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Batut Pantocrator


Contribuição e tradução de Antonio Carneiro, retirada de Jean-Pierre Batut, Pantocrator. Dieu le père tout-puissant dans la théologie prénicéenne, « Collection des études augustiniennes », Institut d’études augustiniennes, Paris, décembre 2009, 581 p., 45 euros.

Pantocrator 1 é encontrado no século II antes de Jesus Cristo na tradução grega da Bíblia hebraica (« Bíblia Septuaginta » denominada correntemente pela sigla LXX), que na maioria dos casos, traduziu o hebreu “Seba’ôt” 2 . No interior do Novo Testamento encontra-se dez vezes: uma vez em uma epístola paulina (2 Co 6, 18) e nove vezes no Apocalipse. Entre os múltiplos qualificativos que o Novo Testamento discerne a Deus o Pai 3 , a frequência dessas ocorrências é modesta, mas, seu contexto é sempre muito significativo: trata-se com efeito do fim dos tempos, do cumprimento do designo de Deus e do estabelecimento definitivo de seu reino — quando, segundo a expressão do apóstolo Paulo, será enfim « tudo em todos » (1 Co 15, 28). É assim que no capítulo 21 do Apocalipse, o Vidente sublinha que a Nova Jerusalém não tem mais necessidade do templo, porque a presença de Deus não tem que estar mais circunscrita em um lugar preciso: « é, disse, o Senhor Deus que é seu Templo, assim como o Cordeiro » (21,22).

Nessas palavras do Apocalipse, outro ponto prende de imediato a atenção: quando é dito que « o Senhor Deus » é o Templo « assim como Cordeiro », e que o Cordeiro não pode designar senão o Cristo; é bastante verosímil que o Pantocrator do qual fala o Novo Testamento não seja outro senão o Pai de Jesus Cristo. Mas, a partir daí, embora a expressão da fé solenizada pelo Símbolo não atribua a nenhum outro senão ao Pai o título de Pantocrator 4 , o pensamento cristão será logicamente conduzido a afirmar que o próprio Cristo é pantocrator com o Pai. Afirmação reversível, resultando a ideia de que o próprio Pai não pode ser pantocrator sem o Cristo 5 . Desde logo, será necessário se interrogar sobre o papel representado pelo Cristo na conclusão da História evocada pelo Apocalipse através da figura do Pantocrator « tudo em todos ». Através desse papel, o qual tudo leva a pensar que deva ser determinante, entreve-se já, como atrás da problemática do que chamamos a “pantocratoria” 6 , quer dizer, o reino de Deus sobre o mundo com e por seu Filho, se perfila todo o exercício concreto da economia divina sobre a história do universo, após sua criação até sua glorificação última.

Para precisar esse último ponto, podemos agora reunir três características do Pantocrator que o diferenciam do « Todo-Poderoso » tal qual a imaginam nossas representações as mais imediatas:

1. Em primeiro lugar, seu poder não é considerado somente em si mesmo, mas, também em relação ao mundo e à humanidade sobre as quais se exerce. Os tradutores francófonos os mais recentes do Novo Testamento não se enganaram aí, visto que renunciam cada vez mais a representar pantocrator por « todo-poderoso », lhe preferindo um termo que conote uma relação 7 . Com efeito, à diferença do latim “omnipotens” e do francês « todo-poderoso », pantocrator não é um termo absoluto, mas, um termo relacional. Para dizer de outro modo: Deus é todo-poderoso em si mesmo; mas, quando se diz pantocrator, é para indicar também que é todo-poderoso em relação à outra coisa que não seja ele. Em vez de categoria do poder, capacidade — “potentia” —, o poder é aqui categoria da soberania — “potestas” 8 . O Deus pantocrator não é Aquele que « pode tudo fazer », é o Deus que reina sobre o universo.

2. A essa noção de soberania sobre o universo, é preciso acrescentar uma característica de ordem diacrônica, mais admirável ainda pela compreensão espontânea que temos de Deus: assim como notamos a propósito das ocorrências de pantocrator no Novo Testamento, o exercício efetivo da soberania divina não é apresentado como dado no início, mas, como adquirido no fim da história. É o que proclama a « multidão imensa » do capítulo 19 do Apocalipse aclamando as núpcias do Cordeiro: « Estabeleceu seu reino, o Senhor Deus pantocrator » (19,6). Se esta tomada de possessão não advém senão no fim, nos é necessário então constatar um afastamento entre o que regressa a Deus de direito, enquanto é Deus, e a fruição efetiva e definitiva de sua soberania: este afastamento, examinar essa separação que Deus deixa subsistir, corresponde ao devir do universo e da humanidade. Daí decorre a valorização cristã da história: este é um lugar teológico porque nele se cumpriu o crescimento da humanidade, a oferta divina de uma salvação, e a livre ratificação dessa salvação pelo homem. Por consequência, o poder divino tal qual está compreendido no título pantocrator é certamente totalizante, mas, em nada totalitário. É totalizante porque Deus é a Alfa e a Ômega, começo e fim; mais não é totalitário porque o engajamento das liberdades espirituais se encontra absolutamente exigido para que a história universal possa chegar a seu termo.

