VIDE: TÚNICAS DE CEGO; SALIVA
EVANGELHO DE JESUS: MILAGRES DE JESUS: CEGO DE BETSAIDA E NASCIDO CEGO
Não é estranho, pois, que os termos "cego", "cegueira", "surdo", "surdez" apareçam nos evangelhos com sentidos figurados. E mais: a transposição de sentido não é original dos evangelistas, mas uma continuação do uso comum na literatura profética.
Como se vê, a cegueira e a surdez podem significar não só incapacidade de compreender, como também resistência ou repulsa para compreender, o que equivale à rebeldia.
Além disso, os próprios evangelistas apontam o sentido figurado da cegueira e da surdez que aparecem nos evangelhos. Por exemplo, a primeira vez que Marcos alude à cegueira e à surdez (Mc 4,12: "a fim de que, vendo, vejam e não percebam; e, ouvindo, ouçam e não entendam"), estas se referem à multidão, indicando que é impossível para ela compreender a mensagem de Jesus, a menos que primeiro mude de atitude. Todas as passagens posteriores que falam de surdez ou de cegueira dependem desta e, nelas, a respectiva incapacidade é sempre figura que assinala a dificuldade para perceber uma realidade ou a resistência para compreendê-la. Assim o expressa Jesus na invectiva que dirige aos discípulos, estabelecendo paralelo entre a cegueira e a surdez de um lado e a obcecação da mente de outro (Mc 8,17s: "Tendes o coração (a mente) endurecido (obcecado)? Tendes olhos e não vedes, ouvidos e não ouvis?").
Pode-se dizer o mesmo dos outros três evangelistas. Assim, em Mt 11,5 promete-se como obra do Messias que os cegos recuperarão a vista, aludindo a Is 35,5s e 42,18, onde se usa o termo em sentido figurado. Segundo Isaías, na missão do Servo de Javé se incluía "abrir os olhos aos cegos", por ser ele "a luz das nações" (Is 42,6s); neste contexto, "os cegos" são, pois, os gentios, que não conhecem o verdadeiro Deus. Em Mt 15,14, Jesus chama os fariseus "cegos e guias de cegos", com claro sentido figurado.
O mesmo convém dizer da surdez, que pode ser acompanhada da mudez, como em Mt 9,32s; 12,22; Lc 11,14.
Em João não aparece a surdez; além disso, ele suprime a sua menção no texto de Is 6,10, antes citado (Jo 12,40: "Cegou-lhes os olhos e endureceu-lhes (embotou-lhes) o coração (a mente), para que seus olhos não vejam, seu coração (sua mente) não compreenda e não se convertam, e eu não os cure"). Isto se deve ao fato de que João, a partir do Prólogo, utiliza "a luz" como símbolo da vida contida no Projeto divino (1,4: "A vida era a luz do homem") e formula a decisão fundamental do homem como sendo a opção entre "luz" e "trevas" (3,19-21).
Além de aparecer no texto de 12,40 antes citado, a cegueira aparece em João em outras duas ocasiões: atingindo a multidão que jaz na piscina (5,3) e no cego de nascença (9,lss).
O significado da cegueira em João é a incapacidade de perceber o esplendor da glória/amor de Deus manifestada em Jesus (na glória/amor de Jesus). Ela é provocada pelas "trevas" que impedem ver, isto é, pela ideologia do sistema judaico, que propõe falsa imagem de Deus, em que não se pode reconhecer seu amor. (Excertos de "EVANGELHO — FIGURAS E SÍMBOLOS", de Juan Mateos e Fernando Camacho)Gregório do Sinai: 137 sentenças diversas
5. Ser insensível equivale à morte. E ser cego em espírito é como não ver em seu corpo. Um é privado da faculdade de viver e de agir. E o outro, que não vê, é privado da luz divina, que permite ver e ser visto.
Boaventura: Itinerarium mentis in Deum IV, 1, V, 4
Não é apenas olhando através de nossa alma que devemos considerar a Deus, mas devemos contemplá-lo igualmente na alma mesma.
Parece estranho que, tendo Deus tão perto de nosso espírito, como fica demonstrado, haja tão poucos que se apliquem a considerá-lo em si mesmos. A causa porém é que nossa alma, distraída com os afazeres da vida, não entra em si pela memória; obnubilada pelas imagens vãs deste mundo, não reflete sobre si mesma com a inteligência; e seduzida pelos atrativos da concupiscência, não volta a si com desejo da suavidade interior e do gozo do espírito. E por isto, toda submersa no sensível, torna-se incapaz de encontrar em si mesma a imagem de Deus. (...)
É estranha, pois, a cegueira de nosso entendimento que não considera aquilo que vê antes de tudo e sem o que nada pode conhecer, mas que, como o olho distraído em olhar a variedade das diferentes cores, não atenta para a luz com que vê o demais, e se a "Vê, não a percebe; assim o olho de nossa inteligência, ocupado com os entes particulares e universais, não percebe o Ser que está sobre todo gênero, embora seja o primeiro a oferecer-se à mente, fazendo-a apta para conhecer o demais. De onde se torna verdadeiro o dito de Aristóteles (se bem que o dissesse em outro sentido), que "o que acontece ao olho do morcego com a luz, o mesmo sucede a nosso entendimento com as coisas mais evidentes da natureza"; porque habituado à obscuridade dos entes criados e aos fantasmas dos objetos sensíveis, parece-lhe nada ver quando olha a luz do sumo Ser; não se compenetrando de que esta névoa é a luz mais deslumbrante. O mesmo acontece ao olho corporal quando olha fixamente o sol, ao parecer-lhe não ver coisa alguma.
Roberto Pla: Evangelho de Tomé - Logion 34