MOPSIK, Charles. Les grands textes de la Cabale: les rites qui font Dieu : pratiques religieuses et efficacité théurgique dans la Cabale, des origines au milieu du XVIIIe siècle. Paris: Verdier, 1993
A religião judaica se perpetuou por práticas concretas ao invés de por meio de uma doutrina religiosa estabelecida. Esta proeminência social dos ritos sobre as representações, sem cessar reafirmada, não entrava de modo nenhum, como um cliché amplamente espalhado o deixa crer, elaborações intelectuais numerosas, fecundas e de um amplo alcance histórico. Se os sistemas de pensamento que se formaram a partir delas nunca se fixaram sob a forma de doutrinas teológicas tais como se as encontra no cristianismo e no islamismo, é talvez porque estes sistemas deviam necessariamente conceder um lugar essencial às práticas religiosas, de que eles deviam tratar sob pena de nulidade, e esta posição crítica da questão dos ritos tendeu a relativizar, de forma quase mecânica, toda outra consideração. Mas esta relativização das crenças em relação às práticas fez destas um desafio ideológico capital. Ao lado das discussões jurídicas se desenvolveu um discurso espiritual nutrido por uma reflexão aprofundada sobre as normas de culto. Estas últimas foram a matéria e o fermento de especulações ricas, estendidas e variadas. O domínio do rito foi um extraordinário laboratório de ideias. Ele teve um papel heurístico de primeiro plano e foi a origem de uma imensa literatura religiosa. Aqueles que tentavam descobrir a significação dos ritos, eram também aqueles que tinham uma experiência prática cotidiana. Como não era a fé que salvava mas as obras, era preciso compreender por que e como estas, e cada uma delas por sua própria parte, podiam trazer a salvação. A questão prejudicial de sua eficácia não podia se propor, ou quando ela foi proposta, ela desencadeou uma grave crise que pôs em perigo o equilíbrio da sociedade judaica e provocou gigantescas polêmicas. Uma vez admitido o postulado de sua eficácia, restava a estabelecer sua natureza e suas formas. Um trabalho sistemático foi empreendido neste sentido por uma corrente de pensamento chamada cabala, que, partindo do sul da França no fim do século XII e sobre a base de tradições antigas, colocou desde o começo a questão dos mandamentos religiosos no centro de suas preocupações. Uma imensa literatura se acumulou ao fio dos séculos e porta o testemunho de uma atividade intelectual ao mesmo tempo centrada sobre a significação e a função dos ritos e levada, pela consideração deste problema, a rever constantemente os sistemas de pensamento que ela elaborava. Questão vital para uma religião como o judaísmo, a natureza da eficácia das observâncias com seus múltiplos campos de aplicação encontrou nos desenvolvimentos da cabala respostas que não eram mais apenas pontuais, mas participavam de pleno direito de uma estrutura doutrinal que concebia as práticas religiosas como uma parte essencial de sua própria substância e não como de simples apêndices oferecendo alguns escoamentos concretos a suas especulações. Componentes estruturais e estruturantes de um discurso espiritual que se queria total e se identificava com a religião judaica em todos seus aspectos, as «razões dos mandamentos» diziam respeito tanto à escatologia celeste da alma, suas migrações terrestres, a imitação de Deus e dos símbolos divinos, a união do indivíduo e da sociedade à divindade, o acolhimento das orações, o respeito das leis da criação e da ordem cósmica, a salvaguarda da forma humana criada à imagem de Deus e sua reprodução através das gerações, a proteção contra as forças do mal e sua eliminação, e enfim e sobretudo a ação sobre a divindade mesma.
Embora nossa intenção primeira fosse a de tratar o conjunto destes assuntos, nos pareceu muito rapidamente que seu estudo exigiria vários volumes. Nós decidimos nos orientar para uma análise aprofundada do último tema evocado, que tem a propriedade de atingir todos os outros e que põe sem dúvida o melhor em valor o caráter decisivo das reflexões sobre as práticas religiosas para a construção dos sistemas do mundo e de Deus em muitos cabalistas. Através da eficiência das observâncias religiosas sobre o mundo divino, este não aparece mais como uma estrutura congelada, mas como um sistema relacional interativo cujo dinamismo é regulado pelos atos dos homens. Esta obra é a primeira monografia inteiramente consagrada ao estudo desta componente singular da religião judaica: a crença no poder de ação sobre Deus das obras humanas. Ainda não se estudará nela senão alguns de seus aspectos. A genealogia desta concepção, de suas representações, das exegeses sobre as quais ela se apoia e dos discursos que a sistematizam, é um capítulo importante da história do pensamento judeu. Longo tempo negligenciada pelos modernos por causa de seu caráter teologicamente escandaloso e irracional, esta crença foi rejeitada no domínio tenebroso da magia e do mito, quando ela não foi colocada por conta de um desvio paganizante. Ignorada ou subestimada por aqueles que escreveram a história do judaísmo, ela aparece de mais em mais como um elemento maior do discurso que seus principais responsáveis e autoridades espirituais mantiveram para explicar, justificar e valorizar suas numerosas práticas. Se é a cabala medieval que dá pela primeira vez a esta crença um sólido alicerce conceitual, ela já está presente na Bíblia hebraica, na literatura rabínica e em diversos escritos que evoluem em seu movimento.