3. Chegamos assim a uma terceira característica, que nos é necessário de início formular de maneira interrogativa: se Deus, em virtude das regras que Ele mesmo colocou, se obriga a depender de liberdades espirituais para acceder à sua soberania ultima sobre o mundo, qual possa ser a liberdade humana que lhe obtém de maneira definitiva? Para esta questão, o cristianismo responde confessando a fé no ato redentor do Cristo, que Deus proclamou Senhor em sua glorificação pascal (Fl 2, 11). Tendo desde agora recebido « toda autoridade, no céu e na terra » (Mt 28, 18), não esperando menos ainda que seus inimigos sejam colocados « sob seus pés » (1 Co 15, 25; cf. Ps 110, 1) para quando retorne, no fim da história, remeta enfim a Deus o Pai « o reino » (15, 24) que adquiriu a tão grande preço.

Viu-se então já em qual sentido o Pai é pantocrator pelo Cristo, mas também, por via de consequência, que o Cristo é necessariamente pantocrator com o Pai. Mesmo se a profissão da fé cristã não fale senão do « Pai pantocrator », não é menos legítimo de falar do « Cristo pantocrator » e de representá-lo em sua glória de Senhor, uma vez que nele o Deus invisível é para sempre dado um rosto. É impossível de não evocar a esse propósito os Cristos pantocrators das cúpulas e das absides bizantinas do século XII, como aquele da capela palatina de Palermo, ou ainda aqueles de Monreale, de Cefalù ou de Dafni 9 . Para nossa tradição cultural e artística, o Pantocrator é muito o Cristo em glória — é tão verdade que esquecemos frequentemente que esse título ocorre em primeiro lugar ao Pai.


NOTAS:
1 Escolhemos por transliterar daqui por diante com esta ortografia, comumente acatadas nos países francófonos. Em regra geral, reservamos a maiúscula para os casos onde o termo está empregado como um nome próprio.
2 Esse vocábulo divino foi conservado em nosso “Sanctus” sob a forma “Sabaoth”.
3 Para não citar senão os termos os mais correntes, é « bom » (Mt 19, 17 = Mc 10, 18; Lc 18, 19), « misericordioso » (Lc 6, 36 ; Jc 5, 11), « excelente » (Lc 6, 35), « perfeito » (Mt 5, 48), « justo » (Jn 17, 25 ; Ap 16, 5), « verídico » (Jn 3, 33 ; 8, 26 ; Rm 3, 4), « santo » (Jn 17, 11 ; Ap 3, 7 ; 4, 8 ; 6, 10 ; 1 Jn 2, 20)... Para limitar-se ao registro do poder que nos diz respeito diretamente, encontra-se substantivos tais como « Senhor », « Mestre » ou « Rei ». Mesmo se esses títulos (e em particular o primeiro) tendam a ser utilizados também para designar o Cristo, as « regras de fé » primitivas como o próprio Símbolo poderiam escolher um dentre eles no Novo Testamento para designar o Pai, de preferência ao pouco frequente “”. Teremos que prestar conta da estranheza desta escolha.
4 Recorde-se que o Símbolo conhecido sob o nome de « profissão de fé de Niceia-Constantinopla » enuncia da seguinte maneira a fé em Deus o Pai: o mesmo vale para o Símbolo dito « dos Apóstolos ».
5 Cf. Orígenes, “Peri Archôn” I, 2, 10: « É por seu Filho que o Pai é pantocrator ».
6 A palavra, ausente da Bíblia, é tardia, porém, atestada na literatura patrística: cf. Pseudo Atanásio, Disp. 37, PG 28, 488 C e Dídimo, Trin. 3, 2, PG 39, 789 D (G. W. H. Lampe, “A Patristic Greek Lexikon”, Oxford 1961, 1005).
7 Nas traduções francesas recentes do Apocalipse (1, 8; 4, 8; 11, 17; 15, 3; 16, 7; 16, 14; 19, 6; 19, 15; 21, 22), essa escolha é cada vez mais frequente e cada vez mais sugestiva do ponto de vista lexical. Enquanto as Bíblias mais antigas (tais como a Bíblia de L. Segond e a de A. Crampon) traduzem muito regularmente por « Todo-Poderoso »; a Bíblia de Jerusalém (Paris, Cerf 1956) inova com « Mestre de tudo ». Esta audácia marcará passo com a Bíblia de Émile Osty e Joseph Trinquet (Seuil 1973) e com a Tradução ecumênica da Bíblia, que voltaram ambas ao uso anterior. Em contrapartida, a Bíblia das Comunidades cristãs (Bernard e Louis Hurault, Jean Van Der Meersh, Paris, Médiaspaul 1994) oferece para « Mestre do Universo », e a tradução mais literal das edições Bayard (Paris/Montréal 2001) vai mais longe ainda propondo um decalque da palavra grega: « Poderoso-sobre-tudo ».
8 Em alemão — língua onde abundam os termos exprimindo a força —, dir-se-á não “Kraft” (força, potência, vigor, energia) ou “Gewalt” (força, poder, domínio, violência), mas “Macht” (força, poder, potência, autoridade) ou “Herrschaft” (poder, domínio, cetro).
9 Sem falar dos tímpanos romanos como aqueles de Moissac ou de Vézelay, que remontam igualmente ao século XII.