.

É este o conselho que dão os Santos, em particular S. Inácio e S. Francisco de Sales: «porque notai, diz este último, que a primeira condição que o maligno propõe à alma que quer enganar, é o silêncio, como fazem aqueles que querem seduzir as mulheres e as donzelas, que por entrada proíbem que elas comuniquem as propostas aos pais ou maridos; pelo contrário, Deus, em suas inspirações, requer sobre todas as coisas que as façamos reconhecer pelos nossos superiores e diretores». E na verdade, parece que anda vinculada uma graça especial a esta manifestação da consciência: tentação descoberta é tentação meio vencida.

917. D) Com humildade: é ela, efetivamente, que atrai a graça, e a graça é que nos dá a vitória. O demônio, que pecou por orgulho, foge diante dum ato sincero de humildade, e a tríplice concupiscência (pleonexia, epithymia) , que tira a sua força da soberba, é facilmente vencida, quando, por assim dizer, a decapitamos pela humildade.

918. 3. Após a tentação, é necessário evitar minucioso exame sobre se consentimos ou não: esta imprudência poderia fazer voltar a tentação e criar novo perigo. E depois, é muito fácil ver, pelo testemunho da consciência, sem profundo exame, se ficamos vitoriosos.

A) Se tivemos a felicidade de triunfar, demos graças de todo o coração Àquele que nos deu a vitória: é um dever de gratidão e o melhor meio de obter novas mercês em tempo oportuno. Ai! dos ingratos que se atribuíssem a si mesmos a vitória, sem pensarem em dar graças a Deus! Não tardariam em experimentar a sua fraqueza.

919. B) Se, pelo contrário, tivéssemos a infelicidade de sucumbir, não percamos a coragem; lembremo-nos do acolhimento feito ao pródigo, e como ele vamos lançar-nos aos pés do representante de Deus, com este grito do coração: Pai, pequei contra o céu e contra vós; já não sou digno de ser chamado vosso filho -. E Deus, mais misericordioso ainda que o pai do pródigo, nos dará o ósculo de paz e restituirá a sua amizade.

Mas, para evitar recaídas, tirará vantagem o pecador arrependido da própria falta, para se humilhar profundamente na presença de Deus, reconhecer a sua impotência para praticar o bem, colocar toda a sua confiança em Deus, tornar-se mais circunspecto, evitando cuidadosamente as ocasiões de pecado, e voltar à prática da penitência. Uma falta assim reparada não será obstáculo sério à perfeição. Como nota com razão S. Agostinho, os que assim se levantam, tornam-se com a queda mais humildes, mais prudentes, mais fervorosos: «ex casu humiliores, cautiores, ferventiores».