Em vários aspectos, esta concepção apresenta semelhanças com a teurgia neoplatônica da Antiguidade findante. Também se tomou o hábito de usar o termo de teurgia para a designar. Se conhece o julgamento muito severo que Kant tinha a seu respeito: «A teurgia é esta loucura mística que se imagina ter o sentimento de seres suprassensíveis e poder agir sobre eles.» (Critique du Jugement, Vrin, Paris, 1952, p. 252) Mas depois, vários trabalhos importantes mostraram o interesse da teurgia para os estudos a respeito do pensamento dos últimos filósofos pagãos, as primeiras reflexões filosóficas sobre os sacramentos cristãos, e o gnosticismo. O interesse da teurgia antiga é igualmente grande para a investigação das correntes do judaísmo que nós qualificaremos, por uma razão que nós vamos explicar, de mistagógicas. Nós quisemos escrever alguns capítulos da história do que se tornará uma doutrina professada pelas mais altas autoridades rabínicas. Até o fim do século XVIII, e em certas paragens até o fim do século XIX ou até o meio do século XX, a crença segundo a qual as práticas do culto e os mandamentos da lei agem sobre a divindade, suscitará tentativas de sistematização e de explicação que formarão o coração de grandes obras religiosas.
Devemos desde já nos explicar sobre uma opção terminológica importante que vai contra um hábito bem enraizado. Nós preferimos a palavra «mistagogia» e seus derivados em lugar da palavra «mística» para qualificar, com um termo de origem grega, a cabala em tanto que fenômeno situado na história geral das ideias e das religiões. Como o observa com razão Pierre Hadot, «a palavra “mística” é um termo mal definido, que se usa frequentemente a esmo. Esta imprecisão provém provavelmente do fato que esta palavra foi empregada de uma maneira técnica em sentidos muito diferentes». O sentido mais correntemente usado é aquele que os psicólogos e os historiadores da espiritualidade lhe emprestaram: designa então os «estados psicológicos, análogos à experiência unitiva plotiniana» que se caracterizam «pelo distanciamento de toda atividade corporal» e que implicam exercícios puramente espirituais. Mas esta palavra, como o indica ainda P. Hadot, «é empregada pelos neoplatônicos em um sentido muito diferente .... Ela designa o que tem relação com os mistérios, portanto com os ritos religiosos e teúrgicos, e por extensão, com o que é escondido, secreto, misterioso». O fato que estes dois sentidos quase contraditórios são ligados a uma só palavra conduz este autor a estimar «que a solução a mais sábia seria a de banir esta palavra, fonte de confusão e de obscuridade». É esta solução que nós escolhemos, pelo menos no que concerne à qualificação geral da cabala. Se preferimos a palavra mistagogia, é que ela é empregada frequentemente pelo neoplatônico Proclo (século V) para designar tradições secretas, mistérios divinos transmitidos sob forma de enigmas. A etimologia desta palavra evoca ao mesmo tempo a ideia de segredo e a ideia de ensinamento ou de iniciação. Para Jean Trouillard, «a ideia sugerida é portanto a de uma sabedoria que não é apenas especulativa, mas transformadora». Embora nós vamos contra um hábito largamente consagrado pelo uso moderno, a preocupação com a precisão nos parece dever prevalecer sobre toda outra consideração. Nós não entendemos evidentemente negar a existência de atitudes ou de experiências místicas no seio da cabala medieval ou pós-medieval, nem o caráter místico dos discursos que tratam delas, mas eles são apenas um dos aspectos importantes e não deveriam autorizar a generalização do uso deste termo ao ponto de fazer da expressão «mística judaica» uma sorte de equivalente do hebraico qabbalah (cabala).